Vida e luta: Jorge Ribeiro

Por Cristiano Hernandes, Jorge Kanazawa e Paulo Motoryn

Jorge Pinheiro nasceu em 1945, no Rio de Janeiro. Seu pai se chamava Amynthas, nasceu em 1899, e tinha uma diferença de idade de quase vinte anos em relação à sua mãe. Faleceu quando ele ainda era criança. Sua mãe, Maria José, veio de uma família de fazendeiros e comerciantes de café, em Minas Gerais. A família dela era formada por abolicionistas e republicanos históricos, e, a partir da República, sempre teve políticos na família e, nas duas últimas gerações, muitos jornalistas. Ele inclusive.

Seu pai era socialista e foi convidado várias vezes para ser candidato pelo Partido Socialista Brasileiro. Era jornalista. Trabalhou no Jornal do Brasil, e, já na maturidade, formou-se em Direito. Nos últimos anos de vida, foi industrial. Comprou jazidas de areia monazítica em Barra de Itabapoana, no Estado do Espírito Santo. Dessa areia obtém-se a monazita, que fornece o fosfato natural de cério. O óxido do cério é utilizado na fabricação de mangas de incandescência dos reatores nucleares. Seu pai exportava a monazita para os Estados Unidos.

Em 1953, o presidente Getúlio Vargas nacionalizou o subsolo brasileiro, e, como fruto dessa nacionalização, seu pai perdeu o direito de exploração das jazidas. Sendo socialista, nunca criticou o presidente. Meses depois, já muito doente, morreu de complicações cardíacas.  “Uma coisa que me marcou muito foi o trauma da guerra. O drama da guerra levou meu pai a me colocar numa escola para eu aprender a usar e a escrever com as duas mãos. Devia ser ambidestro, porque nas guerras, as pessoas mais afetadas são as crianças, e a parte do corpo que mais se perde são os braços. Hoje sou ambidestro”, disse.

OPNI_002

 

(Grafite: Coletivo OPNI)

Na adolescência, foi criado por seu tio austríaco, Walter, casado, em primeiras núpcias, com sua tia Iracema, que era estilista no Rio de Janeiro. Teve uma formação européia e, na adolescência, era frequentador de bibliotecas: “Aos 14 anos já tinha lido Platão, Aristóteles, Schopenhauer, Nietzsche, Spengler e os positivistas brasileiros, em especial Farias Brito.” Recebeu a Revista Vaidapé em seu gabinete pastoral, onde conversamos.

Em 1961, o vice-presidente João Goulart estava na China, o presidente Jânio Quadros havia renunciado, e o governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, iniciou uma campanha nacional, para que João Goulart retornasse e ocupasse a presidência do país; mas a União Democrática Nacional (UDN) e setores militares não queriam que João Goulart assumisse a presidência. “Era presidente do Centro Acadêmico da Escola Estadual José Pedro Varela (…)  envolvemos toda a escola nas mobilizações, que, a esta altura, aconteciam de norte a sul do país, e pressionavam a opinião pública a apoiar a volta de João Goulart.”

Em 1966, entrou para a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC): “Até aquele momento, era um jovem sem comprometimento religioso e sem espiritualidade definida. Quando entrei para a universidade, considerei-me ateu e passei a ter uma atividade política que norteou minha vida nos vinte anos seguintes”, disse.

Tornou-se um ativista político, começou a ler os clássicos do marxismo e foi convidado a fazer parte da diretoria do Centro Acadêmico de Ciências Sociais da PUC. “Participei de todas as mobilizações e passeatas estudantis da época. Assisti à morte de Edson Luís, o primeiro rapaz assassinado em uma manifestação, no governo militar. Essa morte gerou mobilizações incríveis, que acabaram levando a uma passeata de cem mil pessoas no Rio de Janeiro.”

“Nunca havia acontecido nada parecido no país”, disse, “a situação nacional levou-me a radicalizar minha atividade política, ligando-me ao Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), que era dirigido do exterior pelo ex-governador Leonel Brizola”. A partir do final de 1966, além de estudante, passou a trabalhar na revista Manchete: “Comecei, então, a ter uma vida dupla, era jornalista, mas também ativista político clandestino. Recebi instrução e adestramento militar clandestinos, com companheiros formados em Cuba. Especializei-me na construção de bombas e minas antitanques”.

Em 1969, o país vivia o momento mais duro de todo esse período de governo militar. As garantias e direitos democráticos estavam suspensos, havia censura de imprensa e perseguição violenta a toda e qualquer oposição, fosse ou não radical.  “Muitos companheiros meus tinham sido presos, outros torturados e mortos. Fiz um acordo com a Manchete e deixei a revista, a Universidade Católica definiu minha exclusão por ausência presencial no curso. Eu não tinha mais condições, devido à militância, de frequentar a PUC. Eu seria um dos próximos da lista de prisões. A situação ficou insustentável. Recebi ordens do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR) para sair do país.” Assim, teve início seu primeiro exílio.

Saiu do país no final de 1970. Passou pela Argentina e foi para o Chile. Lá foi bem recebido. Entrou para a Universidade do Chile e fez amizade com vários políticos brasileiros exilados, entre os quais Mário Pedrosa, intelectual de expressão internacional: “Mário Pedrosa acompanhou minha vida de exílio, e abracei o trotskismo, uma das correntes mais ativas do comunismo internacional. Fundamos, então, o Grupo Ponto de Partida, que tinha a finalidade de construir, no Brasil, um Partido Socialista. Tornei-me um dos dirigentes do trotskismo a nível internacional, atuando no Movimento de Esquerda Revolucionário (MIR chileno)”.

Viveu e atuou, politicamente, no Chile, por três anos. Foi operário numa fábrica metalúrgica, como soldador. Em meados de 1973, houve a primeira tentativa de golpe para derrubar o presidente Salvador Allende: “Junto com outros companheiros operários, transformamos a metalúrgica numa fábrica de armamentos leves e começamos a produzir bombas de baixo poder destrutivo. Nossa intenção era preparar a fábrica para a produção de armas, caso houvesse um confronto prolongado, com os setores militares que desejavam derrubar o governo socialista. E houve uma primeira tentativa de golpe, mas foi frustrada. Sabíamos que vinha uma outra. Todo mundo sabia. Então mudei da casa onde morava, porque era muito visada. Moravam aí: nós, militantes brasileiros, argentinos do Exército Revolucionário do Povo (ERP) e uruguaios do Movimento Tupamaro”, disse.

“Eu e uma amiga, a moça com quem vivia, fomos morar num hotel, na Rua London, que fica mais ou menos a seis quarteirões do palácio La Moneda, sede da presidência da República. Nesta época, eu era dirigente do Grupo Ponto de Partida, da Internacional Trotskista, e ativista do Movimento de Esquerda Revolucionário. Minha amiga trabalhava numa fábrica têxtil no Cordão Industrial de Cerrillos.”

No dia 11 de setembro de 1973, às 10 horas da manhã, o general Augusto Pinochet exigia que o presidente Salvador Allende renunciasse à presidência e se entregasse aos militares. Caso contrário, em quinze minutos, o palácio La Moneda seria bombardeado.

“Não acreditei na ameaça do general”, disse. “Bombardear o palácio significava bombardear o centro da cidade. Mandar tudo pelos ares. Mas Pinochet cumpriu o que prometeu (…) apareceram no horizonte quatro pequenos pontos. Eram aviões-caças, que foram crescendo, e depois lançaram seus mísseis sobre o palácio. Acertaram todos, de tal forma que o La Moneda pegou fogo, desabou por dentro, mas as paredes externas do palácio ficaram em pé. Eu nunca tinha visto nada igual. Em minutos o céu ficou coberto de fumaça. Uma fuzilaria tomou conta da cidade.”

“Naquele dia, não consegui sair do hotel. Chovia bala. Ao lado do hotel, havia uma sede do Partido Socialista. De lá matraqueava uma metralhadora e tiros esparsos de fuzil. A sede socialista estava cercada por militares entrincheirados. Um helicóptero do Exército apareceu, voou baixo, parou em frente ao prédio e abriu fogo de metralhadora contra os resistentes. Fizeram isso várias vezes durante aquele dia. A impressão que eu tinha era que as balas iam arrebentar as paredes do hotel. Era impossível por o pé na rua. Quando chegou a tarde, recebi um telefonema da Base Aérea de Cerrillos. Era minha amiga: ela falou comigo chorando: ‘Estou presa, você precisa vir me soltar’.”

“Passou pela minha cabeça que, se eu não fosse soltá-la, nunca mais iria vê-la”, disse. “No dia seguinte, a primeira coisa que fiz, numa atitude tresloucada, foi, esgueirando-me o melhor que podia, dirigir-me ao Quartel General do Exército. Cheguei lá e pedi para falar com a assessoria de imprensa, como resposta, recebi ordem de prisão: ‘Você é brasileiro? Está preso’.”

“Não tinham onde me por: me deixaram no corredor”, disse, “e aí fiquei de pé, de cara para a parede, desde o início da manhã até a tardinha, vigiado por um soldado. Era o segundo dia do levante militar, estava um confusão enorme, e lá pela tarde, o Quartel General começou a ser bombardeado por obuses. Os estilhaços caiam dentro do corredor. Soldados corriam para todos os lados. Trocaram o soldado que me vigiava, e eu aproveitei a confusão e dei uma ordem: ‘Leve-me imediatamente ao quinto andar, à assessoria de imprensa'”.

“O soldado reclamou, disse que não podia, mas diante de minha intransigência, acabou concordando. Quando cheguei ao quinto andar, pedi ao assessor de imprensa que providenciasse um jipe militar, porque tinha que ir à Base Aérea de Cerrillos liberar uma jovem que tinha sido presa por engano.”

O soldado, ainda confuso, o deixou sair do quartel. “Chegar ao hotel não foi fácil”, disse, “havia trincheiras ao longo da avenida e nas esquinas das ruas. Até um ponto do trajeto, trincheiras dos militares, e daí em diante, trincheiras da resistência. Então, eu levantava minha carteira de jornalista, e gritava: Sou jornalista. Corria e pulava na trincheira. Conversava um pouco, explicava que tinha que seguir em frente e ouvia: ‘Se você for em frente vai morrer, vão atirar em você’.”

“Quando eu estava quase chegando à outra trincheira, voltava a gritar: Sou jornalista. E assim quando chegou a noite, eu estava de novo no hotel. No dia seguinte, resolvi ir direto à Base Aérea de Cerrillos, que ficava num bairro distante do centro da cidade. Passei o dia todo tentando encontrar algum transporte, mas não havia condução. Havia o toque de recolher, que proibia as pessoas de transitarem pelas ruas. Tudo estava parado. Quando eram quase cinco da tarde, passou um táxi, o único táxi que eu vira nesses dois dias. Quando o táxi chegou próximo, lancei-me à frente dele e comecei a gritar para que parasse. Ele parou. O taxista me disse que estava indo para casa, que ficava longe, na cidade de Valparaíso. Então, lhe dei voz de prisão: Leve-me à Base Aérea de Cerrillos ou está preso. Ele olhou para mim, estupefato, e perguntou: ‘O senhor é da embaixada brasileira?’ Eu sabia que o governo brasileiro estava apoiando o levante militar, por isso não hesitei: ‘Sou'”, disse.

“Vocês nunca fariam um plano como esse, porque os meus pensamentos são muito diferentes dos seus. Minha maneira de agir é muito diferente da sua!”

Então, o taxista o levou até a base aérea. Quando chegaram, a base aérea estava sendo bombardeada com morteiros: “O táxi passou pelo portão principal, ouvíamos os morteiros zumbindo sobre nossas cabeças e explodindo lá a frente. Rapidamente, os oficiais da Aeronáutica nos cercaram. Caia uma garoa forte. Ordenaram que eu descesse do carro. Fiquei no meio de um gramado; nas guaritas, via soldados armados com fuzis e metralhadoras. Deram uma segunda ordem: ‘Tira a roupa, toda a roupa'”.

“Debaixo da garoa fina tirei a roupa e mergulhei numa imagem ancestral, que nunca vou esquecer: a do judeu nu, massacrado, prestes a ser fuzilado. Um oficial saiu de uma das guaritas, e pediu o meu passaporte. Expliquei que tinha ido buscar uma jovem brasileira. Debaixo da chuva fina, ele abriu o passaporte, olhou-o rapidamente e me devolveu. Mandou chamar a moça. Ela veio chorando, em prantos. Caminhamos para o táxi, mas o motorista, que também chorava de raiva, por ter sido enganado, negou-se a nos levar de volta. Voltei-me ao oficial e disse: ‘Este homem não quer nos levar de volta’. O oficial respondeu: ‘Tem que levar, vocês não podem ficar aqui’. E como entramos, assim saímos da base aérea: debaixo de explosões e do matraquear de metralhadoras.”

“Quando chegamos ao hotel, minha amiga contou que, na manhã do dia 11 de setembro, a fábrica onde trabalhava resistiu ao golpe até acabar a munição. Então, os militares da Aeronáutica, que tinham cercado a fábrica, invadiram as instalações, prenderam todos, encostaram os dirigentes na parede da rua e os fuzilaram na frente de todo mundo. Ela, por ser loura e brasileira, foi poupada; afinal, não sabiam de quem se tratava. Foi levada para a Base Aérea e presa. Ela, porém, informou que era amiga de um jornalista brasileiro, correspondente da agência Dispatch News Service, de Washington. Teve, então, o direito de dar um telefonema, aquele que eu atendi no hotel”, disse.

No hotel, o ambiente estava alvoroçado. A televisão apresentava uma lista de pessoas procuradas, exortando a população a denunciar todos os estrangeiros. Os militares tinham dado dois dias para todos os estrangeiros se entregarem: “Eu, logicamente, não me entregara”, disse, “nem esta era minha intenção”. Jorge e sua amiga sabiam que podiam ser denunciados; mas não tinham escolha. Então, passaram aquela noite rasgando e jogando, pela janela, textos e manuais de guerrilha.

“Quando amanheceu, tínhamos sido denunciados pelo dono do hotel. Os militares esmurraram a porta do pequeno apartamento, quase a arrombaram. Eu abri e fui imediatamente golpeado por coronhadas de fuzil. Foi tudo muito rápido. A cada coronhada, eu desmaiava e, quando voltava a mim, era golpeado de novo. Levaram tudo o que podiam levar: roupas, máquina de escrever, livros; presos, fomos obrigados a caminhar pelas ruas, com as mãos na nuca, numa estranha procissão. Depois, nos jogaram num ônibus, deitados. Começaram, então, a maltratar minha amiga, chutando e pisando nela. Eu gritei: “Não façam isso, ela está grávida”, disse. “Era mentira, mas eles pararam.”

63806799

 

(Grafite: Coletivo OPNI)

 Eles não sabiam, mas estavam sendo levados para o Regimento de Tacna, um quartel onde políticos da resistência estavam sendo fuzilados: “Nos largaram numa espécie de cozinha. Eu caí no chão e, apesar de muito machucado, tive uma sensação de alívio. O chão de ladrilho era frio e me transmitiu uma sensação agradável. Horas depois, chegou um coronel e nos informou: ‘Vocês vão ser fuzilados no início da tarde’”.

No começo da tarde, foram levados. Eram umas oito pessoas, em fila indiana, caminhando para o paredón: “De repente, um tenente me chamou. Eu estava na fila, caminhando, e ele me chamou. Saí da fila, fiz um sinal para minha amiga me acompanhar. E o oficial me perguntou: ‘Você foi preso com muito material subversivo, não é?'”

“Afirmei que era verdade, mas que era jornalista, e que tudo tinha sido comprado. Ele, então, disse que também tinha muitos daqueles livros em casa. Tive uma empatia profunda com aquele jovem. Estava diante de um oficial de esquerda. Apenas nos olhamos. Olhares cúmplices de companheiros que viram seus sonhos queimarem nas chamas do palácio La Moneda”, disse Jorge.

Enquanto isso, os três ouviram, atrás deles, os tiros que abatiam os outros companheiros.

Foram, então, mandados para interrogatório: “Combinei com minha amiga: ‘apenas eu falarei, para que não entremos em contradição'”. Expliquei aos militares que estava estudando na Universidade do Chile, que amava aquele país e que nunca me passara pela cabeça sair do Chile. Foi um interrogatório leve, viram que eu era correspondente estrangeiro, e me entregaram um salvo-conduto, para que eu tivesse livre trânsito. Saímos os dois só com a roupa do corpo. Andamos até que descobrimos um hotel, perto do Plaza de Armas, onde já se encontravam vários exilados brasileiros”, disse.

“Do hotel, telefonei para Nova Iorque, para um amigo, Peter, que, na época, pertencia ao Socialist Workers Party e que mais tarde entrou para o Partido Democrata. Não consegui falar com ele, pedi então a uma jovem que trabalhava no consulado brasileiro, em Nova Iorque, para entrar em contato com Peter. Expliquei a situação e pedi para me mandarem duas passagens de avião Santiago/Buenos Aires e dinheiro via ordem de pagamento. Ficamos no hotel. O dinheiro chegou. Compramos roupas. Quando os aeroportos abriram, chegaram também as passagens.”

Assim, um mês depois do golpe, viajaram, via Pan American, para Buenos Aires. Nesses trinta dias, ajudaram duas dezenas de líderes operários chilenos a deixar o país, atravessando a fronteira em direção à Argentina. “Eram companheiros marcados, que não tinham condições de manter-se na clandestinidade.”

Em 1974, entrou clandestinamente no Brasil. Por sugestão de seu advogado, desistiu de morar no Rio de Janeiro e instalou-se em São Paulo. Regularizou a documentação e voltou a trabalhar como jornalista, agora, no Diário do Comércio e Indústria. Em 1978, Jorge sugeriu aos seus companheiros a formação de um Movimento de Convergência Socialista, que reunisse o socialismo histórico em direção à formação de um Partido Socialista de tipo europeu.

Mas viveram novas prisões: “Jornalistas e editores do jornal Versus, do qual era diretor de redação, na época, foram presos. Fui acusado pelos serviços de inteligência de organizar a formação do Partido Socialista e incurso nos artigos 14, 43, 45, incisos I, II e III do decreto-lei no 898/69 pela 2a Auditoria da 2a CJM, em São Paulo. Com ordem de prisão decretada e procurado pelos serviços de segurança, fui obrigado a entrar para a clandestinidade. E fiquei clandestino quase um ano”, disse.

“Depois, através de acordo de meus advogados com a Justiça Militar, fui levado a julgamento na 2a. Auditoria da Justiça Militar em São Paulo. O juiz, um coronel do Exército, me deu o direito de expor minha defesa, e eu argumentei que nunca tinha cometido crime contra a pessoa, nem contra a propriedade, ou seja, não tinha ferido ninguém, não tinha matado ninguém, nem assaltado bancos.”

“Meu crime era ter lutado por uma sociedade justa, que possibilitasse direitos iguais a seus filhos.” Depois de falar durante duas horas, o tribunal deixou em suspenso todas as acusações contra Jorge. Mas por que? Porque sabiam que a anistia seria sancionada a qualquer momento. Assim, no dia 11 de setembro de 1979, por sentença do Conselho Permanente de Justiça, foi julgada extinta a sua punibilidade com base na Lei de Anistia.

“A profunda crise existencial que vivi a partir de 1977 não era exclusividade minha. Intelectuais europeus que participaram das grandes mobilizações do maio francês de 1968, estavam vivendo angústias semelhantes. Um deles chegou a escrever um livro que tinha como título “Deus está morto, Marx está morto e eu não me sinto muito bem”. Era o que muitos de nós, uma parte da liderança da esquerda mundial, sentíamos. Mesmo assim, na volta ao Brasil, havia fundado a Convergência Socialista e, nos três anos seguintes, trabalhei para a formação do Partido dos Trabalhadores”, disse.

Um ano depois, precisamente no dia 22 de setembro de 1980, aconteceu uma novidade na vida de Jorge: conheceu a sua futura esposa. “Naquele dia, tinha sido ameaçado de morte pelo Comando de Caça aos Comunistas (CCC)”. Era um sábado, e o Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo realizou um ato de desagravo às pessoas ameaçadas pelo CCC. “Depois do ato, no sindicato, fui a um baile popular no Clube Paulistano da Glória, no bairro da Liberdade. Aí conheci uma estudante de Administração de Empresas, da Fundação Getúlio Vargas, Naira, que vinha de uma reunião do jovem Partido dos Trabalhadores. Quatro anos depois, eu me casaria com ela.”

“Começamos os dois, juntos, mas não no mesmo ritmo, uma longa caminhada em direção ao cristianismo. Os valores estáveis de Naira e de sua família italiana me agradaram muito. Debrucei-me cautelosamente em direção ao catolicismo. Assisti a algumas missas e até me emocionei diante de alguns sermões, mas senti que não era ali que meus questionamentos existenciais seriam respondidos”, disse.

Então, lembrou-se das conversas com seu pai e das aulas de religião, no Colégio Hebreu Brasileiro, no Rio de Janeiro: “Já casado com Naira, estudamos juntos um texto que foi fundamental na minha conversão: O Discurso da Servidão Voluntária, escrito no século XVI, por Etienne La Boétie, pensador que influenciou o movimento huguenote na França. Estudei, estudei muito; mas, também, levantei, nas madrugadas, e rezei em hebraico: “Baruch atá Adonai, Elohénu Méleh haolam… Bendito sejas ó Eterno, nosso Deus, rei do universo…”

“Recitava os nomes do Eterno e pedia a Ele que me mostrasse a sua vontade, que me brindasse  uma vida nova.” Dias depois, Jorge estava trabalhando numa agência de publicidade, em São Bernardo do Campo, quando entrou na sala um jovem publicitário. Seu nome era Douglas. Pastor, esse homem se tornou seu amigo e ensinou a ele que só uma pessoa podia preencher seu vazio: Jesus, o Messias. Isso, se o aceitasse como seu Senhor e seu Salvador. “Pode não parecer, mas essas foram palavras duras. Jesus, para mim, era um profeta intransigente, que acusava os sacerdotes judeus de hipócritas e de sepulcros caiados. Antes de minha conversão, Jesus me dava medo, um medo terrível. Nessa época, eu ganhara uma Bíblia, mas só lia o Antigo Testamento”, disse Jorge.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s