O ocaso de Lenny: uma vida sequestrada

Por Paulo Motoryn

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O Campeonato Brasileiro de 2006 foi o auge da carreira do atacante Lenny no futebol. Com apenas 18 anos, o garoto encantou a imprensa esportiva e os torcedores do Fluminense ao marcar um lindo gol em jogo contra o Cruzeiro, no Mineirão. Seus 170 centímetros – de um sorriso adolescente e um rosto repleto de acne – foram a foto da capa de grande parte dos jornais cariocas do dia seguinte. O golaço iniciou uma catarse na vida de Lenny.

Os traços ainda infantis de Lenny contrastavam com o assédio da mídia e dos fãs. A comoção pela possibilidade do surgimento de mais um grande craque carioca era clara. História de ídolo ele tinha: infância na Vila da Penha, subúrbio do Rio de Janeiro, mesma região onde nasceu Romário, e adolescência sequestrada pelas horas de treino no complexo de Xerém, centro do Fluminense para o treinamento de jovens aspirantes à uma carreira futebolística.

Depois do início encantador, contudo, os dias de Lenny passaram a ser difíceis. Uma série de lesões e desentendimentos com a torcida fizeram com que o jovem fosse emprestado ao Braga, de Portugal. Na Europa, ele não conseguiu ter o mesmo sucesso de seu início no Fluminense e logo voltou ao Brasil. Contratado pelo Palmeiras em 2008, sob o comando de Vanderlei Luxemburgo, ele teve sua segunda grande chance. Novamente frustrante.

Seus poucos lampejos nos tempos de Palmeiras, no entanto, garantiram-lhe mais uma tentativa de retomada. Desta vez no Figueirense, Lenny apenas repetiu notícias de lesões e ainda discutiu publicamente com a comissão técnica e o departamento médico. A saída do clube catarinense foi sucedida por uma peregrinação por times de pequena expressão: Desportivo Brasil, Boavista, Ventforet Kofu, do Japão, Madureira e Atlético Sorocaba.

Sua saída da equipe sorocabana foi recente. Após atuar por apenas 25 minutos nas primeiras oito rodadas do Paulistão deste ano, Lenny foi dispensado pelo Atlético na última quarta-feira, com o clube alegando uma rescisão amigável. Amigável não é a situação de Lenny no mercado. Com as inscrições para os principais campeonatos estaduais encerradas e sem despertar absolutamente nenhum interesse de clubes relevantes, ele está desempregado. Aos 25 anos.

Em uma reportagem especial do Globoesporte.com, publicada no início do ano, antes de assinar contrato e logo se despedir de Sorocaba, Lenny já era episódio de uma série que resgata histórias de jogadores que sumiram dos holofotes da mídia. Segundo o texto, ele é “mais uma cria da fábrica de Xerém”. No mesmo parágrafo, a reportagem cita que o jovem era da mesma “safra” de outros atletas conhecidos. Cria, fábrica, safra…

O vocabulário usado é recorrente no jornalismo esportivo. E quer dizer muito sobre os jogadores de futebol, encarados como mercadorias na lógica do futebol-negócio. Seres desumanizados por uma infância geralmente sofrida e por anos de sequestro em treinamentos intensos e rigorosos, horas de dedicação ao trabalho incompatíveis com a pouca idade em que são submetidos às “fábricas” como as de Xerém, de onde veio Lenny.

O discurso dos grandes veículos de informação esportiva é compatível ao que atualmente representa a vida do atleta. Por exemplo, Neymar, não à toa, quando ainda estava no Brasil, era chamado de Joia por diversas redações – sim, com J maiúsculo. O que deixa claro: pouco importava se Neymar negasse ser negro, dissesse nunca ter visto racismo no Brasil, desrespeitasse técnicos e companheiros – o que, de fato, aconteceu. O que importava é que ele era uma Joia: um produto brilhante e valioso. Assim como foi Lenny, que, agora, já não vê sua estrela brilhar.

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