Crônica à ‘a’ saudade.

Por Felipe Ferreira [@GriphosMeus]

Ilustração por Stela Mendes

Ilustração por Stela Mendes

31 de janeiro, dia da saudade (!?)

– Ah tá!

Tem dia pra tudo agora. ‘Pra bêjá’, ‘pra fuder’, pra ter orgasmos – singulares ou múltiplos – … Pra sentir falta da ausência, na mais dorida e profunda presença. O pragmatismo me perseguiu desde jovem. Blusa na altura do umbigo e por dentro da bermuda; cabelo lambido partido para o lado… Saudade nenhuma daquele tempo, apenas registros.

E por incrível que pareça, ontem não senti saudade de ninguém, de nada. Deve ser porque ela me acompanha por todos os dias do calendário, e no seu dia, em respeito, ela resolveu tirar folga dos meus peitos.

– Eu durmo hoje, e já tenho saudade amanhã, do ontem.

– Eu durmo amanhã, e já tenho saudade do hoje, de outrora.

O dia amanheceu nublado, aquele cinza que prenuncia garoa. Um vento frio arrepiou os pelos da minha nuca. Virei para o lado, parei por tortuosos minutos, e deu saudade…

Meia noite do dia.

O bacalhau requentado de ontem, um garfo, uma faca, um pranto. Coloco a saudade pra tocar. Não a minha que a essa altura do dia já está em total colapso sinfônico, mas a poetizada pela ‘Moska’, que adora pousar na minha sopa de dor.

“… a casa da saudade é o vazio…”

Na cristaleira, minhas mãos só trincam em uma taça. O sangue argentino jorra (mas ele não era chileno?).

– Não! Eu que era brasileiro…

A sede – digo a saudade sedenta – era tamanha que nem o aroma da safra senti.

Deitei no sofá. Com os olhares fixados no teto, vi o céu cinzento do lado de fora, agora com a garoa fina como companhia. Olhei para a televisão que refletia minha imagem, recordei o banho de chuva, o talento de Mozart… Subi lentamente as escadas da sala, degrau por degrau, como se cada retângulo fosse cada pedaço da vida, que juntos nos levam ao começo.

Vou tomar um banho para esfriar a cabeça e outras coisas que fervem. Era impossível distinguir lágrimas de gotas, ausências de presenças.

“… saudade o som do tempo que ressoa…”

Completamente ‘nu molhado’ voltei no tempo. Nas fotografias me perdi. Na nudez da minha alma me encontrei.

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