A luta contra as catracas no fogo cruzado

Por Paulo Motoryn

988802_646013085454946_444415818_nJilmar Tatto (PT), secretário de Transportes, recebeu o Troféu Catraca (Foto: MPL/Facebook)

Se há duas grandes novidades no cenário político brasileiro a partir das manifestações de junho de 2013, são a tática black bloc e o Movimento Passe Livre (MPL). Ambos foram protagonistas nas mobilizações que irromperam a apatia política que assolava a sociedade brasileira desde a década de 1990 e, há muito, e sem a devida atenção, são atores políticos importantes. Não à toa, mascarados e militantes da tarifa zero sofrem agora uma campanha de difamação em diversos setores da sociedade. No texto, discutiremos as tentativas de deslegitimação do MPL.

O primeiro passo para entender a ojeriza ao MPL é simples. A direita neoliberal não tolera o movimento por ser historicamente avessa às mobilizações populares e essencialmente contrária ao fortalecimento dos serviços do Estado – como o transporte. A esquerda tradicional, por sua vez, através do Partido dos Trabalhadores, detentor do poder executivo na esfera municipal, no caso da cidade de São Paulo – onde começaram os atos no ano passado -, e na esfera federal, configura um oponente recorrente na luta pelo Passe Livre, bem como as empresas concessionárias do transporte.

Logo na essência, PT e MPL batem cabeça. A concepção de partido hierarquizado e burocratizado é criticada pelo movimento, que se diz horizontal e autônomo. A inspiração auto-gestionária do MPL é o exato oposto da estruturação do PT, inserido na lógica institucional. Enquanto o modelo político atual, baseado em partidos que representam interesses privados a partir do financiamento de campanhas, respira por aparelhos, o MPL é uma crítica ácida ao sistema.

Além da provocação conceitual oriunda do modelo de organização, o MPL traz incômodo ao PT por ameaçar a corrida eleitoral de seus candidatos. A presidenta Dilma Rousseff (PT), por exemplo, teve seu índice de aprovação radicalmente diminuído logo após as manifestações de junho do ano passado. Mesmo assim, à época, Dilma também obteve aprovação nas decisões anunciadas para dar resposta ao clamor popular, dentre as quais se destacava a reforma política – brecada através de conchavos no Congresso Nacional.

As decorrências da mobilização de 2013 não corresponderam aos anseios da presidenta, que viu desaparecer o momento em que o Brasil esteve mais próximo de concretizar sua necessária reforma política. Mesmo assim, vozes do partido de Dilma não entendem que foi a política das ruas – aquela dos baderneiros e vândalos – que concedeu a oportunidade histórica em questão, evitada através de manobra na carcomida política dos gabinetes. Mesmo assim, condenam as manifestações de rua “violentas” – quando até mesmo os grandes veículos atestam que a violência parte do Estado, praticada pela Polícia Militar – e começou uma campanha entre seus militantes na internet para enfraquecer o MPL e outros movimentos que devem ocupar as ruas em 2014.

As insistentes cobranças do MPL ao prefeito Fernando Haddad (PT) e ao secretário de Transportes, Jilmar Tatto, em relação ao corte de linhas de ônibus neste ano, também são encaradas como perseguição por militantes petistas. O debate aberto com Tatto na última quinta-feira foi o auge do constrangimento na relação: ele recebeu como presente um Troféu Catraca, por, segundo o MPL, colaborar com a política de maximização dos lucros dos empresários do transporte coletivo. O troféu já havia sido recebido por Gilberto Kassab (PSD).

Como se não bastasse, o fato coincidiu com uma informação espalhada pelas redes sociais: um suposto aumento das passagens dos ônibus intermunicipais promovido pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB). Sorrateiramente ignorada por grandes veículos de comunicação, a alteração no preço da tarifa não foi pauta imediata do MPL, empenhado na divulgação do debate com Tatto. O silêncio do MPL foi logo encarado por petistas como proteção do movimento ao PSDB. A realidade, no entanto, não era bem aquela propagandeada nas redes.

Tratava-se de um aumento do valor da passagem dos ônibus rodoviários que, na cidade de São Paulo, são pouco significativos no que se refere ao transporte coletivo urbano. Não devem ser confundidos com os veículos da EMTU, usados massivamente pelos moradores da região metropolitana e conhecidos como “intermunicipais”, que seguem com o mesmo preço. Mesmo assim, o fato foi motivo para um massacre do MPL em veículos de comunicação comprometidos com o poder federal, insistentes em tentar enquadrar as ações do movimento na sua lógica partidária e eleitoreira.

O equívoco na informação sobre o aumento das tarifas não foi o único de mesmo sentido nas últimas semanas. Em texto para o Blog do Nassif, Osvaldo Ferreira, professor, afirma que o movimento é “de estudantes do PSOL e do PSTU”. Ao ignorar a inspiração líbertária do MPL e nem sequer entender seu posicionamento apartidário – e não antipartidário -, o artigo tenta associar diretamente o movimento aos partidos, estratégia semelhante à utilizada pela Revista Veja e pelo Fantástico, da Rede Globo, para tentar evidenciar ligações entre manifestantes do Rio de Janeiro e o deputado Marcelo Freixo (PSOL).

Do lado das forças ainda mais conservadoras, como o governador Geraldo Alckmin, o MPL recebe apenas uma resposta à sua luta: repressão policial (com o aval do governador). Contrastando com a suposta conivência do MPL em relação ao PSDB, em agosto do ano passado, as denúncias sobre o esquema milionário de corrupção nas obras do metrô durante os governos dos tucanos em São Paulo motivaram uma manifestação do MPL com milhares de pessoas no centro da capital. Atacando e sendo atacado por diferentes orientações ideológicas e partidárias, o MPL vive hoje num fogo cruzado. Alheios aos Fla-Flus partidários, os militantes do Passe Livre parecem preocupados apenas em colocar as catracas do transporte público na mesma fogueira.

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