Piscina no Minhocão reflete necessidade de ocupação da cidade

Por Theo Chacon

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No último domingo (23), uma piscina olímpica foi instalada no Minhocão, o que rendeu à população uma tarde de lazer. A iniciativa da arquiteta Luana Geiger faz parte da 10ª Bienal de Arquitetura Urbana de SP, que tem como tema os “modos de fazer e usar da cidade”. Os paulistanos, sobretudo aqueles que pertencem às gerações mais novas, parecem buscar alternativas para aproveitar melhor os espaços abertos da metrópole.

Cada vez mais, como se encorajados pela onda de manifestações que emergiu no país no ano passado, pessoas tomam as ruas na intenção de lutar pelo exercício dos seus direitos. Uma das formas de ser percebido e considerado como voz ativa, capaz de intervir nos rumos sociais, é a iniciativa de parte dos cidadãos em aproveitar os espaços abertos da cidade de São Paulo ou até mesmo espaços fechados ociosos.

Movimentos independentes do centro da cidade representam a tendência, como o Festival do Baixo Centro, a ocupação do Parque Augusta, do Buraco da Minhoca e, no último domingo, a “inundação” do Elevado Costa e Silva, mais conhecido como Minhocão. Na fria tarde de domingo, o projeto transformou uma das vias mais importantes de São Paulo em uma enorme piscina. Apesar do vento gelado e da garoa, a iniciativa chamou a atenção de alguns curiosos que se dispuseram a desbravar o frio e entrar na água.

Levando em conta a suspensão do fluxo na via das 10h às 22h, a arquiteta instalou uma estrutura capaz de sustentar a piscina de 50m que foi preenchida com 105 mil litros de água filtrada. A própria mentora do evento garantiu que a água utilizada partiu de um poço artesiano abastecido pelo lençol freático e não tem nada a ver com o sistema fluvial da Cantareira, que trabalha a níveis caóticos.

Para conceder ao ambiente um clima mais agradável, o conjunto de nove DJ’s, que se apresentou ao longo da programação, baseou-se 100% nos discos de vinis para apresentar ao público um repertório variado. Mais do que uma proposta de lazer, a estrutura montada foi, por essência, uma intervenção artística com a intenção de inverter a situação dos fluxos fluviais na capital. “As águas da cidade de São Paulo, normalmente canalizadas nos fundos de vale, são poeticamente elevadas sobre uma obra emblemática do rodoviarismo”, informava a página do evento no Facebook.

Outro movimento é o Parque Augusta, reivindicação de coletivos e grupos de moradores do centro. Fechado desde dezembro à população, o terreno arborizado de mais de 24 mil metros quadrados tem retratado, na escritura, datada de 1986, o direito ao livre acesso por parte do público. O prefeito Fernando Haddad sancionou, em dezembro passado, um projeto que prevê a construção de um parque no local, com aparelhagem para exercícios físicos e circuito de corrida. Para tanto, é necessária a desapropriação do terreno, que, atualmente, pertence à iniciativa privada.

Além disso, ao contrário dos acomodados, os incomodados resolveram, como forma de demarcar seus direitos, realizar, no mês passado, a primeira festa no Buraco da Minhoca. Cerca de 300 pessoas ocuparam, com autorização da prefeitura, o espaço que abrange a entrada do túnel entre o Minhocão e a Rua Augusta, debaixo da Praça Roosevelt. Como uma das atrações do evento, houve a apresentação de um grupo circense, fato que batizou essa primeiro edição de “Circolando no Buraco”.

No dia primeiro deste mês, a tentativa por parte dos envolvidos de organizar a segunda edição da festa em espaço aberto não obteve êxito. Apesar da autorização da Prefeitura, a Secretária de Segurança Pública não concedeu o seu aval, o que resultou na suspensão da programação. Marcelo Isidoro, conhecedor da noite paulistana, DJ e mentor da festa, afirmou a um blog que o túnel é propício para o evento. Protegido do frio e da chuva pela cobertura de concreto, portador de uma iluminação potente – que funciona, sobretudo, para incomodar os moradores de rua que ali tentam descansar – e de uma boa acústica, o local abrigou sem maiores dificuldades os foliões que resolveram ir às ruas.

Além da apropriação de espaços públicos conhecidos por coletivos do centro, há iniciativas, também autônomas, que buscam apropriar-se de espaços e promover lazer àqueles que estão deslocados do centro – socioeconômico, político e espacial – da metrópole. Nas periferias, os saraus e as manifestações por moradia, transporte e contra a repressão policial, por exemplo, apesar de serem marginalizados e discriminados pela maior parte da mídia, são ações que promovem a ocupação e a utilização do espaço público.

Mas, com o passar do tempo e a falta de incentivo fiscal para as comunidades desenvolverem programas sociais, as gerações suburbanas mais novas começaram a querer expandir seus horizontes e ultrapassar os limites da comunidade para buscar novas experiências em meio à cidade. Daí surgem os contestados “rolezinhos”, que são um fenômeno social decorrente da falta de espaços públicos para uso coletivo em regiões periféricas da cidade.

Inflamadas pela lógica classista da sociedade, iniciaram-se as sanções e repressões repletas de preconceitos. Populações de baixa renda não podem se encontrar, em grande número, nos shoppings e parques da cidade, afinal, os agentes do estado temem pela desordem pública…

O historiador José Murilo de Carvalho, em um texto chamado “Os três povos da república”, nomeia de Povo da Rua aqueles que se manifestavam à margem dos mecanismos formais de participação e suas ações denunciavam as fissuras e limitações do sistema de governo. Como resposta, eram repreendidos com chumbo pelas forças armadas, que controlavam a situação com extrema violência.

Transferindo essa visão para os tempos atuais, o povo da rua é esse que agora, tenta se apropriar dos espaços abertos para usufruto coletivo, o que não ultrapassa o direito de ir e vir – e ficar, por que não? – do cidadão, independente de sua condição socioeconômica. Além disso, a partir da ocupação, há a possibilidade dos participantes projetarem suas causas e, quem sabe, serem ouvidos.

Que sejamos o povo da rua de forma literal. Que usemos um espaço que é público como extensão de nosso quintal – que é cada vez menor -, já que em razão da violenta especulação imobiliária e da crescente verticalização da cidade, achar uma moradia para alugar ou comprar com quintal seja tarefa cada vez mais difícil.

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