Do Índio ao Negro: “20 Centavos” discute as Jornadas de Junho de 2013

por Victor Santos

Foto: Daniel Kfouri

Foto: Daniel Kfouri

Documentários internacionais e brasileiros ganham espaço na 19ª edição do Festival “É Tudo Verdade”, com exibições gratuitas de diversas obras, entre 3 e 13 de abril, no Rio de Janeiro e em quatro lugares da capital paulista: Centro Cultural Banco do Brasil, Cine Livraria Cultura, Espaço Itaú de Cinema e no Reserva Cultural. O média-metragem “20 Centavos” estreia durante a programação e traz à tona a discussão sobre as, chamadas, “Jornadas de Junho”, período de forte movimentação política que se iniciou com o aumento da tarifa do transporte público em diferentes cidades Brasil afora, em meados de junho de 2013. Segundo os realizadores, o filme conta com uma hora de duração e mais uma de discussão (na cabine de mídia durou 2 horas).

Em São Paulo as sessões acontecem na Sala 1 da Reserva Cultural (Avenida Paulista, 900), na terça, 8 de abril, às 20h, e na quarta, 9, às 18h. No Rio, as sessões acontecem no Oi Futuro Ipanema no domingo, 6, às 19h, e na quinta, 10, às 15h.

Os envolvidos se organizavam de forma horizontal, a produção do documentário foi capitaneada pela produtora Lente Viva Filmes que, segundo sua página no Facebook, tem como missão: “realizar filmes de relevância social, política e cultural”. Para “20 Centavos” foi criado um grupo nessa mesma rede social que aglutinou 55 pessoas, das quais 30 se envolveram no projeto e outra produtora foi criada, a Aparelho Filmes. Segundo o diretor do média-metragem, Tiago Tambelli, “Para esse processo a gente reuniu um grupo e não sabia que filme ia ser feito, não tinha uma pauta, decidimos que ia virar um documentário no meio das filmagens, decidimos fazer algo pensado”. Com a criação de redes de apoio em outras cidades, como Rio de Janeiro e Brasília, o filme tem cerca de oitenta horas de material bruto.

O documentário foi realizado em apenas seis meses. A ideia é fortalecer a discussão sobre o que foram as Jornadas de Junho, uma pauta complexa que ainda está presente em diferentes esferas da sociedade.

A trilha sonora é de respeito, conta com RZO, Sabotage, Metá Metá, Ademilde Fonseca, Macaco Bong, entre outros. “20 centavos” não tem narração, o fio condutor é a própria montagem, a construção se dá através de diversos depoimentos colhidos no calor das manifestações e de outras situações, que trazem desde os índios ocupando o congresso nacional antes das Jornadas, em abril de 2013, passando pela violência policial, a ascensão das forças conservadoras na Avenida Paulista, manifestações na periferia de São Paulo, em Brasília, entre outros momentos. Segundo Tiago, o filme dá espaço para diferentes vozes, e comenta: “o filme não pretende explicar o que foi. Nosso discurso está na montagem. O filme é de esquerda e tem a direita falando, ele se faz das contradições”.

Foto: Daniel Kfouri

Foto: Daniel Kfouri

O documentário começa com a ocupação dos índios no Congresso Nacional, Carlos Maga, roteirista, comenta, “A história do Brasil começa por quem? Os índios. Aí o Tiago já lembrou da ocupação do congresso em abril, que ninguém deu muita bola. Quem tem imagens? Um índio. Então liga pro índio! O próprio índio que filmou e super bem filmado”.

Carlos ainda aponta o crescimento de uma nova força política durante as manifestações, “Tem o MPL né, durante essa confusão de direita e esquerda nasce um negócio novo que luta pela utopia da passagem de ônibus de graça e não só é utópico, mas eles provam, no estudo que têm há anos, que é possível ter um transporte coletivo grátis. Eles são a chama dessa história”. Tiago continua: “O MPL está diretamente ligado a uma nova forma de representação da democracia, o Poder Popular”.

Entre as referências dos realizadores estão o brasileiro Glauber Rocha e o francês Jean-Luc Godard, mas não pensam duas vezes em afirmar que, por documentarem um acontecimento histórico, a maior influência vem do cubano Santiago Alvarez, que tem diversas produções desse tipo, o que não tem força no Brasil.

“Do ponto de vista do documentário brasileiro não existe a tradição de fazer filmes sobre acontecimentos históricos, durante os acontecimentos. Basta ver que não temos um filme sobre o “Fora Collor”, não existe uma tradição como nos EUA e na Europa de se fazer filme dos acontecimentos sociais. Tinha muita gente independente filmando, mas de forma organizada, só nós. Existem filmes que aparecem depois do processo, nós optamos por fazer um filme dentro do processo”, afirma Tiago.

Foto: Daniel Kfouri

Foto: Daniel Kfouri

Entre os momentos de maior tensão do filme, está o confronto entre a direita e a esquerda na Avenida Paulista. Não foi a primeira vez que forças de esquerda e de direita disputaram o espaço público em São Paulo, outros episódios como a Revoada dos Galinhas-Verdes, em 1934, em que houve o confronto entre a Frente Única Antifascista e a Ação Integralista, ou em 1968, a Batalha da Maria Antônia, um confronto entre estudantes da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo e da Universidade Presbiteriana Mackenzie. No entanto, “20 Centavos” traz pela primeira vez esse confronto aos cinemas.

Os créditos do média trazem imagens de jovens negros que passavam ao lado do confronto direita e esquerda e carregavam uma caixa de som ouvindo hip hop. Ainda segundo Tiago “Nós estávamos no meio da paulista, daquela briga, de repente olhamos pro lado e vimos alguns jovens, negros, andando na contramão, sentido Paraíso, ouvindo um rap! Totalmente inesperado”.

Os realizadores de “20 Centavos” já estão articulando exibições e debates em diferentes escolas, universidades e centros culturais. Aqueles que tiverem o interesse de levantar essa discussão política deve entrar em contato.

Confira o trailer abaixo:

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