Negligência transforma ocupação artística em desastre fatal

Por Paulo Motoryn

IMG_0366.JPGA vista que atraiu Bruna e seus amigos ao Paço das Artes (Foto: Gabriel Guerra)

A morte da estudante Bruna Barboza Lino, de 19 anos, na Cidade Universitária, em São Paulo, no último final de semana, caiu como uma bomba entre os estudantes e freqüentadores da USP. O acidente aconteceu no Paço das Artes, construção abandonada dentro do campus, sem segurança nenhuma e com instalações precárias, mas que acolhe dezenas de alunos por dia, ávidos por um espaço livre.

Nos últimos anos, devido ao impasse que mantém o prédio abandonado sem que sua construção chegue ao fim, os estudantes tornaram o Paço uma resistência de arte e ocupação dentro de uma universidade que privilegia cada vez mais bases da Polícia Militar em detrimento aos espaços coletivos e de integração. O prédio abandonado fica ao lado do museu de mesmo nome, Paço das Artes, mas que está na ativa e aberto ao público.

O esqueleto inacabado, porém, não tem banheiros, corrimões, elevadores ou qualquer outro tipo de estrutura, mas sim infinitas galerias de grafite em suas paredes, muros e chão. “O Paço hoje é a expressão de alguns estudantes da USP dentro de um campus cada vez mais desarticulado, esvaziado e que reflete o novo perfil dos alunos, aqueles que vêm de carro e vão embora assim que a aula acaba. Os que vão ao Paço já estão fazendo uma crítica à passividade do corpo estudantil e uma provocação à burocracia”, afirma André, aluno de Economia da USP.

A ocupação do prédio como ação política, no entanto, não afasta a discussão sobre a segurança do local. Em primeiro lugar, ao contrário do noticiado em grande parte dos veículos de imprensa, a entrada no prédio não se dá apenas por um buraco na grade. “É ridículo ouvir que os estudantes invadem aquele prédio. Quase todas as vezes em que fui lá a porta da grade estava convidativamente aberta. Aquilo era um convite para a entrada no local mais perigoso do campus”, segundo Pedro, aluno de Ciências Sociais.

IMG_0162.JPGNo último andar, fosso que Bruna caiu é tampado. Nos outros andares, armadilha (Foto: Gabriel Guerra)

“A mídia agora se prende aos detalhes do caso: Bruna bebeu? Bruna fumou? O que fazia? Mas esconde o fundamental: devido aos impasses entre alguns órgãos administrativos, o poder público patrocina uma verdadeira arapuca na universidade. Mesmo que ela tivesse bebido, fumado, cheirado… Foi o prédio que matou a Bruna, foi o fosso aberto que matou a Bruna. O assassino é o descaso do poder público, não os amigos, a cerveja ou o baseado”, reclama Pedro.

Em nota, a assessoria de imprensa do Instituto Butantan – responsável pela construção – lamentou a morte da estudante e informou que “está à disposição para as investigações”. Segundo o órgão, no entanto, a obra estaria cercada por grades, muros e outros materiais, o que impediria a entrada de pessoas. “Chega a ser mórbida a explicação do Instituto. O Paço está escancarado para quem quiser entrar. As grades estão rasgadas e os portões quebrados. Antes de tentarem tirar o corpo fora, devem à sociedade explicações sobre aquele prédio, sobre o dinheiro gasto naquilo e a vida perdida”, afirma André.

As críticas dos alunos aumentaram quando a reportagem informou que a assessoria de imprensa do Instituto Butantan disse que agora já há um plano de ocupação do Paço pelo órgão: “É revoltante. Todos esses anos de abandono estatal e ocupação estudantil não podem ser simplesmente esquecidos. O espaço agora é dos estudantes. Fomos nós que colorimos e demos vida a um prédio literalmente às moscas. A fatalidade, causada por negligência do Instituto Butantan, não deveria acelerar um processo que deve acabar em expulsão dos estudantes, mas sim punir responsáveis e forçar as adequações de segurança necessárias para a continuidade da ocupação artística e política que acontece ali”, diz um outro estudante, que preferiu não ser identificado.

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