O mundo e os Pampas

Por João Previattelli

Arte: Pedro Mirilli

Uma velha senhora vinda do interior do Rio Grande, cidade beata de uma religiosidade antiga, explicou como se protegia dos Deuses. Em sua cristandade monoteísta, brasileira em sua raiz, aceita deuses bons, maus, boêmios, celibatos, brancos, negros, índios…

– Aprendi com a minha mãe que quando começa a trovejar e cair raios, a gente tem que ficar longe da janela, não mexer em coisas de metal e apagar todas as luzes. Sabe, quando Deus esbraveja, é melhor se esconder.

Deus é o ator protagonista da Natureza. Pelos interiores dos estados, a religião embasa a ciência e protege o Mundo:

Na casa dessa velha senhora, como um templo sagrado, não se entra de calçado.

Na cozinha dessa velha senhora, como um corpo sagrado, não há sobras para serem jogadas fora.

Começa a chover lá fora e a velha senhora tapa o espelho com um lençol. Pronto. Agora Deus não vai ver a gente aqui dentro. Nem a gente.

Por enquanto, o mundo está protegido pela velha senhora do interior. Pior é saber que uma parte da cidade acha que isso tudo é loucura. A outra deve achar tudo isso hype.

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