Quando Falarão do Matheus?

Ilustração de Matheus Bagaiolo Raphaelli

Ilustração de Matheus Bagaiolo Raphaelli

Por João Monteiro

Acho às vezes que sou um jornalista sem utilidade, sem a habilidade, a sagacidade e a malandragem de um jornalista de grande mídia. Penso isso porque tenho o péssimo hábito de deixar a notícia de lado e pensar nos personagens, hábito que não vejo em muitos artigos que leio.

Leio uma notícia que me deixa deveras intrigado. Vejo certa manifestação em um certo lugar de São Paulo, são tantas ultimamente que já perdi as contas. Vejo uma foto de uma pessoa na capa, e automaticamente penso qual seria seu nome: Paulo, Pedro, Guilherme, Matheus. Esse tem cara de Matheus.

Digamos que Matheus estude em uma universidade de São Paulo, quem sabe na USP. Matheus, estudante da USP, tem que pegar o trem todo dia para ir à aula, porque Matheus mora em Osasco, ou Carapicuíba, ou Itapevi. Matheus sai todo dia a caminho de um vagão lotado e mal estruturado, mas não sem antes dar um beijo em Dona Ana e Seu José, seus pais.

Alguma coisa na minha cabeça diz que Matheus faz Letras, ou Filosofia, ou até mesmo Jornalismo, e tem um ávido interesse em política. Lê Adam Smith, mas não concorda com A Riqueza das Nações. Pega um livro de Marx, todos falam muito bem de Marx! Para ele, ainda falta algo. Certo professor lhe indica um livro de Bakunin, e o rapaz sente na pele as palavras que o anarquista russo coloca em sua cópia de Sangue, Suor e Barricadas. Quanto mais lê, mais fica indignado com a sua situação atual e a das pessoas que o rodeia.

Mas Matheus não se interessa somente por política. Se interessa também por filmes do Kubrick, do Hitchcock e do Tarantino. Matheus ama música, ouve Stairway To Heaven do Led Zeppelin e La Vie En Rose, de Piaf. Matheus ama futebol, e é fanático pelo seu time de coração, o Corinthians. Assiste aos jogos com seu pai José, vibra a cada gol feito e balança a cabeça em desaprovação a cada gol tomado.

Matheus acompanha ao jornal, estão falando sobre manifestações semelhantes às que leio agora. Vê um certo grupo realizar uma certa tática de manifestação não muito tradicional, mas com muita agressividade e indignação que pareiam com a indignação que ele sente todo dia ao ir de transporte público para sua universidade, que ele sente quando vê negros e homossexuais sendo espancados até a morte todo dia no jornal. Decide então se juntar a esse grupo na próxima manifestação.

Matheus não acredita no capitalismo que vive, e em protesto simbólico quebra bancos, instituições privadas. Entra em confronto com a polícia. Vai preso.

Isso tudo passa em minha cabeça em um milésimo de segundo, e sinto um profundo pesar ao olhar a foto de novo, daquele rosto, coberto por um pano preto que lhe deixa visível apenas os olhos.

Matheus a partir daquele momento não é mais estudante de Letras, ou Jornalismo. Muito menos estudante da USP. Matheus não mora mais em Carapicuíba, nem em Itapevi. Matheus não é mais filho da Dona Ana, nem do Seu José. Matheus não é cinéfilo, nem amante de música. Matheus não é mais Corintiano. Matheus não é nem mais Matheus.

É black bloc.

Pensando bem, talvez não queira ser mais um jornalista. Quero continuar pensando no Matheus.

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