Invasão do CT do Corinthians revela a cegueira da mídia

Por Paulo Motoryn

Via MyFunCity

A invasão do Centro de Treinamento do Corinthians por um grupo de torcedores, furiosos com o desempenho da equipe no clássico contra o Santos, desencadeou uma reação de diversos setores da sociedade e tornou novamente o futebol uma arena de discussões ideológicas. Imediatamente após o episódio, a mídia voltou a levantar a bandeira da “Paz no Futebol”, uma causa evidentemente justa, mas que se não for bem explorada, esconde contradições e antagonismos determinantes para a compreensão e contextualização do problema.

Os programas de debate esportivo na televisão aberta dão, provavelmente, uma das grandes  contribuições para que a questão seja encarada de forma reducionista e preconceituosa. O programa “Donos da Bola”, apresentado pelo ex-jogador Neto, na TV Bandeirantes, é hors-concours no que se refere à pobreza intelectual da discussão futebolística. O âncora é antigo ídolo do Corinthians e não se acanha em repetir ao vivo, diversas vezes, sua admiração pela Tobias Aguiar – como ele chama um dos maiores esquadrões de extermínio do Brasil, a Rota.

Durante a semana, como não poderia ser diferente em um programa voltado exclusivamente para o acúmulo de audiência e descompromissado com o interesse público ou com o jornalismo honesto, o caso da invasão do CT do Corinthians foi tratado como mais uma grande bomba de fumaça para que os debatedores fizessem seus gracejos, propagandeassem um suposto clima de terror e pedissem, provavelmente inspirados no próprio companheiro de emissora, José Luiz Datena, “jaula” ou até “bala” nos “meliantes”.

É evidente que a invasão do local de trabalho dos jogadores deve ser radicalmente condenada pela mídia. No entanto, a falta de contextualização do assunto gera apenas criminalização das torcidas organizadas ou até de torcedores autônomos, ignorando pontos cruciais para que, de fato, tenhamos “Paz no Futebol”. Afinal, alguém acredita que alcançaremos dias melhores no futebol com a prisão, a morte ou a extinção de torcedores organizados? Talvez o Neto e sua turma acreditem. Decerto não enxergam as estruturas de poder que determinam a violência no esporte.

No caso do futebol, a questão está escancarada, mas a passividade dos jornalistas esportivos, causada talvez pelo glamour letárgico da amizade com jogadores, faz a reflexão minguar. A correlação de forças e a essência das estruturas e entidades do futebol brasileiro seria cômica, se não fosse trágica. Quando o currículo do presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), José Maria Marin, aponta apoio à Ditadura Militar e furto de medalhas, não é difícil perceber que a podridão no esporte começa muito antes dos torcedores organizados.

Em um cenário de aprofundamento das cenas de violência, casos de corrupção e escândalos jurídicos, um fio de esperança pode surgir com a oxigenação do futebol brasileiro: o Bom Senso F.C. O movimento, apesar de pequenas disfunções, como o apadrinhamento por Washington Olivetto, publicitário e representante dos interesses econômicos dos grandes anunciantes, finalmente indica uma politização dos jogadores no sentido de enfrentar as velhas e carcomidas estruturas de poder. Já é hora de Paulo André e seus colegas inspirarem o circo midiático a esquecer preconceitos e entender a urgência de uma luta radical por um futebol mais humano.

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