Reflexões sobre um rojão

Por Thiago Gabriel

A morte do cinegrafista da Tv Bandeirantes, Santiago Andrade, depois de ser atingido na cabeça por um artefato explosivo durante os protestos contra o aumento da tarifa do transporte público na última quinta (6) no Rio de Janeiro, causou uma comoção geral, especialmente por parte de quem mais influencia a opinião pública: a voz da mídia. A reação das pessoas após o fato também deflagra que a fatalidade parecia ser vista como consequência natural do rumo dos últimos protestos realizados no país.

Neste caso, não importa quem é policial, manifestante ou apenas acompanha de longe a movimentação recente das ruas. Não importa quem é de direita, esquerda ou anarquista, é impossível não reconhecer os exageros quem vêm ocorrendo nas manifestações e culminaram no acidente do jornalista.

Existem alguns pontos que acho importante trazer à tona das reflexões devido aos acontecimentos recentes.

Quem

O explosivo que acertou Santiago foi disparado por um manifestante. Não se sabe com exatidão quem o fez, porém imagens comprovam que o objeto foi posto em  funcionamento por um civil, e não um policial.

Um homem, que dizia ser o portador do rojão que, segundo ele, havia sido entregue para o uso de outro manifestante, apresentou-se à Polícia. Fábio Raposo disse ter encontrado o artefato no chão, entregue a um desconhecido, que por sua vez acendeu e disparou-o, negando participação no crime. Versão que a polícia não comprou, indiciando-o pelos mesmos crimes que o autor do disparo. Fábio foi seduzido pela proposta de delação premiada, e identificou o homem que teria soltado supostamente soltado o rojão. Caio Silva de Souza foi capturado pela polícia como principal suspeito do crime.

Esse acontecimento indica um novo fato no cenário das movimentações populares. Antes, apenas a polícia era responsabilizada pelos incontáveis exageros e feridos nas manifestações desde junho do ano passado. Essa responsabilidade justifica-se, a força policial caracterizou-se por conter os atos através da violência de balas de borracha e bombas de gás que não distinguiam seus alvos.

Quando

Com a crescente repressão aos manifestantes, estes passaram a preparar-se para o confronto e brotaram em si um sentimento de raiva e ódio aos homens de farda. O ataque passou a ser desencadeado pelos dois lados, e tornaram-se recorrentes as cenas de combate travadas, e como consequência o armamento passou a ser cada vez mais incrementado pelos dois lados.

Esse cenário em montagem tinha tudo para acabar provocando exageros.

Como

O uso do explosivo foi completamente irresponsável e desmesurado, embora não premeditado, por alguém que dizia se colocar naquele momento como defensor das liberdades e direitos do povo, e contrário as arbitrariedades e a opressão contra o elo mais fraco das relações de poder e de sociedade.

Onde

Em um protesto que foi convocado para lutar pela revogação do aumento de tarifa do transporte público no Rio de Janeiro, onde manifestantes realizaram sabotagem às catracas na estação Central do Brasil, das principais da cidade.

Embora o foco principal colocado fosse a luta pela diminuição das tarifas, nada tem se falado sobre o assunto desde o acidente envolvendo Santiago. Por fim, a forma de luta escolhida para o ato acabou por esgotar a validade do debate, colocando boa parte da opinião pública contra a continuidade da realização dos protestos. Fez o povo optar pela falsa sensação de segurança e bem-estar oferecida pelo Estado, amedrontado pelas cenas de violência nas ruas. Essa sensação de garantia à vida se sobrepôs e sufocou a necessidade de lutar frente as injustiças e arbitrariedades que as manifestações de junho tinham provocado na população.

Por Que

Em protesto contra a realização da Copa do Mundo no Brasil, ocorrido no dia 25 de janeiro deste ano, o manifestante Fabrício Chaves foi baleado por PMs que o perseguiam pelo bairro de Higienópolis após sua fuga em uma abordagem na região onde ocorria a manifestação. Ele sofreu três tiros de arma de fogo e foi hospitalizado em estado grave. Sem risco de morte, deve perder um testículo e parte dos movimentos de um dos braços.

O anúncio de que a situação passava para limites em que os danos tornavam-se irreparáveis e imensuráveis estava dado. E a certeza de que a reação por parte de quem estava nas ruas seria radicalizar e preparar-se belicamente para os atos também.

A bomba que atingiu Santiago Andrade foi a consequência de um conflito que já acumula personagens, ocorrências e feridos. A movimentação popular recorrente, maior ganho de uma sociedade que encontrava-se estagnada de lutas frente às injustiças que lhes eram colocadas, perde em popularidade com a crescente violência, e o medo da maior parte dos cidadãos de se tornarem Fabrícios ou Santiagos.

Absurdos e Desconhecimentos

Duas consequências dos acontecimentos vêm se mostrando desproporcionais e ignorantes.

A tentativa de relacionar o suspeito de atirar o artefato que provocou a morte de Santiago com o deputado e pré-candidato à governador do Rio de Janeiro pelo PSOL, Marcelo Freixo, é no mínimo leviana.

É irresponsável associar um homem que possui reconhecida luta por direitos civis e denúncia de absolutismos por parte do Estado contra a população, com um sujeito que vem sendo condenado em nossa sociedade depois de ter supostamente ter provocado a morte do cinegrafista, tomando como fonte um único relato de uma garota que aparece do nada autoentitulando-se “ativista”.

A história fica ainda mais estranha quando comprova-se que o advogado que assessora Fábio Raposo, José Tadeu Nunes, autor da denúncia que teria ouvido da ativista Sininho, defendeu o ex-deputado estadual Natalino José Guimarães, denunciado e condenado em CPI das milícias presidida por Freixo em 2008.

Freixo negou as denúncias e afirmou desconhecer tanto Fábio quanto o suspeito Caio. A tentativa de associação, difundida pelo O Globo, assume ares mais estranhos quando em ano de eleição.

Outro absurdo que tenta se legitimar através da comoção momentânea é a  tentativa de aprovação de uma lei que permite enquadrar manifestantes identificados como adeptos da tática Black Block como terroristas, de forma a permitir sua prisão preventiva sob justificativa de estarem “causando terror à população”.

Uma medida como essa não nos faz avançar em qualquer nível de discussão, e mostra-se autoritária e problemática quanto a sua aplicação devido ao que conhecemos da atuação das forças de lei do Estado e da inconsistência de seus critérios. Já vimos como uma lei como essa pode acabar tornando-se pretexto para a prisão de inimigos políticos ou indesejados sociais das instituições de poder vigentes.

Haja vista o que Bush fez com a medida anti-terror que instaurou após o 11 de setembro e justificou muitas ações policiais contra imigrantes e ativistas radicais que em nada poderiam ser caracterizados como terroristas. Além disso, acabou gerando uma situação de medo e estigmatização que gera tensões sociais que perduram até hoje. A conquista do apoio popular nasceu também de uma situação de comoção. Semelhanças não são mera coincidência.

Torna-se a tipificação de um crime a indivíduos que, embora demonstrem uma irresponsabilidade e descontrole em muitas atitudes, claramente não possuem uma organização orquestrada entorno da criação de uma situação de terror à população. Devem ser responsabilizados individualmente por suas atitudes.

Cenário Atual

O movimento que forma-se agora é de rejeição popular a maneira como os protestos vem se desenrolando, o que acaba por permitir as forças do Estado atuar com cada vez mais força e firmeza sobre quem vai as ruas, antes visto como manifestante, e agora como vândalo. E o risco maior é que, na decorrência de uma tragédia surjam justiceiros tentando provar que podem botar ordem e controlar o caos que provoca medo na população. E que eles se tornem convincentes.

Quem realmente luta por mudanças e está disposto a ir às ruas (que não são poucos), precisa repensar os rumos que os atos vem tomando, para que não vejamos como consequência reações extremistas e autoritárias por parte das instituições vigentes, que podem acabar se manifestando com o apoio do povo.

Hoje, vivemos uma guerra entre parte dos manifestantes que cultivaram um ódio mortal aos policiais, e uma polícia, repressora e despreparada para a ação que deveriam desempenhar em atos civis, historicamente treinada para eliminar seu inimigo, que no caso das manifestações tornam-se os cidadãos. E para os manifestantes tornou-se a polícia. Em meio a isso, existem perdas.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s