Quando o Itaú me proporcionou uma aula de ataque a bancos

Por Bruno Laforé

Foto: Valentino Saldívar

Foto: Valentino Saldívar

Na última semana, a Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp) trouxe à cidade uma programação que incluía 11 peças imperdíveis. O evento foi idealizado pelos diretores teatrais Guilherme Marques (CIT -ECUM) e Antonio Araujo (Teatro da Vertigem) e contou  com o incentivo, entre outras empresas, do Banco Itaú e parceria institucional do Itaú Cultural.

Na sexta-feira, dia 14, após três horas de espera na calçada da sede do Itaú Cultural, situado na Avenida Paulista, assisti ao espetáculo chileno “Escola”, do dramaturgo Guillermo Calderón. A peça conta com cinco atores que se revezam na função de alunos e professores em uma base de ensino paramilitar aos militantes chilenos, que pegaram em armas para defender seu país da ditadura de Pinochet.

Todas as pessoas em cena utilizam uma camiseta para encapuzar seus rostos durante a peça inteira. O adereço cênico procura trazer à tona o tema da clandestinidade, que foi tão necessária na época para que os militantes preservassem suas identidades, assim como a de seus familiares, e pudessem escapar de perseguições policiais, prisões e torturas. É inevitável lembrarmos da estratégia dos atuais Black Blocs durante a encenação.

A aula fornecida em “Escola” não se limita aos integrantes da companhia. O tema alcança o público de forma bem didática e o treinamento paramilitar acaba por se estender ao espectador. Todos os manifestantes que têm ido às ruas ultimamente e são vítimas da violência policial, se assistissem ao espetáculo, sairiam de lá  com estratégias de defesa mais bem definidas e táticas precisas de ataque às instituições capitalistas, como os próprios bancos, alvos dos black blocs.

Entre as lições aprendidas na escola representada pelo grupo teatral estão desde um conceito teórico básico sobre o capitalismo e a luta de classes até aprendizados práticos sobre como agir numa ação de assalto a banco,  como fabricar uma bomba caseira e ativar alguns outros tipos de explosivos (o grupo também cita onde é possível roubar materiais para bombas ou explosivos já prontos, além de armas de fogo). Saí da apresentação impressionado com a aula sobre organização em rede dos coletivos de militantes e a técnica para passar informações e objetos de um militante a outro sem deixar suspeitas ou ser perseguido.

É emocionante a maneira como a peça retrata a entrega dos cidadãos na luta, não só contra a ditadura vigente na época retratada, mas contra o modo de produção capitalista. Mas confesso que saí da sessão com muito pessimismo. O fato de um espetáculo como este ser apresentado nas dependências de um banco e contar com certo financiamento do próprio Itaú escancara a prepotência das instituições capitalistas, que desprezam o poder transformador de obras como “Escola”. O banco confia tanto em seu poder e na estabilidade do capitalismo que foi capaz de conceder abrigo ao inimigo.

Este episódio me fez lembrar de outra situação, a enfrentada pelos grupos de teatro de São Paulo que produzem arte contra hegemônica. Contrários à lógica de incentivo fiscal, que concede ao departamento de marketing das grandes empresas o poder de escolher quais produções culturais serão financiadas, eles lutam por um fomento público às artes. Uma primeira vitória já foi alcançada com a implantação da Lei Municipal de Fomento ao Teatro, em 2002, como resultado do Movimento Arte Contra a Barbárie. Num seminário organizado pela Kiwi Cia de Teatro, em 2012, presenciei um debate sobre arte e resistência e foi lá que entrei em contato pela primeira vez com essa dúvida, quando a atriz Fernanda Azevedo, integrante da Kiwi, comentou: “Nós não somos perigosos! Por isso, ganhamos verbas públicas para criticar esse mesmo governo”.

O fato é que a privatização da cultura, ou seja, a transformação desse bem simbólico, que é um direito de todos os cidadãos, em um produto de mercado e a apropriação das artes pela publicidade marginalizou todas as produções culturais com conteúdo político crítico ao sistema capitalista e à sociedade de consumo. O potencial transformador das artes, em especial do teatro, que fala diretamente com o público, foi pulverizado e hoje é menosprezado por aqueles que se vendem como grandes propulsores da cultura no país, exatamente o caso do Itaú.

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