Rolezinhos no shopping: para além da diversão

Por Pedro Lopes do Val

Nas últimas semanas, o cotidiano do brasileiro de classe média ganhou um novo elemento: o crescente número de jovens de periferia circulando em shopping centres. As reações de parte da população brasileira em relação aos “rolezinhos”, encontros marcados em redes sociais para confraternização desses jovens, chamam atenção pela quantidade de racismo e preconceito impregnados em suas opiniões, tanto de cidadãos, quanto na própria mídia.

Desde o primeiro episódio, no Shopping Vitória, localizado numa área nobre da capital do Espiríto Santo, a primeira reação, tanto de lojistas quanto de seguranças e consumidores foi de criminalização do grupo. Jovens negros, funkeiros, ostentando roupas de marca e circulando de maneira espontânea por entre as lojas definitivamente não era algo aceito pela população nobre da Enseada do Suá, conclusão: alegaram que os jovens estavam lá para executar um suposto arrastão. A polícia logo entrou em ação, e de maneira arbitrária, arquitetou uma espécie de Carandiru em pleno shopping.

Nos rolezinhos seguintes, mais perseguição, mais criminalizarão. No shopping Aricanduva mais uma ameaça ilusória de arrastão agitou o clima. No shopping Tatuapé, outra confusão e de novo, apesar de toda violência e discriminação por parte dos indignados, nenhum crime foi cometido pelos jovens. Os rolezinhos então, se tornaram mais do que uma mera diversão para aqueles que os frequentam, e muito mais do que somente uma intrusão da classe baixa no ambiente elitizado.

Para tirar qualquer conclusão sobre essa situação de conflito e preconceito, é preciso entender, de forma clara, a história e a situação de vida daqueles que sempre foram subjugados. O papel da mídia nesse caso influencia de maneira extremamente negativa a imagem daqueles que querem e precisam ser ouvidos. Estereótipos são rapidamente lançados, argumentos e frases feitas, contendo quase sempre o mesmo embasamento preconceituoso que acaba extinguindo qualquer chance de defesa ou direito de voz dessa população são as ferramentas utilizadas pela mídia para esvaziar o debate em torno da situação.

Buscando um outro ponto de vista, a reportagem entrevistou Fernando Morgato, estudioso de funk e graduando em sociologia na Fundação Escola Sociologia e Política de São Paulo. “Os rolezinhos e o preconceito em relação a eles têm muito a ver com o funk. O funk é uma música que desde sempre foi rejeitada no Brasil por ser de favela. Na década de 90, grupos de jovens funkeiros começaram a frequentar as praias de Copacabana e Ipanema, áreas consideradas de elite no Rio de Janeiro, e à época a reação foi a mesma em relação aos rolezinhos de hoje. Falou-se em arrastão, quando na verdade era a população querendo ocupar o espaço que era seu por direito, mas negado em cada instância. Seja na falta de moradia na favela, na falta de acesso à educação, cultura, tudo. O cidadão de periferia recorrendo a um espaço público nada mais era do que uma atitude de exercício de direito. Aliado a isso, o funk é a única maneira que o jovem de periferia tem para expressar sua condição, seu mundo. O funk é muito mais do que uma música, é a liberdade de expressão”, afirma Morgato.

Os rolezinhos como uma redefinição de espaço de diversão para essa juventude periférica mostra como o Estado falha em suprir necessidades intrínsecas à dignidade humana: “Não há uma praça, um clube, um espaço comum para convivência e lazer nas periferias do país, o que acaba levando os jovens para a única alternativa de diversão que a cidade pode oferecer e hoje nós vemos que existem rolezinhos sendo organizados não só em São Paulo, mas no Rio de Janeiro, em Porto Alegre, em Manaus e em Vitória ou seja, a falta de recursos para a população mais carente do Brasil é sistêmica nas suas principais cidades. Por outro lado, a cultura de massificação do consumo atrai esses jovens de periferia que também querem usar o tênis tal, a marca do momento, mas a própria sociedade priva o cidadão desse consumo, simplesmente porque ele não atende a certos padrões sociais, mas o fato é que o pobre está cansado de ser oprimido. Conversando com alguns frequentadores desses rolezinhos, percebe-se que não há um engajamento político no sentido de protestar por um lugar melhor, porque na verdade, eles querem estar consumindo dentro do shopping também, mas o fator que mais influencia é o de querer se fazer notado por uma parcela da população que se acostumou a ignorá-lo. Eles querem ser notados, querem mostrar que existem, e eles querem mais”, atesta o estudioso.

O fato é que os rolezinhos continuarão acontecendo, seja por autoafirmação, seja por mera diversão, resta saber se o comportamento hostil continuará pautando a forma como a sociedade lida com esse fenômeno. É preciso diálogo, entender e escutar as demandas daqueles que mais precisam. Casos como esse servem para escancarar o racismo, o preconceito e a falta de solidariedade de um povo que se considera um dos mais receptivos do mundo. Quando o visitante vem de fora, fazemos sala, quando vem da nossa própria terra, é expulso como um invasor. Tudo isso mostra como um simples encontro de confraternização pode significar muito mais do que pura diversão.

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