O processo que fechou o Belas Artes e acabou com os cinemas de rua

Por Cristiano Hernandes, Jorge Kanazawa e Paulo Motoryn

O Cine Belas Artes teve mesmo que fechar as portas. Depois de perder as negociações, o tradicional cinema paulistano encerrou suas atividades no dia 17 de março de 2011. Para desespero de milhares de cinéfilos da capital e inúmeros protestos, a casa fechou alinhada por um processo controverso que ocorre na cidade: o fim dos cinemas de rua, que estão sendo substituídos pelos cinemas de shopping.

Fernando de Jesus Giraldo Salinas é professor de cinema. Possui graduação em comunicação social pela Universidad Pontificia Bolivariana (PUC), mestrado e doutorado em ciências da comunicação pela Universidade de São Paulo (USP). Dono de uma sabedoria técnica invejável sobre cinema, Salinas conversou por quase uma hora com a Revista Vaidapé e, ainda assim, teria papo para uma tarde inteira.

“Não existe fim, não existe início, apenas a infinita paixão da vida.”

(Federico Fellini)

Na última sessão do Cine Belas Artes foi exibida a película “La Doce Vita”, de Federico Fellini. O fato deveria emocionar qualquer fã de cinema, principalmente aqueles que já estiveram no Belas Artes, como Fernando Salinas. Mesmo assim, ele não se derrete com o fechamento da casa: “Isso é daquelas coisas inevitáveis da humanidade. Você não tem como parar a história. A história vai acontecendo, e as cidades são vivas”, disse. “É aquela história de que a cidade é uma entidade viva, aquele papo bonito dos arquitetos, e é de fato”, completou.

cine belas artesCine Belas Artes: shoppings engolem cinemas de rua (Foto: Divulgação)

“O cinema de rua teve um tempo, teve um momento histórico, em todas as grandes cidades, e o processo histórico levou a que esses cinemas fossem sendo fechados lentamente, ao ponto de que, aqui, em São Paulo, houvesse pouquíssimos cinemas de rua. E muitos dos grandes cinemas de rua viraram igrejas. Havia um aqui, no centro da cidade, na avenida São João, Comodoro Cinerama, onde cabiam, sei lá quantas pessoas, 1400, alguma coisa brutal! Cheguei a ver filmes lá no Comodoro, e era espetacular… Uma sala de 70 milímetros, e virou uma igreja”, disse.

Segundo ele, outros foram divididos em várias salas: “O Conjunto Nacional era uma sala, fecharam, reformaram e fizeram várias salas pequenas e um centro comercial”. Houve os que tentaram um caminho distinto: “Muitos deles viraram cinemas pornô durante anos, mas nem isso os sustentava. Sem público não é possível manter. Fechou.”

O Cine Belas Artes era tido entre os cinéfilos como um lugar mágico, onde inúmeras gerações deram o primeiro beijo e viram sua a primeira película. Nem isso sensibiliza Fernando Salinas: “Os mesmos filmes que tinham naquelas salas que foram fechadas no Belas Artes, vou encontrar nos shoppings. Tem pelo menos dois ou três shoppings que passam cinema de arte, chamado cinema de arte. Então, os mesmos filmes que eu ia encontrar aí, eu vou encontrar no shopping. Eu caminho com a história.”

Segundo ele, nos últimos dez anos, 30 salas de rua abriram. Dentro de shoppings, foram 50 salas. A cada mês quase um shopping está sendo inaugurado em São Paulo. “Uma das coisas que há em qualquer shopping, em São Paulo, é sala de cinema: 3, 4, 5, 6, 7, 14 salas de cinema, e elas continuam tendo público. É um espaço criado para ter salas para ganhar dinheiro.”

“Lá o cliente vai encontrar o lançamento hollywoodiano da semana, bastante dinheiro, ou o lançamento da Globo Filmes, com aquelas comédias brasileiras, da moda, ‘Qualquer Gato Vira-Lata’. E do lado, na ‘salinha’ do lado, escondido, está o filme que ganhou [o prêmio de] Cannes, o filme que ganhou em Veneza, o filme que ganhou em Berlim, o filme ‘paquistanês’, feito com uma câmera… Continua havendo público. Mas é isso: os cinéfilos que gostam de arte sempre foram minoria, sempre, sempre.”

Fernando Salinas disse que a maioria gosta de “pão e circo”. A maioria vai assistir a “pão e circo”: “Então, bastante pipoca, ‘pão e circo'”, disse. A maioria gosta de filme de explosão: “‘Os Mercenários’. ‘Os Mercenários’ é um filme de ‘pão e circo'”. É pra ir lá , 2 horas, e deixar o cérebro em casa, foi o que recomendou. Ele recomendou: “Você deixa o cérebro em casa e vai se divertir, e esquece do mundo por 2 horas” (risos).

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