A voz da raça

Como o jornal do primeiro movimento político negro do Brasil se espalhou por diversos segmentos da sociedade e marcou época

Por Paulo Motoryn

Na segunda metade do século XIX, o movimento abolicionista, que defendia o fim da escravidão no Brasil, passou a ganhar projeção. Após pressões exercidas por diversos segmentos da sociedade e até mesmo interesses econômicos internacionais – que viam nos escravos um potencial mercado consumidor caso a mão-de-obra fosse assalariada –, surgiram leis que caminhavam no sentido do fim da escravidão.

No entanto, a maior parte das medidas pouco alterou o cenário trabalhista no país. A soma da Lei do Sexagenários – que libertava os escravos acima de 60 anos (na época, era a imensa minoria dos escravos que atingia tal idade) – com a Lei do Ventre Livre (que libertava filhos de escravos a partir da vigência da determinação) ficou conhecida como “leis inócuas”. Foi somente em 13 de maio de 1888, através da Lei Áurea, que a  Lei Áurea, assinada pela Princesa Isabel, filha de D. Pedro II, aboliu a escravidão no país.

Sendo assim, o novo contexto histórico em que os negros estavam envolvidos exigia também novas estratégias de comunicação. Afinal, a realidade desse estrato social foi modificada de forma abrupta e a inserção na sociedade passara a ser uma necessidade tal qual foi a luta pela abolição anos antes. Por isso, veículos de comunicação voltados especificamente para os negros começaram a surgir e se espalhar pelas maiores cidades brasileiras. Dessa forma, a imprensa negra representa em grande parte o pensamento político e social dos negros naquele período, já que registra uma série de suas ideias e aspirações.

A imprensa negra possuía alguns objetivos claros. Um deles era o combate ao preconceito racial em suas mais diversas manifestações, exacerbado durante o período pós-abolição. Além disso, o conjunto de jornais voltados ao público negro constituiu uma tentativa de afirmação de um estrato social estigmatizado. Isso ocorria tanto pela instrução – vale ressaltar que a taxa de analfabetismo era um dos “males” a ser combatido pela própria população negra, de acordo com grande parte das publicações em questão – quanto pelo incentivo à luta pela afirmação de seus direitos na sociedade.

Imprensa negra: experiências

Dado o contexto histórico de sua aparição no cenário midiático nacional, diversas iniciativas notabilizam-se na imprensa negra. A lista a seguir agrega grande parte dos veículos alternativos em questão, seus períodos de vigência e principais características:

  • “A PÁTRIA”: 1889. Fundado pelo tipógrafo abolicionista Ignácio Araújo Lima.
  • “O PROPUGNADOR”: 1907. Fundado na cidade de São Paulo.
  • “A PÉROLA”: 1911 – 1916. Fundado na cidade de São Paulo por funcionário da Cia. de Gás.
  • “O MENELICK”: 1915 – 1916. Fundado pelo poeta Deocleciano Nascimento (na época, fundidor e estudante do curso noturno de contabilidade do Liceu Salesiano); título em homenagem ao rei etíope Menelick II, líder no processo de independência da Etiópia.
  • “BINÓCULO”: 1915. Fundado por um grupo de rapazes da Barra Funda, era chefiado por Teófilo de Camargo, alfaiate.
  • “A PRINCESA DO OESTE”: 1915. Veiculavam-se críticas à moral e comportamentos sociais da comunidade negra paulistana.
  • “A RUA”: 1916. Jornal que foi lançado no bairro do Brás por Domingos José Fernandes.
  • “O XAUTER”: 1916. Fundado por Deoclécio Mine; em suas folhas veiculavam-se notas sociais, crônicas a críticas a comportamentos, seu título significa guia dos caminhantes nos areais da Arábia deserta.
  • “O ALFINETE”: 1918 – 1921. Fundado por Augusto Euzébio de Oliveira, solicitador; publicava fofocas, mexericos e críticas aos “desvios” de comportamento.
  • “O BANDEIRANTE”: 1918 – 1919. Fundado por Antônio dos Santos e Joaquim Cambará (militar do Exército), entre outros.
  • “A LIBERDADE”: 1919 – 1920. Fundado por Gastão R. da Silva, fiscal municipal.
  • “A SENTINELA”: 1920. Dirigido por Ernesto A. Balthasar.
  • “O KOSMOS”: 1922 – 1925. Dirigido por Frederico Batista de Souza, bedel e depois amanuense da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, periódico de associação homônima, publicava notícias e ensaios literários de escritores negros.
  • “ELITE”: 1923 – 1924. Fundado por Alfredo E. da Silva, funcionário da Recebedoria de Rendas; caracterizou-se pelo hermetismo do grupo de escritores e de seu clube recreativo, promoviam bailes, piqueniques e viagens.
  • “A PRINCESA DO NORTE”: 1924. Editado por Antônio Silva.
  • “O CLARIM DA ALVORADA”: 1924 – 1940. Fundado por Jaime de Aguiar, funcionário público estadual, e José Correia Leite, escritor autodidata, que trabalhava em “serviços de drogaria ou depósito de artigos farmacêuticos”; congregou número importante de militantes e intelectuais do meio negro.
  • “NOSSO JORNAL”: 1924. Fundado por Teófilo Camargo e Cornélio Aires.
  • “AURIVERDE”: 1927 – 1928. Fundado na Capital por João Augusto de Campos
  • TRIBUNA NEGRA”: 1928. Fundado na cidade de São Paulo.
  • “PROGRESSO”: 1928 – 1932. Fundado por Argentino Celso Wanderley, funcionário da Cia. Telefônica; originou-se da cooperação para comemorar o centenário de morte de Luís Gama.
  • “QUILOMBO”: 1929. Fundado por Augusto Euzébio de Oliveira
  • “CHIBATA”: 1932; Fundado por José Correia Leite para criticar a Frente Negra Brasileira, tivera apenas duas edições.
  • “A VOZ DA RAÇA”: 1933 – 1937. Periódico da Frente Negra Brasileira, fundado em São Paulo, dispunha de um corpo fixo de colaboradores e aceitava a colaboração de voluntários – brancos ou negros – desde que se alinhassem à linha de atuação do periódico.

Frente Negra Brasileira

É justamente a intensidade do surgimento dos jornais alternativos voltados ao público negro, principalmente em São Paulo, que fomenta a ideia de criação da Frente Negra Brasileira, um movimento que logo ganhou projeção no território nacional e teve repercussão internacional. Fundada em 16 de setembro de 1931, no bairro da Liberdade, em São Paulo, a FNB tinha uma estrutura organizacional bastante complexa. O movimento era administrado por um conselho de 20 pessoas e tinha cargos bem definidos, como presidente e secretário.

Além disso, possuía uma organização paramilitar e seus soldados eram submetidos a treinamentos rigorosos. De acordo com Francisco Lucrécio, um dos fundadores, houve muita resistência à FNB em seus primórdios, mas aos poucos o movimento ganhou a confiança da sociedade e o respeito dos agentes do poder público. Ainda segundo Lucrécio, os membros da organização possuíam uma carteira de identificação própria, o que conferia um melhor tratamento dos policiais nas abordagens, afinal todos sabiam que na FNB “só havia pessoas de bem”.

No entanto, a questão ideológica não era simples na constituição da FNB. A lógica monarquista que um dos presidentes tentou implantar na administração do movimento não agradou diversas frações do estrato social negro. Diz-se, inclusive, que em função de uma visão direitista que havia entre alguns membros resultou em uma simpatia ao integralismo brasileiro do início do século XX. Apesar das evidentes contradições ideológicas, o movimento ganhou força e se espalhou por diversas cidades brasileiras, aglutinando novos adeptos e fortalecendo o sentimento de pertencimento à raça negra.

 O Jornal

Neste sentido, o jornal “A Voz da Raça” foi criado em 1933 como um periódico oficial da FNB. Porta-voz, portanto, da ideologia do movimento, o jornal se propunha a incentivar os negros a competirem com os brancos nas mais diversas áreas de atuação. Sendo assim, posicionava-se contra a ideia de branqueamento da população brasileira, enaltecendo os valores negros.

De acordo com Alex Benjamin de Lima, a historiografia aponta o jornal “A Voz da Raça” como um dos mais importantes e significativos no meio negro, pela sua longevidade, estrutura, organização e prestígio político-social. O jornal possuía um grau de organização ímpar devido, por exemplo, ao recebimento de verba da FNB e a um contrato com as Graphicas Mariano para sua impressão.

O jornal, segundo consta, era um espaço de sociabilidade e valorização étnica. Possuía um claro caráter de inclusão, mas sempre com um viés nacionalista pautado na exaltação dos negros.

Da composição da redação – com diversos negros – ao material produzido – com um conteúdo (e uma causa) totalmente ignorado pela mídia hegemônica –, “A Voz da Raça” foi um exemplo marcante de jornalismo alternativo.

Todos os exemplares possuem seção de comunicação relacionada a diversos assuntos sociais, em sua maioria ligados à comunidade negra, com anúncios de aniversários, casamentos, notas de falecimento. Divulgação de notícias esportivas, destacando, principalmente, grandes feitos de atletas negros. Seção destinada a anúncios de profissionais autônomos oferecendo seus serviços ao público da raça. Faz também a divulgação de notas críticas sobre outros periódicos da raça. Possui, em quase todos os exemplares, colunas fixas para a prestação de contas do orçamento da Frente Negra Brasileira.

Estado Novo e censura

“A Voz da Raça” durou até 1937. Com o golpe getulista do Estado Novo, os partidos políticos – no qual a FNB havia se transformado – foram extintos e, por consequência, seus veículos oficiais passaram a ser alvo da censura. Por isso, rapidamente, o veículo da imprensa negra fechou as portas e parou de circular.

Como contrapartida ao fechamento da FNB e para preservar seus valores e ideologia, foi criada a União Negra Brasileira, movimento que, por fazer parte de um intenso e ferrenho contexto de repressão, também durou pouco.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

http://portaldaculturanegra.wordpress.com/2009/09/21/a-frente-negra-brasileira/

http://www2.assis.unesp.br/cedap/cat_imprensa_negra/verbetes/a_voz_raca.html

http://www.escravidaoeliberdade.com.br/site/images/Textos4/alexbenjamim.pdf

http://www.arquivoestado.sp.gov.br/imprensa/ver_galeria3.php?id=inegra2.jpg&cod=%20101

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