Isolamento geográfico provoca especulação na Bahia

Por Paulo Motoryn
Via MyFunCity

Os mais de sete mil quilômetros do litoral brasileiro e a imensa rede fluvial do país são fatores fundamentais para a grande quantidade de ilhas e penínsulas em território nacional. Apesar de três capitais brasileiras estarem situadas em ilhas (Vitória-ES, Florianópolis-SC e São Luís-MA), as complicações de uma vida rodeada por água atingem principalmente as cidades pequenas.

No litoral da Bahia, dois exemplos distintos acusam uma mesma vulnerabilidade: os impactos sociais e econômicos do isolamento na ilha de Boipeba e na península de Caraíva mostram uma realidade de pouco respeito às comunidades tradicionais e práticas comerciais extorsivas.Mesmo próxima da capital Salvador e do pólo turístico de Morro de São Paulo, Boipeba é uma porção de terra quase selvagem, com praias desertas e vegetação fechada.

De acordo com os moradores e pequenos comerciantes da cidade, a ilha ainda não consegue atingir um retorno econômico relevante no turismo por sua pouca estrutura e perfil pouco elitizado dos frequentadores. “É mentira se dissermos que os turistas não vêm para cá. O problema é que eles ficam por pouco tempo, então temos que tirar o máximo proveito disso. Por isso os preços sobem tanto na temporada”, afirma Elias Macedo, 45 anos, dono de um mercado e nativo da ilha.

A elevação dos preços durante a temporada de férias, de dezembro a janeiro, gera conflito na cidade. A proximidade e a intimidade entre os comerciantes é um ponto de discórdia para consumidores nativos e turistas, que encontram apenas preços tabelados para diversos produtos. “É desagradável perceber que todos os comerciantes estão em acordo para faturar o máximo de forma tão desleal”, afirma Elena, turista italiana, 31 anos.

Os moradores locais, por sua vez, apoiam a elevação dos preços, mas reivindicam condições especiais de compra: “Eu tenho cara de turista? Moro aqui desde que nasci e não posso aceitar que todo final de ano a dificuldade seja tanta para comprar coisas básicas”, reclama Alfredo Barro, 33 anos.

Com suas especificidades, a península de Caraíva, ao sul de Porto Seguro, também vive um processo de conflito e acirramento de tensões. Em meados da década de 90, quando a vila, isolada entre uma aldeia indígena e um rio, foi descoberta pelos turistas, ocorreu um intenso processo de especulação imobiliária.

“Foi lá por 1995 que o punhado de turistas começou a virar uma multidão. Todos os terrenos passaram a ser disputados e a maior parte dos pescadores e moradores nativos foi obrigada a sair da península, tendo de cruzar o rio e construir casas no continente. Foi assim que surgiu Nova Caraíva”, explica Maria Cândida, 39 anos, que é de uma das poucas famílias que ainda vivem da pesca e moram no lado “nobre” de Caraíva.

A sorrateira expulsão dos moradores locais, em função da construção de pousadas e casas de veraneio, apenas intensificou a “cartelização” dos produtos e serviços oferecidos em Caraíva, processo similar ao que ocorre em Boipeba.
Donos de campings, pousadas e restaurantes são acusados de “controlar” a península de Caraíva: “Eles [donos de estabelecimentos na Vila] não são índios, mas parece que vivem em uma aldeia. Protegem uns aos outros combinando os preços de forma injusta. A ilha é pública, mas eles acham que têm dono”, reclama um morador, que pediu para não ser identificado.

Belas paisagens aos olhos dos turistas, Boipeba e Caraíva são exemplos de como um cartão postal do litoral baiano pode esconder graves conflitos.

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