Da relação direta entre ter de limpar seu banheiro você mesmo e poder abrir sem medo um Mac Book no ônibus

[uma dica do blog Passalidades Atuais]

Repórter do NYTimes

“- Soube que [você] também ajuda a limpar banheiros. Faz parte da experiência?”

Gandhi

“- É uma maneira de aprender que o trabalho de um é tão importante quanto o trabalho de outro.”

Ba (mulher de Gandhi)

[contrariada] “- Soraya veio me dizer que devo limpar a latrina…”

Gandhi

“- É verdade. Todos têm sua vez.”

Ba

“- É trabalho dos párias!”

Gandhi

“- Neste lugar não há párias. Nenhuma tarefa está abaixo de nós.”

Ba

“- Sou sua esposa!”

Gandhi

“- Por isso mesmo.”

diálogos em Gandhi, filme de Richard Attenborough (1982)

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Um texto de Daniel Duclos

Pintura do artista francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848), retratando a refeição de uma família abastada no Rio de Janeiro.

Pintura do artista francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848), retratando a refeição de uma família abastada no Rio de Janeiro.

“A sociedade holandesa tem dois pilares muito claros: liberdade de expressão e igualdade.

Um porteiro aqui na Holanda não se acha inferior a um gerente. Um instalador de cortinas tem tanto valor quanto um professor doutor. Todos trabalham, levam suas vidas, e uma profissão é tão digna quanto outra. Fora do expediente, nada impede de sentarem-se todos no mesmo bar e tomarem suas Heinekens juntos. Ninguém olha pra baixo e ninguém olha por cima. A profissão não define o valor da pessoa – trabalho honesto e duro é trabalho honesto e duro, seja cavando fossas na rua, seja digitando numa planilha em um escritório com ar condicionado. Um precisa do outro e todos dependem de todos. Claro que profissões mais especializadas pagam mais. A questão não é essa. A questão é “você ganhar mais porque tem uma profissão especializada não te torna melhor que ninguém”.

Profissões especializadas pagam mais, mas não muito mais.

Igualdade social significa menor distância social: todos se encontram no meio. Não há muito baixo, mas também não há muito alto. E ganhar mais do que alguém não torna o alguém teu subalterno: o porteiro não toma ordens de você só porque você é gerente de RH. Aliás, ordens são muito mal vistas. Chegar dando ordens abreviará seu comando. Todos ali estão em um time, do qual você faz parte tanto quanto os outros (mesmo que seu trabalho dentro do time seja de tomar decisões).

Esses conceitos são basicamente inversos aos conceitos da sociedade brasileira, fundada na profunda desigualdade.

…uma faxineira diarista… uma empregada full time. Os salários pagos à mesma profissão aqui não são suficientes pra esse luxo, e é preciso limpar o banheiro sem ajuda – e mesmo que pague (bem mais do que pagaria no Brasil) a um ajudante, ele não ficará o dia todo a te seguir limpando cada poerinha sua, servindo cafézinho. Eles vêm, dão uma ajeitada e vão-se a cuidar de suas vidas fora do trabalho, tanto quanto você. De repente, a ficha do que realmente significa igualdade cai: todos se encontram no meio, e pra quem estava no Brasil na parte de cima, encontrar-se no meio quer dizer descer de um pedestal que julgavam direito inquestionável (seja porque “estudaram mais” ou “meu pai trabalhou duro e saiu do nada” ou qualquer outra justificativa pra desigualdade).

…a igualdade social holandesa tem um outro efeito que é muito atraente pra quem vem da sociedade profundamente desigual do Brasil: a relativa segurança. …a sociedade holandesa é menos violenta do que a brasileira.

…brasileiros que queixam-se amargamente de limpar o próprio banheiro, elogiam incansavelmente a possibilidade de andar à noite sem medo pelas ruas, sem enxergar a relação entre as duas coisas. Violência social não é fruto de pobreza. Violência social é fruto de desigualdade social. A sociedade holandesa é relativamente pacífica não porque é rica, não porque é “primeiro mundo”, não porque os holandeses tenham alguma superioridade moral, cultural ou genética sobre os brasileiros, mas porque a sociedade deles tem pouca desigualdade. Há uma relação direta entre a classe média holandesa limpar seu próprio banheiro e poder abrir um Mac Book de 1400 euros no ônibus sem medo.

UPDATE: Muita gente tem lido este post como uma idealização da Holanda como um lugar paradisíaco. Nada mais longe da verdade. A Holanda não é nenhum paraíso e tem diversos problemas, muitos dos quais eu sinto na pele diariamente. O que pretendo fazer aqui é dizer duas coisas:

a origem da violência no Brasil é a desigualdade social e apesar da violência que gera, muita gente gosta dessa desigualdade e fica infeliz quando ela diminui, porque dela se beneficia e não enxerga a ligação desigualdade-violência.

Esse post não é sobre a Holanda. A Holanda, estar aqui, é casual. Esse post é sobre o Brasil, minha pátria mãe.

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