Sobre Viagens e Arquétipos – Desconhecendo o Vietnã e o Camboja

Por Júlia Dolce

Quando meu irmão era bem novo, após almoçarmos na casa da nossa avó aos domingos, ele sempre dizia que queria ‘voltar para São Paulo’. Minha avó morava a apenas alguns quarteirões de casa, mas para ele aquilo já significava sair de sua cidade, ou o que quer que fosse que entendia como São Paulo. Ao crescermos vamos ganhando a consciência de espaço que nos permite entender a existência de cidades, países e continentes (com esse último tive uma dificuldade particular, até os dez anos acreditava que representavam divisões em fatias de pizza da Terra). Porém, com o aprendizado geográfico perdemos a consciência do quão fictícias e fabricadas são as linhas cuidadosamente desenhadas nos mapas. Mesmo tentando reafirmar tal ideia, já é tarde: perdemos a noção de espaço público e livre circulação. Com as fronteiras dos países nos acostumamos a dividir o “nosso” do resto, o que pode ser facilmente alcançado e o que não pode − e isso pouco tem a ver com as distâncias.

Durante toda a vida recebemos informações superficiais que preenchem a área dos países no nosso imaginário com elementos culturais típicos. Através de esferas de vidro contendo imitações de monumentos importantes, copos de shot com uma ilustração típica, e claro, cartões postais, aprendemos a associar os nomes dos países a algumas poucas características estereotipadas. Criamos arquétipos. Assim, possuímos um inventário limitado de ideias que relacionam automaticamente hambúrguers aos estadunidenses, bumerangues à Australia e chapéus cônicos ao Vietnã. Obviamente acabamos nos aprofundando na história e cultura de alguns países, e quando pensamos neles carregamos uma carga de informações diversas, porém sempre há de existir um lugar ao qual, para não dizermos que desconhecemos completamente, acionamos nosso catálogo de clichés.

Escrevo esse texto durante uma viagem para a Indochina, em que tais questões me ocorreram após perceber um incômodo curioso. Ao chegar à República Socialista do Vietnã havia lido um livro-reportagem sobre o país (Vietnã pós-guerra) além de artigos na internet, e também assisti documentários e filmes sobre o assunto. Mesmo tentando me inteirar sobre a história e cultura vietnamitas, cheguei ao país em busca dos mesmos chapéus cônicos pertencentes ao meu inventário de lugares comuns, assim como campos de plantação de arroz alagados, túneis de guerra antigamente percorridos por vietcongs e várias das características que uma pessoa de esquerda acreditaria encontrar em uma República Socialista (mesmo conhecendo minimamente a situação atual do país e reconhecendo que tais características seriam limitadas). Porém, meu incômodo se deu ao encontrar muito mais do que o que esperava: uma sociedade complexa e contraditória. Nada mais óbvio para caracterizar sociedades do que tais adjetivos, mas o encontro proporcionado pelas viagens pode surpreender até mesmo os cientistas sociais, quando veem confrontado o pacote de estereótipos culturais que lhes foi proporcionado.  A definição uníssona que facilitava meu entendimento do Vietnã se ramificou em milhares de outras definições, milhares de outros países. E porque isso me incomodava?

Provavelmente porque a complexidade do mundo nos dá uma pancada vez ou outra, quando nos acomodamos na leviandade de tentar defini-lo ou simplificá-lo, e a frustração de reconhecer que o conhecimento é infinito e sua totalidade, inalcançável, bate como uma quarta ferida narcísica (ou como a própria essência das anteriores). Para aqueles que trabalham ou pretendem trabalhar com a produção de ideias e opiniões, como eu, o nocaute é ainda mais poderoso. Através do pouco tempo em que estive construindo uma carreira jornalística, percebi que o fetiche por rotular, encaixar e distorcer histórias em busca de uma realidade fácil e consumível, representa o maior mal da profissão. Já fui seduzida por esse vício inúmeras vezes, mesmo em um tempo ínfimo de atuação na área. E o incômodo em encontrar uma sociedade impossível de se caracterizar nos poucos  “toques” de uma matéria jornalística, é a mais pura consequência desse vício  − a partir de agora, assim que eu começasse a relatar algo sobre o Vietnã, meu nível de dificuldade se multiplicaria, assim como a necessidade de estudo, afinal, eu havia perfurado a bola de neve com o pequeno vietnamita de chapéu cônico, e dela escorrera muito mais do que água.

No momento em que um ocidental pisa nas grandes cidades da Indochina, dificilmente algum dos clichês culturais chama mais atenção do que o trânsito aparentemente caótico, mas que, por uma força provavelmente budista, flui entre a quase inexistência de sinalização ou mãos, e o número sem fim de motos com um algarismo comparável de passageiros, carregando cargas que dificilmente conseguiríamos colocar em um carro (como geladeiras, porcos ou até búfalos). A peculiaridade do trânsito vietnamita não poderia ser deixada de lado em qualquer relato de viagem que se preze, mesmo não estando estampada nos cartões postais. A poluição formada pela grande quantidade de motos (uma para cada três pessoas), somada com a fuligem oriunda da queima de restos do arroz após a colheita, leva grande parte da população a usar máscaras higiênicas para se proteger. Porém, o uso das máscaras no interior do país, menos poluído, revela outra característica cultural: o ideal de beleza. Para os vietnamitas, principalmente as mulheres, manter a pele branca e sem queimaduras de sol é uma questão estética, atingida também através de luvas e chapéus.

A lei que limita a quantidade de filhos dos vietnamitas também é uma informação que nunca havia chegado a mim antes. Devido a grande população de 90 milhões em um país tão pequeno, os cidadãos são proibidos de terem mais de dois filhos, recebendo multa caso quebrem a lei, além de serem humilhados em praça pública por autofalantes espalhados pelas esquinas. Como na China, a existência dessa lei criou e agravou problemas sociais como o número de abortos irregulares e perigosos, e o abandono principalmente de meninas, por não representarem uma continuidade do nome da família, já que são obrigadas a morar na casa do marido e adotar seu sobrenome após o casamento. Na tradição misógina do país, apenas o filho homem mais velho de um casal tem a tarefa de cuidar dos pais durante sua vida, enquanto o filho mais novo se vê isento do cargo e as filhas nem tem tal direito. Assim, cada vez mais as vietnamitas procuram formas ilegais de descobrir o sexo do feto (já que o ultrassom com essa finalidade é proibido), e se antecipam caso não estejam grávidas de meninos.

Outra característica curiosa é a língua vietnamita. É chamada tonal por possuir uma variação de seis tons: neutro, agudo, grave e misturas de todos ao mesmo tempo (escritas com até dois acentos na mesma letra), causando uma oscilação sonora muito musical. Assim, uma mesma palavra pode ter seis significados diferentes, dependendo da sua acentuação e pronúncia. Apesar de tão oriental, a língua falada no Vietnã é transcrita com o alfabeto latino, pois o século de colonização francesa no país apagou da memória de todos os caracteres antigos, adaptados do Mandarim.

Segundo o guia Thien, de Saigon, que nos levou até os túneis de guerra dos vietcongues, os vietnamitas tem uma capacidade fora do comum de perdoar estrangeiros de países que já foram seus inimigos  –  algo que não se repete nem nas relações entre os próprios habitantes do Vietnã. Sem saber exatamente como explicar o motivo, culpou o Yin-Yang pelo equilíbrio e desequilíbrio das relações, afirmando que o melhor jeito que encontraram para seguir em frente após os mil anos de colonização chinesa, cem de colonização francesa e vinte anos de guerra (que curiosamente – ou não − é chamada aqui de guerra americana), foi apertando as mãos dos antigos inimigos e “esquecendo” o passado. Esquecendo entre aspas, porque ele usou o verbo “forget”, mas não acredito que com o mesmo entendimento que nós brasileiros temos de “esquecer o passado”. Isso porque uma marca cultural do Brasil é a nossa incapacidade de formar memória a cerca de fatos e atrocidades históricas, o que é uma das principais causas das heranças escravocratas, oligárquicas, coronelísticas e militares no país. Espero que apesar da política de boa vizinhança com os EUA, os vietnamitas não deixem de atribuir ao país a causa e cobrá-lo pelos crimes de guerra que afetam o nascimento de crianças até hoje, além dos 20% do território vietnamita coberto por minas e lixo bélico, que ainda matam cerca de 60 pessoas por ano. Porém, uma coisa é notória: os vietnamitas estão quase sempre sorrindo.

Uma explicação mais plausível para a atual relação internacional entre os EUA e o Vietnã, provavelmente está relacionada ao livre mercado instituído lentamenteno país asiático após o fim da União Soviética. Apesar de se chamar República Socialista do Vietnã, de socialista o país não tem mais nada, apenas um governo comandado pelo partido único “Partido Comunista do Vietnã”, que espalha propagandas políticas e estátuas carregadas de foices e martelos. A propaganda, porém, não conquista a juventude vietnamita, deslumbrada pelo consumismo e a possibilidade de enriquecer aprendendo a língua inglesa. Apesar disso, ainda cultuam o revolucionário Ho Chí Mihn, que liderou e venceu a guerra de independência contra a França, formando o partido comunista e se tornando presidente do Vietnã do Norte (República Democrática do Vietnã) durante aguerra americana. Morreu de problemas cardíacos ainda durante a guerra, e seu corpo encontra-se embalsamado em um Mausoléu em Hanoi, apesar de sua vontade de ser cremado. Sua imagem é encontrada em todos os cantos, salas e paredes do país.

Em relação a outro país visitado, o Reino do Camboja, talvez o incômodo em descobrir sua complexidade não tenha se dado da mesma forma e pelos mesmos motivos que em seu vizinho, Vietnã. Primeiramente porque a bagagem de estereótipos que eu possuía sobre o país se resumia à lembranças borradas de templos de pedra que já havia visto em fotos. Apesar de também ter estudado a história do Camboja antes de viajar, cheguei sem muita noção do que havia acontecido por lá. Descobri que a riqueza cultural do país é impressionante e reconhecida pelos seus habitantes, que ostentam com orgulho a arquitetura e os detalhes dos tais templos, surreais, construídos por seus antepassados durante o período Angkor (900 a 1300). As habilidades manuais foram herdadas por grande parte da população, que continua a esculpir em pedra, madeira e prata, os motivos budistas, hindus ou simplesmente decorativos, vistos nos pontos turísticos. Além disso, a cultura artística é esbanjada através de danças típicas, como a dança real Apsara, e a produção de seda e lenços populares de algodão, usados por praticamente toda a população rural, os kramas.

Porém, o maior choque ao tomar contato com a cultura cambojana é perceber a importância da história do país, completamente desconhecida pela maior parte do mundo e ignorada pelas grades escolares brasileiras. A revolução cultural “comunista” executada pelo partido Khmer Vermelho, liderado por Pol Pot, foi um dos maiores genocídios da humanidade. Pelo menos dois milhões de pessoas foram executadas, praticamente um terço da população do Camboja, entre os anos de 1975 e 1979, enquanto o Khmer Vermelho esteve no poder. O ideal de recomeçar uma sociedade, completamente agrária, condenou toda a classe artística, médica e intelectual, assim como qualquer um que fosse alfabetizado. Ao visitar os chamados “killing fields”, campos de concentração do regime onde os prisioneiros gastavam suas últimas forças, o incômodo deixa de ser somente pelo desconhecimento de tudo que aconteceu, e se concretiza em revolta. Anda-se literalmente por cima dos ossos nas covas massificadas, enquanto o guia aponta dentes espalhados pelo chão. Após retirar os crânios para identificação das vítimas (e organizá-los em um monumento central um tanto tétrico), a população resolveu que os restos mortais e trapos deveriam permanecer nas covas, para que os mortos pudessem descansar.

A influência do Khmer Vermelho na história do Camboja durou anos após o fim do regime, devido a guerra civil consequente da deposição de Pol Pot por tropas pacificadoras vietnamitas, terminando apenas em 1999. Dessa forma, a maior parte da população do país não apenas viveu o regime de Pol Pot, mas teve parentes próximos mortos, escapou dos campos de concentração ou foi convertida em soldados e membros do partido. A sociedade atual, recém saída do genocídio, recupera-se lentamente tentando vencer a impunidade dos líderes do Khmer Vermelho, e conviver com a impossibilidade de ser maniqueísta em um país onde as vítimas e os matadores da história são, em grande parte das vezes, a mesma pessoa.

É o caso do guia turístico Buntha, que nos acompanhou na visita ao antigo Killing Field e atual memorial do genocídio de Choeung Ek. Foi levado para se tornar soldado do Khmer Vermelho aos sete anos, após seus pais, professores, serem mortos pelo partido. Frequentou a escola onde, segundo ele, sofreu lavagem cerebral, e foi levado para trabalhar em uma das prisões onde ficavam os presos políticos. Lá trabalhou por seis meses com a limpeza das caixas usadas para excrementos, e também foi obrigado a torturar alguns dos prisioneiros. Os turistas, perplexos ao terem seus valores de bem e mal desconstruídos, questionavam Buntha sobre tal feito, enquanto o guia se esforçava para esconder a emoção, permanecer profissional e convencê-los de que “era minha vida ou a deles”.

A pobreza do Camboja incomoda a muitos dos que passeiam pelo país durante as férias. Se materializa na forma de vendedores de souvenires e pedintes que, na maioria das vezes, não tem mais de cinco anos. A educação não é obrigatória, e as crianças começam a trabalhar (catando sucata ou vendendo artesanato), assim que aprendem a andar. Quando ficam mais velhos, os meninos acabam optando por se tornar monges, para não terem custos com estudos e sobrevivência, já que a comida é subsidiada pela população. Os monges no Camboja podem deixar o monastério quando bem entenderem, o que faz da vida de túnica laranja ainda mais apelativa. Porém, os monges são proibidos de tocar mulheres, o que impede as meninas de estudarem nos monastérios. Com a distância e custo das escolas, acabam deixando de estudar, e casando antes de atingir a maioridade.

Entre os choques e incômodos consequentes da lei natural dos encontros, selecionei essa quantidade ínfima de informações que me chamaram a atenção durante o último mês. Quebrar a solidez dos arquétipos que resumem nosso conhecimento do mundo, ampliando-os e embaralhando-os, é o que torna uma viagem fascinante. A impossibilidade de se descrever por completo um lugar ou uma cultura é o que torna o jornalismo fascinante, pois estimula a curiosidade intrínseca ao ser humano e necessária na profissão. Espero ter incitado essa curiosidade no leitor, confundindo e desconstruindo seus estereótipos. Espero que após a leitura desse texto, saía-se desconhecendo ainda mais o Vietnã e o Camboja.

 

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