O casal do sorteio da Copa e o discurso de Fernanda Lima

Por Cristiano Hernandes, Jorge Kanazawa e Paulo Motoryn

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Rodrigo Hilbert e Fernanda Lima: o “casal da Copa” (Foto: Divulgação)

A atriz e apresentadora Fernanda Lima foi confirmada nesta semana como integrante do casal oficial do sorteio dos grupos da Copa do Mundo da Fifa, na Costa do Sauípe. Ela será acompanhada pelo também ator e apresentador Rodrigo Hilbert. A escolha pelo casal ocorreu em detrimento à sugestão da Globo, de que Camila Pitanga e Lázaro Ramos, ambos negros e também integrantes do quadro de funcionários da emissora fossem os mestres da cerimônia.

Em resposta às acusações de racismo, a Fifa afirmou que “as propostas para os apresentadores são feitas pela agência Geo, em coordenação com a Globo.” Além disso,  segundo a entidade, os dois foram selecionados após a Geo enviar uma lista com “diversos nomes.”

Abordada pela imprensa, Fernanda Lima respondeu: “Acompanhei esse bochicho todo que saiu na imprensa. Mas eu sou funcionária, uma comunicadora. Fui convocada e como tal aceitei e vou fazer o meu trabalho. O que eu tenho a ver com isso? Só porque eu sou branquinha?”

lazaro-ramos-camila-pitangaLázaro Ramos e Camila Pitanga não estão no padrão Fifa? (Foto: Reprodução)

A atriz resume a cobertura do caso pela mídia – repercussão da reação dos movimentos sociais organizados e de cidadãos em geral revoltados com o caso – a um “bochicho” na “imprensa”. Como comunicadora, Fernanda Lima deveria saber que é inconcebível associar os grandes veículos de comunicação às causas negras, afinal seus próprios editoriais bradam contra as políticas afirmativas e de combate ao racismo.

As declarações de Fernanda Lima podem parecer inocentes, mas em um país em que as forças de repressão estatal praticam uma política de extermínio da população preta, não deixam de ser uma ironia mórbida. Afinal, o caso ganhou repercussão em um contexto que assusta: ao redor do planeta, não param de acontecer casos de racismo dentro de campo e nas arquibancadas.

Recentemente, Yaya Touré, marfinense e volante do Manchester City, da Inglaterra, tentou dar um basta. Na partida entre CSKA Moscou, da Rússia, e o time de Touré, a torcida do CSKA imitava sons de macaco toda vez que o marfinense estava com a bola. Touré ficou indignado e após o jogo, foi enfático ao declarar que poderia liderar um boicote de jogadores negros à Copa de 2018, realizada justamente na Rússia.

“É um problema real aqui (na Rússia), algo que acontece o tempo todo, e é claro que eles precisam resolver o problema antes da Copa do Mundo. Caso contrário, se não tivermos confiança para ir ao Mundial na Rússia, nós não iremos”, afirmou o jogador, reavivando a chama da luta contra o racismo no futebol.

Outro episódio de racismo na Rússia envolveu Roberto Carlos, ex-lateral esquerdo campeão mundial de 2002 com a seleção brasileira. O brasileiro jogava pelo Anzhi Makachkala na época, e em jogo contra o Krylya Sovetov, teve uma banana atirada em sua direção, vinda das arquibancadas. Roberto Carlos ficou irritado e abandonou o jogo sem esperar o apito final. À época, o brasileiro também havia cobrado as entidades responsáveis.

No Brasil, alguns episódios específicos sobre racismo no futebol ganharam repercussão, mas não são tratados com a devida profundidade pela mídia que os resume em novelas, verdadeiros dramalhões mexicanos, que exploram a fundo um caso pontual, sem oferecer uma contextualização histórica da política de repressão e racismo que envolve a questão.

leandro desabatoO argentino Leandro Desábato recebe voz de prisão em campo, em 2005 (Foto: Eduardo Brito)

Em 2005, Grafite, atacante que na época jogava pelo São Paulo, em jogo contra o Quilmes, da Argentina, foi chamado de macaco por Leandro Desábato, zagueiro adversário. Desábato foi preso ainda no campo do Morumbi, mas foi solto após pagar multa de R$ 10 mil. Grafite retirou as queixas que havia dado em primeiro momento e disse mais tarde que errou na condução do caso.

Na Copa do Brasil de 2010, o zagueiro Danilo atuava pelo Palmeiras e jogava contra o Atlético-PR, quando após uma discussão deu uma cusparada e xingou o também zagueiro Manoel, do time paranaense, de macaco. O atleticano foi direto para o distrito policial registrar um boletim de ocorrência. Em junho deste ano, Danilo foi condenado a um ano de prisão em regime aberto, mas a pena foi substituída pelo pagamento de 500 salários mínimos (cerca de R$ 350 mil) a uma instituição de caridade.

Ignorando esse panorama, a Fifa confirma o casal Fernanda Lima e Rodrigo Hilbert e ignora mais de 500 anos da história brasileira. Para além do sorteio dos grupos da Copa do Mundo e do universo do futebol, o racismo está nas ruas todos os dias. Resta tornar o “bochicho” que Fernanda Lima diz ter ouvido em um estrondoso grito: racistas não passarão!

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2 responses to “O casal do sorteio da Copa e o discurso de Fernanda Lima

  1. Que porcaria de post.o futebol representa a uniao de todos: racas, etnias, estilos, idades. Eh e sempre foi um elo entre sociedades. As vezes um elo fragil. Mas acossar a fernanda lima por isso?

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