Em Osasco, mais de 2000 familias resistem na Ocupação Esperança

Desde o dia 23 de agosto famílias sem teto ocupam um terreno nas imediações da rodovia Anhanguera na periferia de Osasco, região metropolitana de São Paulo. Depois de meses de resistência as mais de 3000 pessoas que vivem na ocupação Esperança continuam sem garantia de moradia digna.

Por Guilherme Almeida 

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Fotos por Victor Santos

Assim como na capital, o mercado imobiliário de Osasco passou por intensa valorização. “O preço do aluguel sobe de 100 a 200 reais de um ano pra outro”, relata o jovem Erivelto Silva, que apesar de ter 17 anos é um dos coordenadores do setor A da ocupação. A reportagem da Revista Vaidapé consultou imobiliárias da cidade e encontrou média de preço de 750 reais, isso para moradias básicas – de três cômodos – nas periferias da cidade. Ironicamente uma das imobiliárias consultadas tem o nome ‘Esperança’.

Maria de Fátima, de 47 anos, está na ocupação há dois meses. “Quem perde moradia, perde tudo! É quase impossível arrumar trabalho sem endereço, creche para os filhos, tudo”, denuncia. Cerca de 2000 famílias enfrentam situações precárias de saneamento sem água e luz em sua moradias improvisadas. “O que a gente tem da prefeitura é só palavra, no papel não temos resposta concreta”, reclama Maria de Fátima.

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Fotos por Victor Santos

A prefeitura de Osasco diz em nota que “possui um setor de cadastro social para que as famílias que necessitem de moradia sejam inseridas em programas habitacionais. Porém, vale destacar que existe uma fila de espera a ser respeitada, pois na cidade existe uma política pública habitacional bem definida”. A gestão do prefeito Jorge Lapas (PT) responde também que não cabe a ela intermediação com órgãos como Eletropaulo e Sabesp, por se tratar de um terreno particular.

Maria de Fátima ressalta que a maior dificuldade da ocupação é ficar sem água. Segundo ela, técnicos da Sabesp visitaram o local e analisaram o ponto improvisado a partir de uma propriedade vizinha. Dois dias depois a água foi cortada. Agora os moradores da Esperança tem que encher galões de madrugada, único período no qual a água tem pressão.

Há risco de reintegração de posse do terreno, mas não é possível prever quando isso acontecerá. Isso porque o atual dono, que acumula dívidas e não dá função social a área desde sua aquisição, pode vender a propriedade caso a prefeitura e a Caixa Econômica Federal façam uma proposta. José de Arimatéia, recifense de 36 anos, ressalta que eles só conseguiram reuniões com setores da prefeitura após ocupação da câmara dos vereadores da cidade. “Na prefeitura disseram que nós somos filhos de Osasco. Um pai não deixa o filho desamparado, não é?”, ironiza Ari, como é conhecido na ocupação.

Ele dá um panorama do primeiro dia de ocupação: “Entramos aqui no dia 23 de agosto. Primeiro quem veio aqui foi a Polícia Militar, a pedido da pessoa que cuidava do terreno para o dono. A PM chegou sem informação nenhuma. Depois de algumas ligações deixamos claro que é um terreno privado. A PM se retirou e chegou a GCM (Guarda Civil Metropolitana), que falou que aqui era uma área do governo e que era pra gente sair imediatamente. Então começou outro debate. Quando ficou claro que era uma área particular eles foram embora. Desde o dia 23 eles não voltaram mais.”

Apesar de sofrer com falta de água e alimentos, a ocupação Esperança é uma comunidade bem estruturada; cada um dos três setores (A, B e C) tem sua cozinha comunitária, banheiro e área de convivência. Está em construção também uma creche no setor A. Maria de Fátima fala que “a creche serve para as mães jovens poderem trabalhar e ajudar nas tarefas diárias, já que não dá pra conseguir vaga na cidade”. Além disso, os moradores se revezam na manutenção do espaço e na vigília noturna.

Fotos por Victor Santos

Fotos por Victor Santos

“A gente luta por moradia mas, também por educação, saúde, igualdade, respeito pela opção sexual de um, pela cor de outro. Em cidades vizinhas a educação e a saúde são muitos melhores. Osasco e Barueri são divididas por uma avenida. Por que são diferentes?”, questiona Ari.

Erivelto é uma figura que chama atenção. Na ocupação desde o primeiro dia, o coordenador participa de todos os espaços que pode. “Só não participei das negociações na prefeitura pelo fato de eu ser menor”, explica. É ele quem nos explica as regras da ocupação: “Aqui não pode ter comércio nem briga, são coisas que dividem as pessoas ao invés de aproximar. Quando alguém quebra uma regra a gente dá uma segunda chance. Mas tem uns que permanecem no erro. No caso a gente convida essa pessoa a se retirar”, fala em tom envergonhado.

Como observado pela equipe Vaidapé durante nossa visita, Erivelto é um jovem muito politizado. Quando perguntado sobre sua família, ele respondeu: “Minha mãe trabalha em Osasco e meus irmãos não gostam de vir pra cá. Eles dizem que aqui é lugar de pobre e favelado. No caso, eu acho que não sou um favelado, simplesmente estou lutando por moradia digna pra sair do aluguel”.

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