Futebol brasileiro começa o ano desmoralizado e em segundo plano

Por Paulo Motoryn

“Minha filha, você não sabe o que é um Palmeiras e Corinthians”. A célebre frase eternizada na voz da personagem de Lima Duarte no filme “Boleiros”, de Ugo Giorgetti, reflete a importância do futebol na vida do brasileiro. No caso, o clássico, enfrentamento de duas equipes rivais, é um dos grandes elementos, talvez o ápice dessa paixão. Os últimos meses, contudo, indicam um desgaste na história de amor entre brasileiros e a bola.

O episódio que marcou o fim do Campeonato Brasileiro de 2013 foi o estopim para que a paciência de diversos torcedores chegassem ao fim com os “cartolas” que comandam o esporte. A decisão do STJD em rebaixar a Portuguesa para Série B do campeonato nacional em função da escalação irregular de um atleta durante uma partida revoltou os fás da Lusa, que lotaram a Avenida Paulista em protestos, e ainda representou o auge de um desgaste crônico dos demais torcedores para com o futebol atual e sua condução.

Dentro de campo o cenário não é diferente. Apesar do título do Atlético Mineiro na Copa Libertadores do ano passado, seu insucesso no Mundial de Clubes, no Marrocos, contra o time local Raja Casablanca, veio para colocar uma cereja azeda em um bolo incomível. Afinal, o ano não foi marcado apenas por disputas judiciais e fracassos nas quatro linhas, mas também por um gasto de dinheiro que não condiz com as condições econômicas do país. A quantia gasta em contratações de atletas, de janeiro a dezembro, foi a maior da história.

O Corinthians, apelidado de time do povo e marcado por um histórico de lutas pela democracia, gastou mais de R$ 40 milhões de reais em um único jogador. Ironicamente, Alexandre Pato, a pepita de ouro em questão, foi o grande vilão do ano alvinegro. Contratado tendo em vista sua possibilidade de retorno financeiro através, por exemplo, de ações de marketing, o atacante ficou muito longe de cair nas graças da torcida.

A decepção com Pato calejou o Corinthians e seus rivais. As diretorias dos principais clubes brasileiros, neste início de ano, estão adotando cautela no gasto com a contratação de jogadores. A transferência de Leandro Damião do Internacional para o Santos, concretizada em dezembro passado, é um ponto fora da curva devido às suas altas cifras. A morosidade da chegada de grandes jogadores na maioria dos clubes também desmotiva torcedores, o que dá ainda menos ânimo ao futebol brasileiro, que já começou a temporada com os desvalorizados campeonatos estaduais.

O maior cuidado com os gastos, em termos de contratações e salários, é uma das reivindicações do Bom Senso Futebol Clube, talvez uma das poucas boas novidades do futebol brasileiro do ano passado. Mesmo assim, seu discurso de apaziguamento entre as mais diversas forças, chegando a lutar por melhores condições até para os patrocinadores, faz alguns desconfiarem. O apadrinhamento do movimento pelo publicitário Washington Olivetto, fanático por futebol, mas também defensor ferrenho de seus clientes, os grandes anunciantes, também não pode ser ignorado.

Em um ano marcado pela Copa do Mundo em território nacional, era de se esperar que todos os ventos soprassem o espírito futebolístico. A apreensão pela chegada de craques internacionais e a expectativa pelas chances do hexa da Seleção, sob condições normais, deveria ao menos agitar as discussões e tomar conta das pautas do noticiário nacional. A agitação política faiscada pelas manifestações de junho de 2013, porém, mudou o cenário e 2014 passou a ser inquietante para Fifa, governo e CBF.

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