Mais Mandelas, menos africânderes

“Então é o seguinte, você pode achar lindo a história do Mandela, porque não aconteceu no seu quintal e foi há 20 anos.”

Por Pry Kesley

Realmente olho com muita tristeza que gente intolerante e francamente preconceituosa, hoje esteja rendendo glórias ao Mandela, numa clara expressão do que é a falta de conhecimento sobre a trajetória dele e sobre si.

Mandela foi um guerrilheiro, foi subversivo e também foi acusado de ser comunista, tudo que vocês repudiam. E ainda era preto! O que segundo muitas pessoas que não têm coragem de dizer alto “alguém que você não namoraria”, porque não é seu “tipo”. Fico feliz que os pensamentos dele sejam repercutidos, mas como há hipocrisia! Tenho certeza que gente que apoia a segregação de homossexuais nos espaços civis e públicos (porque é isso que é) está todo poético sobre quem foi Mandela.

Sei que as pessoas ficam chocadas pela agressividade do Apartheid, mas gente, nossos pretos e pardos ainda estão na lanterna de posições sociais, pelo amor de Deus, abra os olhos. Vivemos num país com evidente presença de afrodescendentes, onde uma diretora de escola acha ‘inadequado’ o cabelo afro de um menino e diz pra ele: aqui não!

Vamos chegar a um Apartheid homossexual, étnico ou de gênero? Muito improvável, as barreiras legislativas hoje são mais fortes. Mas não é porque não tem um branco feroz gritando no seu ouvido “sai do meu lugar” que não temos sido intolerantes e atrozes.

A verdade é que se eu pudesse resumir contra o que o Congresso Nacional Africano combateu foi ódio, um ódio, que num arroubo de insanidade, impôs leis. Com o perigo de parecer classista demais, eu defendo até a morte que ou você se põe na pele dos outros e se empenha numa verdadeira empatia, ou você é apenas um papagaio imbecil. E desses é que são formados os jornais. E é por isso que temos um monte de clichês e caricaturizações de pobres, piadas de mortes trágicas, banalização da periferia, ridicularização de quem precisa de 140 reais pra não passar fome.

E adivinhem? Isso vai continuar assim se não houver uma educação que sim DISCRIMINE POSITIVAMENTE. Pobre tem que ter melhores escolas e ponto final, porque quem tem dinheiro pode pagar por ela. As pessoas tem que começar a entender que têm mais que a maioria. Que ninguém vira marginal porque nasceu com vocação pra Zé Pequeno.

Não por acaso, pobre em grande parte é preto e carrega, embora alguns sejam petulantes ao ponto de negar, os estigmas que a cor lhe impôe. Então é o seguinte, você pode achar lindo a história do Mandela, porque não aconteceu no seu quintal e foi há 20 anos. Se vocês querem saber, o Apartheid evoluiu de uma dominação branca passada e se não foi isso que aconteceu aqui com os pretos, então não sei o que foi. A gente tem mais africânderes na nossa estrutura social, institucional e política do que mandelas.

Um adeus ao homem que não foi um herói, foi um líder que, apesar das contradições pessoais, achou o equilíbrio. Ele peitou o governo, mas também peitou os próprios colegas pra firmar um acordo. Falta isso no mundo, gente fiel à justiça, não à política demagógica.

Pry Kesley é estudante de jornalismo na Escola de Comunicações e Artes da USP.

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