Mayara: mulher de vida

Aos 32 anos, a profissional do sexo e modelo transgênero conta sua trajetória

Foto de Júlia Dolce

(Foto: Júlia Dolce)

Por Carolina Piai, Júlia Dolce, Marcela Reis

Em uma quitinete localizada entre os bairros da Consolação e de Higienópolis, dividem espaço: uma bicicleta profissional, patins decorados com strass, um violão, um stéreo coberto por salto-altos, massageadores, hidratantes e fotografias eróticas. É o apartamento de Mayara Maemura, acompanhante de luxo e modelo, que contou para o Contraponto sua vida, ao nos receber com seus 1.80m de altura coberto por tatuagens coloridas, em um ambiente íntimo – com música de fundo tocada pelo rádio, que nos acompanhou durante toda a entrevista  – e histórias, no mínimo, interessantes.

Encontrar uma profissional do sexo que ceda entrevista à um jornal já é uma tarefa difícil. Através do Centro de Referência da Diversidade (CRD), um pequeno espaço a poucos quarteirões da casa de Mayara, conseguimos seu contato após sermos informadas que a matéria dificilmente sairia, devido ao grande número de prostitutas que desapareceram ou foram ameaçadas depois de cederem entrevistas à veículos de comunicação. Encontrar uma profissional de sexo, que seja transgênero, e aceite conversar com jornalistas é ainda mais difícil. Apesar disso, Mayara não se sentiu incomodada em compartilhar histórias de violência, morte e suas próprias experiências sexuais.

Mayara não precisa mais do auxílio do CRD, frequenta o Centro para ajudar a aumentar o número de usuários, participando de algumas atividades, doando roupas, além de emprestar seu violão para aulas. “Eu sei que eu não preciso, mas tem muitas pessoas aí na rua que sim. Tem gente na mesma condição que eu que não tá nem aí”. Isso porque, hoje, ela se considera acompanhante de luxo, tendo uma qualidade de vida melhor do que a maior parte das profissionais do sexo, não apenas financeiramente mas em relação à sua própria segurança: seleciona os clientes, não atende qualquer um depois da meia noite e trabalha poucas horas ao dia.

Assim, a vida de Mayara não se limita à sua profissão.  Suas horas são dedicadas a diferentes hobbies: pratica ciclismo, é patinadora, gosta de cozinhar e de fotografar. Pretende inclusive ganhar dinheiro com a fotografia, de modo que não precise mais se prostituir. “Não fiz aula, mas descobri o talento recentemente, quero fazer um curso e pegar um diploma bom, pra poder falar que sou fotógrafa”. Quanto a voltar a estudar, Mayara diz ter perdido a vontade, devido ao preconceito que sofria enquanto frequentava a escola “Não quero mais porque a sociedade não ajuda, não tem como, só se a gente for bem preparada psicologicamente”. Essa relação com a discriminação vem desde a infância.

Infância

“Eu sofri muito na escola, porque eu não sabia o que eu era, não sabia o que era isso – se era doença, se era tratável.”

Ainda bebê, Mayara era o xodó das tias. Brigavam para pegá-la no colo, ou até, quando já estava um pouco mais velha, para ver quem brincaria de casinha com a criança. “Eu era a boneca da família. Eu não sabia o que era homem, o que era mulher”, comenta Mayara.

Foi criada sem o pai, e só descobriu sua identidade recentemente. Isso aconteceu porque a mãe engravidou sem estarem casados. Naquela época, Mayara explica: “As famílias mudavam de cidade para uma não saber da outra, já que teve filho fora do casamento”. Portanto, apesar de ter nascido em Regente Feijó, pequena cidade próxima à Presidente Prudente, mudou-se, com poucos meses de idade, para Presidente Venceslau, onde passou a infância. “Minha mãe sempre me quis só pra ela, não quis dividir com a família do meu pai. Eu sofri, porque não tinha um pai”, diz. No entanto, nesse contexto, não foi apenas essa ausência que a abalou. “Em cidade pequena você precisa dos dois nomes da família pra poder construir um nome, é assim que a sociedade funciona”. Logo, a falta do nome do pai era expressiva. De sua presença, também.

Ainda pequena começou a usar as roupas das tias escondido, enquanto trabalhavam. “Na escola eu tive sérios problemas, as pessoas queriam que eu fosse menino, mas eu tinha comportamento de menina”, afirma a modelo. Motivo de piada, só era amiga de garotas. Para ir ao banheiro, segurava até não ter ninguém no masculino. As piadas, com o tempo, tornaram-se surras, pedradas. Da primeira vez que apanhou, não se esquece: “O filho do prefeito e os amigos dele perceberam minha transexualidade e se incomodaram, foi por isso que levei a primeira coça na saída da escola. E eles se gabavam por terem pais importantes, eu nem sabia quem era o meu”.

Conforme Mayara descobria sua sexualidade, era mais e mais excluída. Certa vez, o inspetor de sua escola a chamou para conversar, queria entender porque andava tão amuada e não realizava os exercícios propostos. A menina respondeu: “Como eu vou conseguir fazer alguma atividade com todo mundo na minha cabeça me discriminando e com os meninos jogando pedra? Me sinto como se fosse uma Jesus Crista, lá, crucificada”. A avó, preocupada com os conflitos da escola e com a falta de colegas meninos, levou-a à psicóloga. “Ela achava que o problema era eu. Mas não, o problema nunca fui eu. O problema eram as pessoas que se incomodavam comigo”, recorda. Mesmo assim, lembra-se também de sentir culpa por ser como era, na época não sabia sequer se haviam pessoas como ela. Além disso, diz ter sido assustador: “Era um filme de terror e eu sonhava com um conto de fadas, em que eu seria aceita pelas pessoas”. Passou então a se aproximar de pessoas que a entendiam.

“Eu comecei a me revelar para o público, o que acabou me revelando para mim”, explica Mayara. Esse processo aconteceu conforme conversava com essas pessoas que a compreendiam. Um enfermeiro particular que morava em uma vila próxima foi fundamental em sua vida, pois foi quem a ajudou na hormonização. Mentindo para a mãe, passou a comprar hormônios com prescrição desse amigo – dizia que os medicamentos eram antialérgicos. Naquele tempo, tinha 11 anos. “Meu peito começou a crescer, igual o de menina. Minha preocupação maior na época era essa. Quem tem peito participa”, conta.

Ao descobrir o processo de hormonização, já que os seios da menina começaram a crescer, sua mãe a rejeitara. Isso mudou, mas apenas com o passar do tempo. Um grande problema em casa eram dois tios: “Um que era muito machista, daqueles homens que não engole mesmo, e outro que é gay, não assumia e tinha recalque de mim que era assumida e mostrava para todo mundo”.

A hormonização, por si só, já era uma dificuldade tremenda. Os remédios causam efeitos colaterais, como náusea, enjoo e problemas na pele (furúnculos, por exemplo). Mayara ficara também com a pele mais sensível. “Só de me tocar, já me doía. O hormônio me doía tanto”, comenta. Acrescenta ainda: “Era muito distúrbio. Você tinha que estar preparada psicologicamente. Essa época não favorecia, então eu sofri. Eu sofri. Achava que eu ia morrer, que aquilo estava me matando”.

Assim, com 12 anos, depois de muito sofrimento, a garota já estava com seios formados. Quanto à mudança de sexo, explica: “Quando a gente é novinha, acha que vai atrapalhar. Não, é completamente o contrário, porque quando a gente se aceita como é, operada ou não, as outras pessoas te aceitam também”.

A partir daí sua vida profissional teve início, ela seria modelo. “O Kiko, um amigo, chegou e falou: ‘Ma, vai ter um evento na cidade e eu quero que você participe, vai ser o seu primeiro desfile’”. Para isso, pediram patrocínio para uma conhecida de Kiko, Solange M. No entanto, segundo Mayara, ela era casada com seu pai e não queria que a filha o conhecesse. Alegou, então, haver sido sequestrada por Mayara. “Ela me incriminou para a minha família, me marginalizou inventando esse sequestro, que foi arquivado. Ela não tinha nenhuma prova”, explica.

Com isso, a cidadezinha em que morava foi se tornando insuportável para a jovem garota. Apesar do arquivamento do processo, policiais, seguindo ordens de Solange, enquadravam-na injustamente. Mayara lamenta: “Batiam em mim, eu era obrigada a ir para a delegacia assinar por desacato. Como ia provar que era inocente? Com 12 anos? Sozinha?”

Foto de Júlia Dolce

(Foto: Júlia Dolce)

Casa da Soraya

“É assim: quando a cafetina é boa, a gente chama de mãe, quando a cafetina é uó a gente chama pelo nome mesmo”.

Após as frustrações na carreira de modelo, Mayara deu início a vida da prostituição na pequena cidade de Presidente Venceslau, no interior do estado de São Paulo. Exatamente porque lá havia sido criada, conhecendo pessoalmente o povo, foi se tornando popular profissionalmente entre o público das rádios, brincadeiras e festas, até que se viu obrigada a mudar de cidade.

Mayara fugiu de casa aos 12 anos, devido ao preconceito que sofria por parte da população em geral e da própria família, em relação a transexualidade e as acusações de sequestro. Apanhou da polícia, foi barrada e presa diversas vezes, mas sua maior decepção foi não ter sido aceita pela mãe a princípio, “porque o resto a gente se vira, amigo você arruma, com o tempo vai mostrando quem você é. Eu sofria preconceito até quando queria visitar meus primos, e meus tios não deixavam porque não queriam gay e travesti na casa deles”. Ela se mudou para Presidente Prudente, a apenas uma hora de sua casa, mas a uma distância gigantesca da vida que levava até então.

O município possui hoje uma população cinco vezes maior do que a de Presidente Venceslau, o suficiente para desconstruir famas e mergulhar uma pessoa estigmatizada no anonimato. Foi o que aconteceu com Mayara, que começou a trabalhar no bordel de Soraya, onde foi batizada com o nome pelo qual é chamada até hoje – pois naquela época as cafetinas escolhiam os novos nomes das acompanhantes − formando aos poucos sua identidade. “Soraya me orientava em tudo, foi minha primeira mãe e primeira cafetina, eu considero como uma madrinha que ajudou a gente, ensinou a me defender dos perigos”.

Presidente Prudente servia de passagem para as profissionais do sexo que vinham de fora para morar em São Paulo, pois a capital é considerada o local de encontro de acompanhantes do Brasil inteiro. Assim, Mayara conheceu meninas de diversos estados enquanto morava no interior, como a paraense Indiara, que se tornou uma de suas melhores amigas. A índia de Belém era conhecida como uma das transexuais mais bonitas do país, antes de contrair HIV e falecer. Segundo Mayara, Indiara não se cuidava, negava tratamento médico por teimosia, mesmo nas recaídas. Na década de 90, os casos fatais de AIDS explodiram descontroladamente, e criaram em Mayara uma fobia pela doença.

Uma noite em que houve briga entre prostitutas na casa da cafetina, Indiara foi esfaqueada e seu sangue jorrou pelo quarto que dividia com Mayara. “Procurei ficar bem longe por que sabia que ela tinha HIV, e tinha medo do sangue contaminado. Mesmo depois que o chão foi limpo e desinfetado, eu passava pulando pelo local, de tanto medo. Isso mexeu muito comigo, Indiara foi uma amigona”.

As mortes por HIV hoje se equilibram com o número de assassinatos de profissionais do sexo, frequentemente cometidos pelos próprios clientes. Dessa forma Mayara perdeu outra amiga, Francesca, que aos 19 anos foi morta por um homem enquanto o atendia. “Ela deve ter se recusado a fazer alguma coisa, porque a gente conhecia ela, não aprontava. Enquanto não fizerem nada, vai continuar, porque vai ser só mais uma travesti a menos pra sociedade, ‘menos um viado pra dar trabalho’  ”. Incomodada com as histórias fatais, Mayara pede para mudar de assunto. Hoje, ela pode contar nos dedos as amizades na profissão.

 

Indianópolis

Após muita insistência das meninas que passavam pela casa da Soraya – garantindo que o potencial financeiro de se trabalhar em São Paulo era grande − Mayara resolveu se mudar, superando o temor que tinha pela cidade. O fato de ter morado com a conhecida cafetina de Presidente Prudente a salvou de várias situações de risco que correu quando chegou à capital, mas não foi suficiente para poupá-la de ameaças. Começou trabalhando na Avenida Indianópolis, ponto disputado pelas prostitutas paulistanas (principalmente por ‘bonecas’, apelido dado às travestis e transexuais), onde a competição acirrada frequentemente resultava em violência.

Segundo Mayara, quando a cafetina é mais fraca e não se propõe a ajudar, suas meninas sofrem mais. Aconteceu com ela, que veio morar na casa de Leila Piaba, na Praça João Mendes. Arranjava brigas nos pontos com frequência, “com essas traveconas que não tem nada a perder, já que eu convivia no meio delas”. A situação mais marcante foi o desentendimento com a travesti Jurema, personagem que se tornou famosa na noite de São Paulo. “Eu tava em Indianópolis, toda loira, novinha, mestiça e bem produzida no salto alto, quando essa Jurema veio descendo a rua de longe encrencando comigo, gritando ‘quem é você viado?’. Já sabia que iam levar minhas sandálias e bolsa embora, além de cortar meu cabelo. Eu era uma ameaça pra elas. Não to generalizando, mas sempre tem as bonecas barraqueiras”. Segundo Mayara, as travestis se diferenciam das transexuais, porque insistem em mostrar um comportamento masculino, enquanto as trans procuram parecer o mais “normal” possível.

Juízos à parte, Mayara afirma que realmente passava mais despercebida pelos policiais que rondavam a Avenida. “Eles gritavam ‘a gente vai bater e levar todas presas, vão subindo’, mas eu saía da linha das putas, fazia a garota e isso mexia com eles, então só me mandavam embora.” A vida de uma profissional do sexo é bem mais arriscada na rua, “Tá na rotina. Já fui agredida, roubada, quase me mataram. Tô viva por sorte”.

Hoje em dia, Mayara acredita que sua vida está muito melhor. Como acompanhante de luxo e modelo, trabalhando apenas para os proprietários dos sites onde suas fotos são divulgadas, a violência a qual é sujeita é consideravelmente menor. “O único risco agora é o de uma esposa preocupada com o marido pegar meu cartãozinho no bolso dele e me ligar. Já aconteceu várias vezes, eu me faço de desentendida para não atrapalhar o cara”.

 

Vida de Acompanhante

Foto de Júlia Dolce

(Foto: Júlia Dolce)

“Sou a Mayara Maemura durante o dia e a noite eu sou a Mayara profissional do sexo. Isso funciona melhor”.

A vida de prostituta e de acompanhante de luxo é diferente. Para Mayara, que além de acompanhante é modelo, os riscos que corre são menores, não há tanto preconceito e o perfil dos clientes não é o mesmo, os seus são “mais sofisticados e educados”. Além disso, ela consegue ter sua vida pessoal separada da profissão, algo que seu trabalho como acompanhante permite.

Ao fazer seu primeiro ensaio fotográfico sensual, recebeu a proposta para participar de um filme pornográfico, porém, não aceitou, pois reconhece que a sociedade não vê com os mesmos olhos uma cena de sexo na novela ou nu artístico e a pornografia, que ainda é muito discriminada. Mayara sempre temeu “sujar” seu nome, “e se precisasse mudá-lo ou trocar de profissão no futuro?” Assim, decidiu não se envolver. Ela também foi convidada pela diretora Cláudia Priscila para protagonizar um nú artístico no filme “Desbunde”, dirigido por Hilton Lacerda, conhecido pelo filme “Tatuagem”, que estreou recentemente. Mayara fez uma entrevista com Kiko Goifman para o SESC TV sobre sexualidade, ele se interessou pelo trabalho dela e conversou com Cláudia, sua mulher.

Cerca de três a seis meses antes de um ensaio, o trabalho já começa, pois Mayara não tem patrocinador, é autônoma. Gastou seis mil reais em seu último ensaio fotográfico, com beleza, produção e equipamentos, como a câmera profissional que teve que comprar. Ela tem que investir muito para conseguir o retorno que cobrirá suas despesas.

Normalmente as trangêneros são lembradas como prostitutas, como se todas desejassem se prostituir e como se elas só soubessem trabalhar com sexo. É claro que há diversos casos em que a prostituição é uma escolha, mas na maioria das vezes é o único caminho que elas têm a seguir, pois não têm oportunidades de trabalho. “Eu quero investir mais num público artístico, porque eu não vou fica velha me prostituindo, não vou. É claro que certas coisas não dá pra gente concluir na vida, mas se a gente pensar em uma coisa que pode ser boa pra você, porque não não tentar, justo? Eu gosto muito de gastronomia, sei fazer comida japonesa, italiana, brasileira, do modo mais simples e fica aquela coisa maravilhosa. Meu público mesmo fala: ‘Abre um bistrozinho, vai dar certo!’”.

Mayara morou sete anos na Europa, onde era tratada como mulher, era respeitada e tinha direitos. Ela foi para a Itália em 2000, pois sofria muito preconceito aqui no Brasil, inclusive de seu pai e da família. Queria mostrar que não desejava dar trabalho para ninguém, só queria ser respeitada e amada como é, sendo mulher. Além disso, algumas amigas chamavam-na  para viajar, e ela acabou seguindo o conselho. “Lá tem menos risco, eles aprontam menos, tem menos morte, claro que pode acontecer, mas a gente vai mais pela onda das amigas, a gente vai e se sente mais segura”. Em 2006, voltou para resolver problemas envolvendo a paternidade e seu sobrenome e chegou até a recusar convites de agências de modelos. Está bem hoje no Brasil, e segundo ela, só retornaria à Itália para visitar, não deseja voltar a ser prostituta por lá, mesmo sendo um lugar mais seguro e menos violento.

Casada não judicialmente há seis anos, Mayara se considera esposa por estar junto do marido há muito tempo, o que, para ela, conta mais do que muitos casamentos efetivados, que às vezes não passam de relações impostas por um papel. Sua relação é secreta, pois ela não quer prejudicar o marido em seu trabalho e não quer ser atrapalhada na sua profissão. Os dois não moram juntos e preferem que assim seja. No começo não era fácil, ele tinha ciúmes por ela ser acompanhante de luxo e ter clientes bonitos e novos. Mas aceitou e se acostumou com seu trabalho, pois Mayara é fiel a seu marido e não confunde sua vida pessoal com a profissional. “Ter uma relação séria? É você dedicar todo aquele sonho de uma verdadeira mulher naquele homem, você depositar tudo nele, e ter seus clientes só como profissional mesmo. Não confundir”.

Trabalhar como acompanhante de luxo é rentável, Mayara cobra R$ 250,00 por uma hora e meia, mas tem clientes que ficam por muitas horas e às vezes ela ganha até R$ 5.000,00 por serviço. Já chegou a receber R$ 15.000,00 de um senador para passar a noite. Ela atende mais homens, entre eles japoneses, turcos, árabes, egípcios, italianos, americanos e brasileiros, esses três últimos são os mais frequentes. O beijo na boca é considerado muito íntimo e é algo que não está estipulado no trabalho de Mayara, por mais que alguns clientes peçam. Isso ilustra bem como a profissional do sexo tem sim controle sobre o seu próprio corpo e não está fadada a fazer o que não quer. “Eu já deixo bem claro: “olha amor, eu tenho namorado, eu beijo o meu namorado”. Mas eu beijo cliente sim, não vou mentir, mas eu seleciono muito bem”.

Ela já foi procurada por artistas, roqueiros internacionais, jogadores de futebol e afirma: “tenho muita sorte com senadores”. Mas guarda segredo e não revela quem são para não perder clientes. Já chegou a atender dez no mesmo dia, mas geralmente não passa de dois ou três. Ela prefere ter clientes fixos e de confiança a aceitar o maior número possível. Não tem uma clientela específica por ser transgênero e sente que ganha de acordo com sua beleza e trabalho. Mayara trabalha em sua própria casa e procura tratar os clientes da melhor maneira possível. “Como vocês podem ver eu sou um pouco bagunceira com acessórios, mas sou muito limpa com as minhas coisas, o tratamento é ótimo, meus clientes percebem isso. Tem amigas minhas que são relaxadas, às vezes não tem toalhas pro cliente se enxugar. Eu conto com isso, meu atendimento é vip, desde a toalha até a massagem”.

Mesmo sendo acompanhante e selecionando os clientes, Mayara não está imune a correr riscos. Há alguns meses atendeu um checo, que desconhecia sua transexualidade e a agrediu fisicamente devido à surpresa, deixando-a muito machucada por cerca de um mês, o que prejudicou seu trabalho. Mesmo em sua vida pessoal sofre com a violência: foi ao dentista fazer um canal e ele colocou cacos de resíduos velhos e até um parafuso no seu dente. Marcelo, o dentista que agora está sendo processado, disse que devolveria os R$ 800,00 que Mayara gastou com o tratamento apenas quando a polícia foi acionada por ela para resolver o caso. Mas passado algum tempo, ele disse que devolveria só metade do valor, pois o dinheiro dela era sujo. “Da onde meu dinheiro é sujo se eu trabalho e pago as minhas contas? Se fosse com alguém da sociedade o cara já tava na cadeia, mas como é com uma trans não.” Se a prostituição fosse uma profissão regularizada, Mayara não teria se prejudicado no mês que não pôde trabalhar devido à agressão sofrida, pois teria direitos trabalhistas. Ela paga R$ 400,00 por mês para o “Vitrine”, site do “Malícia”, onde seu perfil é exibido, além de gastar com os ensaios. E quando não pode trabalhar não recebe nada e continua tendo que pagar o valor ao site, pois não tem carteira de trabalho.

Mayara sofreu com o preconceito inúmeras vezes, já foi assediada e humilhada ao passar na porta da faculdade Mackenzie em São Paulo, mas muitos alunos já ligaram para ela querendo marcar horário. “Agora se fosse uma travesti e mexesse na porta com algum aluno, não ia chegar polícia e levar presa?”.

Antes de conseguir mudar seu nome original pelo feminino, ela sofria com a constante atribuição ao sexo masculino. No Hospital Santa Cruz isso já ocorreu inúmeras vezes, sendo chamada de propósito por seu antigo nome masculino. “Desde o passado a gente já tinha essa de colocar entre aspas o nome que deseja ser chamado, porque no momento que você paga imposto e sofre preconceito com seu nome, é a mesma coisa que uma pessoa da sociedade que se constrange com o nome. Ela não tem direito de mudar? Tem. Se não vai ficar passando constrangimento pelo resto da vida. Esse povo deveria ter mais cuidado, chegar mais preparado para lidar com a gente, só é fácil pra quem não passa por isso, ouve e deixa pra lá”.

Atualmente, é necessária intervenção do judiciário para que os travestis, transexuais e transgêneros possam alterar seus documentos. O Projeto de Lei ‘’João W Nery’’ (em homenagem ao primeiro transhomem brasilero), de autoria do deputado Jean Wyllys, está em trâmite e, se for aprovado, permitirá que a mudança de documentos seja efetivada em qualquer cartório. Além disso, são exigidos laudos psicológicos para alteração de sexo e de nome, o que submete a pessoa à um longo processo de análise, para que um médico a considere ou não transexual. O PL também visa derrubar essa exigência, promovendo a despatologização da identidade de gênero.

Felizmente, mesmo antes da aprovação do PL, Mayara conseguiu trocar seus documentos. Há pouco tempo fez a alteração do nome em segredo de justiça com Douglas, advogado que trabalhava no CRD, e passou a ser, de fato, legalmente considerada uma mulher em uma sociedade heteronormativa e preconceituosa.

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