No tempo do meu

Por Felipe Ferreira [@GriphosMeus]

Foto: Eduardo Fagnani

Foto: Eduardo Fagnani

… E mais um dia se faz. O galo canta, os passarinhos conversam, os raios de sol invadem os vasculhantes da janela de madeira caindo aos pedaços e rasgam minhas retinas recém despertadas, recheadas de remela.

São cinco horas da manhã. Acordo sem a obrigação do ato. Vou à cozinha, pego a xícara de café preto, sem açúcar, e me debruço na janela. Lá me instalo, vejo quem sobe, quem desce, os que vão estudar, os que vão trabalhar… E vários auto-retratos que estão ali, igualmente a ver a vida passar, a recordar o que já passou…

No caminho da padaria passo pela praça do bairro e volto a me ver na moldura, em uma daquelas almas, que lêem calmamente o jornal do dia, jogam dominó, e que, sobretudo, conversam, conversam, conversam…

À tarde, é hora do passeio gratuito. Vou ali ao banco – do capital – chorar após o saque da aposentadoria. Peraí…

– Mas, eu já não fiz isso ontem?

– Não me lembro…

No fim de linha – do ônibus – novamente me vi naquele grupo que reclamava da demora, falava com a ‘irmã’ do lado que se quer conhecia, e esbravejava em revolta à falta de respeito das pessoas para com vossos cabelos brancos.

Em casa no vai e vem gostoso da minha cadeira de balanço…

O telefone toca. Reclamo, mas vou atendê-lo.

A campainha toca. Resmungo, mas vou atendê-la.

A protagonista da novela paga de demente, e a esclerosada da estória sou eu?

– Vá para os diabos!

Declinei dos convites dos meus filhos, e preferi passar a noite em casa, jogando xadrez, apostado, só. Eu e o relógio.

… Sempre gostei da noite.

Na pizzaria, o pedido leva um ano para chegar à mesa.

No teatro é aquele monte de desesperados que sorriem quando não devem, aplaudem em quase todos os atos, e ao fechar as cortinas aplaudem de pé, mesmo no fundo tendo consciência de que não era para tanto.

Na casa do meu filho, a mulher dele é uma velha, reclama de tudo, e o filho – é… meu neto – é uma peste.

– Ô criança mal educada!

O galo canta (…) São cinco horas da manhã, tenho vinte e cinco anos e vejo que estou ficando velha…

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2 responses to “No tempo do meu

  1. O seu texto foi capaz de me levar até aquela janela e ver cada detalhe do que você escreveu. Foi agradável e muito feliz da sua parte os detalhes que usou para marcar os trejeitos da terceira idade. Mas o melhor foi o CANSADA, no final, amiga. kkkkk

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