A invisibilidade do catador de lixo e a arte como resgate da dignidade

Pimp My Carroça promove intervenção urbana para valorizar catadores de lixo, “que estão na rua e são marginalizados, assim como o grafite”, afirma Mundano, em entrevista exclusiva

Por Suria Barbosa e Victoria Azevedo

Ninguém ouve, vê ou pensa nos carroceiros que recolhem os lixos recicláveis que deixamos por aí. O fato é: os catadores têm como profissão ajudar o meio ambiente e, mesmo no tempo das sacolas retornáveis (quem retorna?) e da eco-consciência, são pouco reconhecidos.

Nesse cenário, apareceu um grafiteiro que idealizou um programa que propõe a valorização, por meio da arte, das carroças dos catadores de lixo. O nome do projeto é Pimp My Carroça (numa clara referência ao Pimp My Ride) e o grafiteiro em questão, Mundano, começou em 2007 a trabalhar com carroceiros, porque via uma semelhança entre os dois mundos: “Os catadores estão na rua e são marginalizados, assim como o grafite” explica.

pimp1Pimp My Carroça em Curitiba (Foto: Flickr)

Geraldo dos Santos, catador, concorda com o grafiteiro: “A discriminação existe. Marginal, ignorante. No dia a dia, muitas pessoas discriminam. Acham que somos dependentes, viciados, que roubamos”.

O Pimp das carroças teve edições em São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba. Em um dia de evento, grafiteiros “pimpam” com desenhos e frases as carroças. A reforma vai além da parte estética: também colocam retrovisores, faixas reflexivas e outros equipamentos de segurança. No dia, os catadores (e suas famílias), são, finalmente, recompensados pelo árduo trabalho de protetores ambientais. Passam por check-ups com médicos, cortam o cabelo, fazem as unhas e recebem massagens. O que o Pimp faz? “Aumenta a autoestima do catador, quebra um pouco o preconceito e, mais que isso, torna a categoria mais visível” conta Mundano.

Acrescenta que “como era um projeto meio polêmico, não tinha apoio de prefeituras ou empresas”. Dessa forma, recorreu ao mecanismo de crowfunding, que custeia toda a estrutura do projeto, utilizando a plataforma Catarse. Uma vez que o projeto passou a adquirir visibilidade com aparições na mídia, pode-se contar com doações de empresas, além de mão-de-obra voluntária.

pimp 3Carroças “pimpadas” preservam elementos do grafite (Foto: Flickr)

O que mais dificulta o progresso do projeto é “não conseguir engajar o número necessário de pessoas dispostas a patrocinar”, porque, apesar de muita ajuda e material conseguido, todo o resto depende do dinheiro do financiamento coletivo – quantia essa que ele revela ser menor do que a necessária para consolidar o projeto, pois ele conta com apoiadores. Além disso, critica o discurso “sustentável” de várias empresas: “A prática somos nós, e com uma pequena verba a gente conseguiria rodar o Brasil todo”.

Há uma grande demanda por parte dos catadores, então o cadastro é feito de acordo com a localização do evento. “Procuramos os catadores que são ‘heróis anônimos’, que trabalham há muito tempo, resgatam 300 quilos de material por dia e sustentam a família, bancando os custos da educação dos filhos, personagens que merecem o reconhecimento” diz Mundano. Com os artistas é diferente: alguns são convidados e outros participam porque se interessaram pela iniciativa e pedem para fazer parte – são sempre artistas locais, por conta da logística. Mundano ressalta que pretendem manter a parceria com os grafiteiros sempre, assim preservando o “DNA do grafite”, que foi como começou o projeto.

pimp 2“Nós vivemos do lixo, cabe às pessoas perceberem”, diz catador (Foto: Flickr)

Além disso, Mundano acredita que cada vez mais devem surgir iniciativas de projetos como esses, pois “a própria sociedade civil vê que não pode só depender de ações governamentais, acorda e percebe a necessidade de ‘arregaçar as mangas”.

Para Geraldo dos Santos, “as pessoas andam se conscientizando de que a reciclagem é um meio de limpar a rua, o mundo. Os catadores, nós, vivemos do lixo e do que o lixo produz, então podemos ajudar a melhorar a situação. Cabe às pessoas perceberem”.

Ele também faz uma ressalva sobre a Copa do Mundo em 2014 no Brasil que vai gerar uma enorme quantia de resíduos, talvez a maior na história do país. “Eu gostaria de ver mais projetos com os catadores, porque eles não estão sendo envolvidos nesses investimentos, e prestarão um importante serviço para todos.”

Para o futuro, o Pimp planeja consolidar o projeto expandindo sua atuação por outras cidades do Brasil e, com isso, dar mais voz aos catadores, possibilitando a garantia de direitos para a categoria e também a sua visibilidade na sociedade.

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