Novela definitivamente é um saco

Por Vinicius Costa Martins

Voltando de mais uma típica sexta-feira rotineira, após aquela aula cansativa de legislação que não te dá ânimo nem pra tomar aquela bem dita cerveja, deparei-me com uma situação cada vez mais normal nas ruas de São Paulo desde a áspora dos mendigos do centro no falido projeto da Nova Luz: um pedinte no caminho de um metrô. A aula, muito boa por sinal, falou sobre as dimensões básicas da construção das leis. Observando o surgimento do pensamento ocidental moderno, desde o Iluminismo e a Revolução Francesa até a discussão sobre uma reforma do Código Penal brasileiro (o que indica que ainda há muitas leis sob discussão), desenvolveram-se quatro dimensões de leis, sendo as duas últimas ainda mal desenvolvidas sob a ética social atual (como as do Código Penal). Cito aqui elementos da aula pois eles são importantes para refletir sobre a história que contarei a seguir.

Na aula, foi visto que os direitos fundamentais, em forma constitucional, surgiram a partir do entendimento das necessidades fisiológicas humanas em ordem crescente. Isso é: o primeiro pilar dessas é baseado no direito ao reconhecimento do ser humano como um ser social, direitos civis como o direito à vida, participação política, liberdade, liberdade de expressão coletiva, entre outros. O segundo é centrado nas necessidades físicas mais básicas como saúde, educação, moradia, entre outros deveres assegurados, pelo menos em tese, pelo governo. As terceira e quarta dimensões não vem ao caso, pois trato aqui de uma ocasião normal que demonstra a ausência dos direitos fundamentais mais básicos, da primeira e segunda geração.
De volta para a narrativa. Estava eu retornando para minha casa depois de um dia cansativo e no meio do caminho, subindo a ladeira que dá acesso ao metrô mais próximo da faculdade que estudo, fui abordado por um pequeno rapaz. Com pouco mais de 1,60m e uma voz insegura, ele queria saber como fazia para chegar em Santo André e pediu uma pequena ajuda para inteirar a passagem. Como ele falava com um sotaque carioca puxado, e eu tenho família em Macaé, no Rio de Janeiro, perguntei, obviamente sabendo a resposta, se ele era do Rio. Além de perguntar por causa do sotaque familiar (estranho quando a gente se familiariza com sotaques), vi pelo teor de sua pergunta (chegar em Santo André de onde estávamos era razoavelmente fácil para quem é de São Paulo) que ele era ali um estranho no ninho, e quis demonstrar que estava disposto a ajudar.

Já que o nosso destino era o mesmo àquela hora, por volta das onze da noite, fomos, então, conversando até o metro Ana Rosa, onde ele seguiria pela linha verde, até Tamanduateí (onde ele tentaria dar a sorte de pegar o último trem da CPTM até Santo André), e eu até a Consolação.

Papo vem papo vai, tivemos uma conversa bem entretida, como se já nos conhecêssemos antes. Rafael era mais um típico brasileiro que “deu azar”, daqueles que a gente vê em tudo que é estabelecimento, principalmente os pequenos, da cidade.

Sua face cansada, repleta de olheiras, rapidamente revelaram o que a vida pode aprontar com as pessoas “invisíveis”, aquelas que não vemos todos os dias na televisão mas que dariam um ótimo livro. O mais engraçado é que essas pessoas aparecem cotidianamente por conta de sua participação secundária em nossas vidas. Ele também era uma pessoa simples e de conteúdo, daquelas que qualquer um consegue virar amigo sem fazer esforço. Como demonstrei certa segurança na disposição de ajudar, não demorou muito para que ele contasse, sorrindo, parte de sua história na cidade e também como havia chegado nessa selva de pedras que é São Paulo.

Rafael não é o primeiro sobrevivente da maior metrópole do país com quem converso, portanto nada que ele contou me deixou de cabelo em pé, mesmo ele tendo vindo até mim na posição de pedinte, tipo de pessoa que conta as melhores histórias, aliás. Algum sentimento de pena e raiva da sociedade talvez, mas isso é normal, principalmente para quem nasceu com muita oportunidade e quer que todos tenham o mesmo como eu.

Primeiramente, Rafael me contou que havia perdido sua casa num incêndio que ocorreu numa favela de Heliópolis havia dois meses e, como não tinha mais casa, procurava por um lugar para dormir naquela noite fria e hostil de meados de agosto, época na qual quem dorme na rua corre o risco de literalmente morrer de frio. Ele dizia que tinha conseguido o contato de um albergue em Santo André com uma agente social e só iria para lá passar a noite, pois trabalhava todo dia num lava-rápido ali mesmo na Vila Mariana. Tal história seria a justificativa para me pedir um trocado para a passagem. Como me mostrei aberto, rapidamente o papo saiu da tristeza e começamos a falar sobre futebol, Flamengo, Corinthians e, obviamente, torcidas, o sonho de infância mútuo de ser jogador, viagens perdidas e outras coisas da vida que são gostosas de conversar. Estava tudo muito agradável até cairmos novamente em mais uma tragédia.

Envolto em um casaco forte que protegia seu corpo magro, Rafael me contou que veio do Rio para São Paulo após perder sua mãe, seu único porto seguro. Veio à capital para tentar a vida há pelo menos três anos, abandonando sua vida e amigos do bairro da Orla, na famosa Avenida Brasil. Como lhe restou um pequeno dinheiro, ele decidiu vir à São Paulo para começar uma nova vida, e comprou um pequeno barraco em Heliópolis. A adaptação foi difícil, principalmente pelo motivo de sua vinda: a morte de sua mãe. Desde sua chegada infortuna para esquecer a notícia de que ela havia sido encontrada morta a tiros num córrego perto de seu bairro, Rafael utilizou muitas drogas. Cocaína e cachaça fizeram parte de sua rotina por um tempo até se acostumar com a perda da mãe. Mas o pior de tudo foi o incêndio que levou sua casa. Um choque que o deixou “sem ânimo de viver”, como disse, e que o fez se afundar em drogas ainda mais pesadas como o crack.

Principalmente por sua história repleta de acontecimentos, é fácil perceber que Rafael é um cara com muita disposição e amor à vida. Muitos em sua situação, alguns até em condição muito melhor, não tardariam em partir para a malandragem. Muitos desgraçados o fazem até mesmo em seus empregos, como quando tratam o empregado como um cretino ao saber da necessidade crucial desse de ter alguma fonte de renda, mesmo que baixa, ou quando se fazem de puxas-saco sem dignidade para subir na empresa.

Para “sobreviver”, Rafael disse que acorda cedo, por volta das 4 da manhã, para conseguir chegar às 7 no lava-rápido onde, segundo ele, o cliente é exigente e cobra desconto se o carro não ficar limpo em até uma hora. Como fazer uma limpeza completa boa, com direito a aspirador, gel frufru e tudo mais, não é um serviço tão rápido, ele contou se vira nos 30 para conseguir limpar o carro a tempo sem tomar um come da chefia, que nunca tarda em utilizar o argumento patronal da demissão caso o serviço não fique pronto na hora, afinal, “o cliente sempre tem razão”.

“São cerca de 10 a 15 carros por dia, dependendo sempre se é dia de chuva, o que diminui o movimento”.

Ele também não tem carteira assinada, o que justifica suas jornadas de doze horas, incluindo alguns sábados e domingos, no estabelecimento. Como ele diz, “é quase um serviço de favor o que eu faço”. Mas, na impossibilidade de arrumar outro emprego sem ter terminado os estudos (ele cursou dois anos de administração no Rio), Rafael se diz satisfeito com o que tem. Deseja muito terminar os estudos, principalmente para ter uma chance melhor na vida, mas a falta de tempo e de uma condição financeira mais estável acabam inibindo um pouco essa vontade.

Mesmo assim, no alto de seus 1,60m, Rafael se mostrou um cara bem tranquilo apesar dos apesares. Senti em sua fala, principalmente por conta de seu olhar penetrante e sincero e seus gestos bem animados, muito mais a necessidade de conversar e trocar uma ideia legal com alguém do que uma necessidade material propriamente dita. Aliás, foi esse o “quebra gelo” para o início da nossa conversa após eu me mostrar receptivo, coisa que “não é muito normal em São Paulo”, como diz ele.

Não sei, gosto muito de trocar ideia com todo tipo de pessoa, de conhecer as mais diversas histórias que o destino reserva pra cada um. Por coincidência, lembrei que até recentemente a novela das oito, que procurava falar exatamente sobre as mais diversas histórias que se entrelaçam, se chamava Avenida Brasil, onde Rafael construiu parte da sua vida. Particularmente, acredito que a história de Rafael é muito mais interessante do que a de todos os personagens da Globo, e é por gostar mais de conversar que eu não assisto a novelas, mas isso não vem ao caso.

Ainda jovem, beirando os 23 anos, Rafael se diz ex-surfista, pois, ao mesmo tempo em que se vê louco para voltar ao Rio para fazer uns dropes na Reserva, acredita estar preso num ciclo de servidão ao capital. “Vivo para trabalhar, trabalho para viver”, diz ele. Contou que já fez tudo que é bico, desde distribuir panfleto e carregar saco de cimento pra laje até coletar lixo para reciclagem e lavar carros, o que faz atualmente e considera a melhor opção encontrada até agora. Não me surpreendi quando ele disse que sonha em ter seu próprio lava-rápido, pois viu na prática que esse era um bom negócio para se ganhar um dinheiro. Mas, para isso, diz que primeiro precisa terminar os estudos.

Como muitos, Rafael é mais uma daquelas vítimas que perdem tudo a não ser a dignidade, mas que ainda assim conseguem contagiar com boa energia qualquer um que lhes dê a oportunidade de uma boa conversa. Afinal, conhecimento todo mundo tem para passar.

Após pouco mais de 30 minutos de uma conversa fervorosa na linha verde e a interrupção daquela mulher com a voz do Google de que o metrô já estava fechando, cada um finalmente tomou o seu rumo. A conversa, mesmo com ele falando muito mais do que eu, foi bem agradável e satisfatória para ambos, apesar dos choques de realidade costumeiros. Obviamente, àquela altura eu já havia pago a sua passagem do metrô e não falávamos mais de surpresas desagradáveis da vida. O papo agora tinha evoluído para o futuro, para o que de bom a vida poderia reservar. Me lembro bem que a essa hora não havia nenhuma tristeza ou arrependimento em seus olhos, apenas uma empolgação de um jovem que ainda espera muito da vida. Um fôlego que parece que ele e muitos outros Rafaels têm com os quais temos o prazer de lidar todos os dias, seja no lava-rápido, seja no posto de gasolina ou na conveniência.

Espero que a conversa tenha lhe rendido algo além dos R$3,00. Talvez uma esperança de que nem todo mundo em São Paulo é escroto. Eu, definitivamente, tirei a conclusão de que novela é um saco. Ah, e de quebra ainda consegui uma boa história para justificar isso. Minha mãe não perde por esperar.

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