“Ué, e por que não fazem um dia dos homens?”

Por Lucas Pazetto

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Desenho por Beatriz Oliveira

Ah… Essa frase. Ela nos indigna, não? E ela nos indigna por três principais motivos:

1) Parece uma tentativa de igualar a história de uma minoria com a de uma maioria.

2) Incita a ideia de que a memória, lembrança e a homenagem são meras festanças.

3) Dá a entender que o papo chegou ao fim e que a mulher HOJE já não é mais desigual ao homem.

Bom, pra você que cita frases como esta ou do tipo, “e não é racismo não ter um dia da consciência branca?”, faço um convite: uma breve, e portanto incompleta, mas válida, jornada pela história da mulher.

Quem sabe assim, você possa entender porque esse dia têm que acontecer e com muita, mas muita razão.

Vamos começar nosso recorte na Antiguidade.

A sociedade ateniense foi organizada para o mundo masculino! A mulher era excluída da cidadania e da política. Suas atividades (não seu trânsito) se restringiam a uma área ”feminina” isolada chamada Gineceu. Viviam em regime de quase reclusão e em relações de submissão, não podendo gerir negócios e nem serem proprietárias de terras. Num ideal aristocrático de vida, quando os esposos recebiam convidados para o jantar, elas ficavam nos aposentos se perfumando com essências e óleos numa preparação para o regresso do marido. Em Roma a mulher era educada para ser esposa e mãe e quando havia o divórcio, os filhos ficavam sempre com o ex-marido.

Um dos maiores filósofos da época assim escrevera:

“O silêncio é o melhor ornamento das mulheres” – Sófocles

Na Idade Média suas atividades se restringiam ao espaço privado, apenas as camponesas saíam para trabalhar, porém o trabalho não era considerado um direito. Sua figura era ligada ao pecado, à loucura, ao erro e ao desvio de conduta. O que serviu também como uma das influência na Idade Moderna à perseguição das bruxas, enforcadas e queimadas em praças publicas.

“A alma de uma mulher e a alma de uma porca são quase o mesmo, ou seja, não valem grande coisa” – Arnaud Laufre

Agora como início da Idade Contemporânea faz-se necessário relembrar a revolução francesa. Poucos são os livros de história que tratam a participação das mulheres em tal marco. Mas foi justamente nesse período que houve um rompimento da submissão supostamente passiva até então.

Você sabia que durante a queda da bastilha, mulheres lideraram alguns agrupamentos jacobinos?

Foi o caso de Marie de Gouges. Para alguns a primeira feminista da história! Além disso, foi ela quem redigiu a declaração dos direitos da mulher e das cidadãs em 1790 afrontando a até então a declaração dos direitos dos homens. Era uma mulher a frente de seu tempo. Já discutia questões como virgindade, aborto, autonomia diante dos homens, o casamento entre outras.

Infelizmente seu bom senso lhe rendera a morte. Gouges foi à guilhotina em 1793 por ordem dos próprios Jacobinos, deixando uma reflexão antes. Dizia que, se podia morrer no cadafalso( plataforma onde se faziam execuções e discursos públicos) como um homem, as mulheres poderiam portanto manifestar seus pensamentos como tal.

Séc. XIX

Existiu durante anos um consenso de que a repressão violenta a grevistas em Nova Iorque, no ano de 1857, teria provocado a morte de cerca de 129 operárias, que reivindicavam melhores condições de trabalho. A forma como teriam morrido – num incêndio provocado pelos patrões – teria mobilizado socialistas, comunistas e trabalhadores em torno de uma causa em comum: não deixar que o mundo se esquecesse do sacrifício e da luta das mulheres pelos seus direitos. (Artigo. O dia da Mulher: história ou mito? – Marta G. Rovai)

Alguns historiadores como Naumi Vasconcelos, Dolores Farias e Vito Gianotti, dizem que o episódio foi apenas uma criação política para legitimar movimentos feministas nas fábricas no sec. XX.

No final do sec. XIX e início do sec. XX, em vários lugares, durante e após a Primeira Guerra, as mulheres saíram para trabalhar substituindo os homens nas industrias. Nessa época passaram a reivindicar o voto (movimento sufragista) principalmente na Inglaterra e nos EUA. Mas foi em 1893, que a Nova Zelândia se tornou o primeiro país a garantir o sufrágio feminino, graças ao movimento liderado por Kate Sheppard.

Foi nessa época de pós-guerra e guerra fria que se desenvolveram as chamadas duas grandes ondas feministas.

A primeira onda veio a se fortalecer em meados da década de 60 principalmente com uma obra clássica do feminismo, chamada Segundo Sexo – Simone de Beauvoir. Nessa ocasião os direitos femininos estavam mais relacionados com causas sócio-políticas, como o comunismo por exemplo.

“Não nasci mulher, tornei-me uma” – Simone

Essa frase demonstra que independentemente de se ter uma genitália masculina ou feminina, o que procede é a construção da imagem do gênero, do indivíduo, sob relações sociais e históricas. É a própria possibilidade de superar a condição natural do ser humano, podendo se auto construir de forma consciente.

Mas ao contrário do que muitos pensam, o lugar da mulher em tais movimentos muitas vezes se viam ameaçados. Nas próprias guerrilhas era raro uma mulher chegar a altos postos, e para fazer ser ouvida, muitas vezes havia de assumir uma postura masculinizada. Um dos motivos para que o lilás fosse adotado como a cor do feminismo, foi justamente a necessidade de diferenciar o vermelho do socialismo.

Durante a segunda onda na década de 70 os movimentos tinham um caráter mais voltado para o corpo feminino. Questões como a violência física, homossexualismo, vestimenta entre outros ganharam mais impulso.

Até que em 1975 a ONU, sob grande pressão, oficializa o dia Internacional da Mulher.

No Brasil…

Os movimentos internacionais refletiram desde a republica velha e se intensificaram durante o período Vargas, no qual conseguiram o direito ao voto em 1932 que fora constitucionalizado em 1934.

Mas o que pouco se fala aqui, foi do papel fundamental de liderança das mulheres nos movimentos de anistia aos presos políticos. Foram elas que recolhiam assinaturas para baixo assinados em praças e locais públicos e que participaram da organização dessa reivindicações.

Na década de 90 o movimento ganhou caráter mais social e subjetivo, fazendo surgir a discussão da violência em torno da mulher. O que foi peça chave para que pudesse ser criada a lei 11.340/06, conhecida com Lei Maria da Penha.

Hoje, brevemente falando, já que isso está ESCANCARADO, a mulher ainda é descriminalizada, tratada como objeto sexual, submetida a vontade masculina em diversos aspectos, principalmente na música e em relações domésticas. O índice de violência contra a mulher pelo menos no Brasil ainda é alto. A maioria das mulheres que assumem o mesmo cargo na carreira profissional que um homem ganha menos, são alvo de estereótipos machistas e ridicularizadas por serem até hoje, MESMO DEPOIS DE TODA SUA LUTA, julgadas menos capazes que os homens.

Essa história ultra resumida da mulher deixa o tópico apontado lá em cima em xeque. É inviável querer igualar a história de uma minoria a de uma maioria. Isso seria injusto com as dores, as feridas, conquistas, enfim com a própria história.

A mesma que serve para relembrar, para sofrer pesos já vividos e olhar para o futuro como quem não quer mais vivê-los, porque sabe que PÔDE e ainda PODE assim o fazer.

Utilizo do exemplo dos historiadores que negam o que aconteceu em 1857 ( e isso não é errado, pois a história é feita disso e necessita dessas controvérsias) para desenvolver uma consideração de Walter Benjamin.

Ele diz que a memória é messiânica e que permite escovar a história a contrapelo. Isso significa que a história pode ser contada pelos vencidos e projetada para futuro. Ela está em aberto, exprimindo tudo o que se buscou, o que se conseguiu e o que ainda dói. É a oportunidade de entender que ela pode ser rendida as esperanças de um futuro melhor e melhor porque é mais consciente de seu ontem, de seu hoje e só então de seu amanhã.

Este último dia 8 de março foi dia de Marilyn Monroe, Leila Diniz, Evita Peron, Maria Curie, Anita Garibaldi, Maria Quitéria, Cleópatra, Marie Gouges e tantas outras já citadas. Foi dia de toda a mulher. Não deixem que digam o contrário, afinal…

Vocês podem ter a história a seu favor.

(Gostaria de dedicar esse texto a Marta Rovai, grande mulher, ser humano e amiga)

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3 responses to ““Ué, e por que não fazem um dia dos homens?”

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