Doze Anos de Escravidão: diagnóstico para além da sala de cinema

Por Caio Sarack

12years.fortues

Doze Anos de Escravidão, do diretor negro e inglês Steve McQueen, é um filme difícil de se fazer juízo completo. Explico: as forças do filme são tantas que quando chegamos ao fim já esperamos uma revira-volta comum às boas narrativas dos últimos cinquenta anos. Mas há mais perguntas do que a simples: “Por que este fim?”.

É crucial olharmos para o modo como a narrativa se organiza nas filmagens para então entendermos algumas das representações que o filme desenha. As cenas – que no livro possui também crueza na descrição – aparecem revisitadas, isto é, demonstram uma atualidade absurda enquanto assistimos Doze Anos. A linha por que expressa sua narrativa, faz com que McQueen opte vezes por cenas de relativa longa duração e mais panorâmicas: por se tratar de um escravidão sistêmica, o diretor afasta a câmera afim de dar vazão a esse sistema, deixa que ele fale por si. Um exemplo disto é quando Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor) está pendurado pelo pescoço em uma árvore centenária. A rotina dos escravos permanece intacta, não é necessário que o cerquem e isolem de qualquer ajuda, a introjeção da servidão transforma-se nos quase cinco minutos de cena.

O filme é permeado em grande medida por essa relação necessária entre forma (imagem, filme) e conteúdo (escravidão, ódio, desejo), grande parte dessa eficácia vem – penso eu, sem dúvida – do olhar do diretor.

Outro ponto a se destacar é de que o filme tem como roteiro a biografia de Northup (publicada em 1855). Este é, aliás, o grande eixo dessa crítica, tanto na avaliação do próprio filme quanto no seu diagnóstico de época, da de Solomon e da nossa.

Folheando o livro de mais de 300 páginas é possível entender algumas das falhas e das virtudes do filme, tamanha proximidade o diretor teve com o livro. O filme expressa bem algumas das críticas do livro: Solomon escreve que muitos dos seus gritos de dor ficavam inauditos meio a normalidade da vida americana, até mesmo no Norte abolicionista, que não conhece a fundo seus porões escravistas; o filme representa a mesma tensão: Solomon acorda depois de um golpe, sem mais sua fragilíssima liberdade, em um porão, uma cela, no correr da cena, o grito de socorro é silenciado pelo progresso do homem livre e assalariado do norte.

Léa Reis, em seu artigo para a Carta Maior, lembrou um trecho duma carta de Lincoln, o presidente abolicionista: “meu principal objetivo nesta luta é salvar a União e não salvar a escravidão nem destruí-la; se eu pudesse salvar a União ao preço de não libertar um só escravo, eu o faria; e se pudesse salvá-la libertando todos os escravos, eu faria; se pudesse salvá-la libertando uns e abandonando a outros, também o faria”. O progresso da nação capitalista é de uma virtude humanista exemplar como bem comprova não só a carta do décimo sexto presidente americano, mas principalmente o trajeto histórico da escravidão no continente americano.

O vencedor do Oscar de melhor filme endossa o mesmo progresso, mas com certo amargo: Solomon é um violinista trabalhador, não quer que sua mulher trabalhe, quer ganhar sua vida com o suor do próprio rosto, mas vê que a livre concorrência, a competição do mercado não se livra das travas herdadas do colonialismo mais vil. McQueen escolhe a mesma linearidade da biografia escrita, a força das imagens e dos enquadramentos que ele adota fazem emergir as contradições que ainda permanecem fora do próprio filme.

Doze Anos de Escravidão conseguiu representar a crueza descritiva da biografia de Solomon Northup. McQueen escolheu não se afastar do seu roteiro. Frente a tantas idas e vindas e esperanças frágeis, o espectador consegue esquecer que aquilo que acompanhou na tela se tratava de uma auto-biografia e, então, esquece de todas as consequências já prenunciadas pela narrativa característica do livro. Alguns esperaram redenção, outros um caminho sem saída, ambos encontraram; o que permanece inequivocamente é a ausência da redenção para além da sala de cinema.

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