O racismo no futebol brasileiro pelas redes sociais

Da Redação, com informações de Enrico Stievano, da consultoria Bites

Racismo contra jogadores e juiz faz explodir a discussão do tema nas redes sociais no Brasil

Como esporte nacional, o futebol possui um capital social muito útil, não apenas dentro do campo. Os integrantes desse universo (jornalistas, jogadores, comentaristas e equipe técnica) são capazes de influenciar debates caros à sociedade brasileira. Foi o que aconteceu a partir dos casos explícitos de racismo envolvendo os jogadores Tinga do Cruzeiro, Arouca do Santos e o juiz gaúcho Márcio Chagas da Silva. Negros, eles foram vítimas de torcedores preconceituosos. Desde então, o tema ganhou exposição digital, como nunca antes havia ocorrido nos últimos dois anos. E dessa vez, o ponto positivo foi a reação vigorosa do universo online contra os ataques. Não houve corrente dissonante, nem tentativas de acalmar os ânimos. Entre fevereiro de 2011 e fevereiro de 2014, as palavras-chave “racismo” e “racista” foram publicadas em 1.087.543 tweets no Brasil, média de 1.007 citações por dia. No episódio do atleta cruzeirense que disputava uma partida da Libertadores no Peru, o debate gerou 43.745 tweets no dia 13 desse mês, 43 vezes a média diária dos últimos três anos.

Após o jogo contra o Real Garcilaso e as ofensas da torcida peruana, os fãs brasileiros, jogadores, políticos e celebridades se reuniram em torno da hashtag #FechadoComOTinga. A expressão foi citada 52 mil mensagens, como o tweet da presidenta Dilma Rousseff com 2.697 RT’s (http://goo.gl/i0hygi). O presidente da Fifa, Joseph Blater, também fez coro com Dilma (http://goo.gl/Hfkm7q), mas o primeiro a identificar o racismo contra Tinga foi o perfil @ @ofalador125 com 348 seguidores. Enquanto assistia ao jogo do Cruzeiro, ele registrou o ataque ao atacante. “Por nada não mas tenho a impressão que esta rolando racismo por parte da torcida do REAL preste atenção quando o TInga pega na bola (sic)”, publicou o perfil às 23h30 do dia 12 de fevereiro.

O Twitter foi o espaço mais utilizado por quem demonstrou indignação contra os atos racistas no Peru e no Brasil. O nome de Tinga ficou durante quatro dias nos Treding Topics no Brasil e ganhou destaque no ranking mundial do Twitter.

No Google Brasil, o jogador foi o grande destaque nas consultas feitas pelos internautas brasileiros. Quem não o conhecia, quis saber o que havia ocorrido na partida no Peru. O estado que mais fez consultas no período após o ocorrido foi Minas Gerais seguido do Rio Grande do Sul e do Distrito Federal. As pesquisas sobre o tema racismo no Google também ficaram em evidência. Entre as consultas relacionadas foi possível constatar número elevado buscas associadas ao humorista Danilo Gentili (90.000 buscas), que em outubro de 2012 foi acusado por um tradutor de promover a intolerância racial em seu programa “Agora é Tarde” (http://goo.gl/zETCMX).

A música “Racismo é burrice”, de Gabriel O Pensador (http://goo.gl/axpQNA), também foi lembrada em 133 mil resultados do Google. O vídeo com o clip da música no Youtube, publicado em 2006,voltou a ganhar destaque nesse período e chegou a 1,4 milhão de visualizações.

No Facebook foram criadas 16 fan pages contra racismo depois do acontecimento – todas com alguma referência ao jogador – alcançando 78.951 fãs (http://goo.gl/I2XJbu). A maior delas reunia até a noite desta segunda-feira, dia 10, cerca de 7 mil fãs, que iniciaram um movimento de cobrança por uma punição severa contra o time peruano.

A associação civil SaferNet Brasil (http://goo.gl/oCTkb), que oferece um serviço de recebimento de denúncias anônimas de crimes e violações contra os Direitos Humanos na internet, recebeu 78.690 alertas de racismo na rede em 2013. O número de denúncias foi 60% maior em comparação ao ano anterior, que registrou 49.012 ocorrências, demonstrando o aumento de interesse.

Tinga e Dilma - Roberto Stuckert Filho: PR

Tinga ao lado da Presidenta Dilma no Palácio do Planalto (Foto: Roberto Stuckert Filho/ PR)

Linha do tempo

Recorrente na periferia e em movimento sociais, o debate sobre o preconceito racial costuma ser abordado pelos grandes meios de comunicação pontualmente, em especial durante o Dia da Consciência Negra, 20 de novembro. Contudo, em 2013 a discussão começou um pouco mais cedo, especificamente no dia 19 de outubro, quando se iniciou polêmica em torno do visual do personagem Jayminho, da novela Amor à Vida, transmitida pela Rede Globo.

De acordo com um suposto vazamento dos bastidores, Walcyr Carrasco teria pedido à produção do programa que a criança negra tivesse o cabelo black power cortado, devido a rejeição de parte do público. O autor se defendeu por meio do Twitter, somando 43 RT’s. “Só quero lembrar que eu escrevi Xica da Silva, primeira novela com protagonista negra no Brasil. Isso sim é lutar contra o preconceito”, afirmou Carrasco (http://goo.gl/O3fmbf).

Posteriormente, no dia 5 de dezembro, a mãe de um jovem de 8 anos, que também possuía estilo de cabelo semelhante ao do personagem, recebeu solicitação da professora do colégio do filho para que ele tivesse o cabelo cortado. “Fui na escola falar com a diretora . Ela me disse que o cabelo era extravagante e o regulamento da escola não permitira isso. Que não era conveniente. Que atrapalhava para ele enxergar e que as outras crianças não conseguiam ver a lousa. Mas o Lucas senta no fundo da classe”, contou Maria Izabel Neiva, 38, em entrevista concedida ao jornal O Globo.

Ainda em dezembro, dia 7, os “rolezinhos” chamaram a atenção da imprensa tradicional, que repercutiu evento organizado pelo Facebook, responsável por reunir 6 mil jovens no Shopping Metrô Itaquera. O assunto foi pauta, principalmente, durante o mês de janeiro, quando foram registrados 246.824 tweets relacionados aos encontros de jovens da periferia. Os desdobramentos do debate sobre a legitimidade dos rolezinhos resultou em uma nova discussão nas redes sociais sobre o preconceito racial, como elucidou mensagem do jornalista William De Lucca, da Folha de S. Paulo: “Dizer que não existe racismo e sociofobia neste lance do rolezinho é querer tapar o sol com a peneira. A diferença de tratamento é óbvio!” (http://goo.gl/ULYT98). As publicações sobre as reuniões dos jovens aumentaram entre 18 e 19 de janeiro, causadas pelo protesto ocorrido em frente ao shopping JK.

Em meio às tentativas de compreender os rolezinhos, janeiro também se destacou pela descoberta do comportamento de um dos integrantes da nova edição do Big Brother Brasil no Twitter. Antes de ser confirmado como participante do reality show, Cássio havia publicado no microblog mensagens racistas. “Saudade de quando ter escravos não era crime (…) Queria tudo nas mãos hoje de tão gordo que to hahahahaha”, afirmou em tom de brincadeira. No início de fevereiro, o Ministério Público denunciou outra declaração do jovem gaúcho, que teria feito novo comentário preconceituoso durante diálogo ao vivo no programa. Cássio relatou suposta relação íntima, na qual teria “atravessado” uma mulher negra, deduzindo que ela estaria acostumada com órgãos sexuais avantajados por ser afrodescendente.

O reality show seguiu expondo o preconceito de alguns participantes ao longo de fevereiro. O rapper Valter, conhecido como Slim Rimografia, que é o único negro desta edição do BBB, presenciou a participante Franciele declarar que se não usar desodorante, ela fica com cheiro de “neguinha”. A moça foi repreendida por Slim rapidamente: “Que isso? Isso é racismo. Está dizendo que negro tem cheiro ruim e branco não? Isso não existe. Soa como racismo”.

No período analisado, apesar da grande exposição que o BBB proporciona, os casos que provocaram maior debate acerca do racismo ocorreram nos dias 2 e 12 de fevereiro – quando divulgaram a hashtag em apoio a Tinga. Na última sexta do mês de janeiro, dia 31, aconteceu o episódio emblemático no Aterro do Flamengo, bairro da zonal sul do Rio de Janeiro, onde a artista plástica Yvonne Bezerra de Mello encontrou um jovem de 15 anos, negro, preso nu a um poste com uma tranca de bicicleta. Segundo o relato de Yvonne, o menino apanhou por “justiceiros” devido a um suposto assalto na região. O perfil da denunciante no Facebook, no qual ela publicou foto do acontecimento, recebeu diversas ameaças de defensores dos agressores, que legitimaram o espancamento. Após o depoimento em delegacia no Catete, Yvonne desabafou para a imprensa, repercutindo no portal G1: “Estou de saco cheio dessa sociedade”.

Em Brasília, mulheres se mobilizaram contra um ato de racismo ocorrido em um salão de beleza, onde a australiana Louise Stefany Garcia recusou os serviços de uma manicure negra por causa da cor da pele da funcionária. A dona do estabelecimento, Eliete Viana, chamou a polícia, que prendeu a estrangeira, posteriormente solta por meio de habeas corpus.

Outra notícia de repercussão foi a prisão do ator Vinícius Romão de Souza, acusado injustamente por roubo no bairro do Méier, zona norte carioca. Amigos e familiares de Souza mobilizaram campanha nas redes sociais, na qual alegaram racismo, culminando na liberação do ator após 16 dias encarcerado. A vítima do assalto pediu desculpas após afirmar ter reconhecido Souza como o ladrão, alegando que estava sem óculos quando a polícia lhe pediu para fazer o reconhecimento. “Dona Dalva, eu não guardo rancor da senhora. A lição que eu tirei é que a união faz a força. Agora é só paz”, respondeu o ator à mulher que provocou sua prisão.

Fechando a lista de relatos de racismo em fevereiro, sobressaiu a resposta de Glória Maria ao comentário preconceituoso de uma internauta, que ironizou foto de Instagram na qual a jornalista estava lado a lado das atrizes Isabelle Drummond, Mariana Ximenes, Tatá Werneck, entre outras. A usuária questionou ironicamente onde estava a ex-apresentadora do Fantástico, que respondeu prontamente: “Querida, eu também estou me procurando até agora na foto. É difícil mesmo encontrar uma neguinha no meio de tantas loiras lindas. Famosas. Celebridades. Pega uma lupa. Ilumina um pouquinho e quem sabe você consegue me ver???? Beijo”.

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