Bom Senso nas mãos erradas

por Enrico Stievano e José Renato Siqueira

 

foto de capa - poster bom senso

Cartaz de divulgação de evento do Bom Senso FC (Foto: Reprodução)

A presença de Rogério Ceni não estava prevista no seminário do Bom Senso FC, ocorrido no dia 17 de março, no auditório da Universidade Nove de Julho (Uninove), em que foram apresentadas à imprensa duas propostas: um novo calendário para o futebol brasileiro e o “fair play” financeiro – cujo objetivo seria assegurar que os clubes não entrem em colapso econômico (entenda as sugestões no site do Bom Senso F.C.. No entanto, o ídolo são-paulino apareceu de última hora, foi incluído na segunda bancada de debates, pegou o microfone para si e acabou sendo manchete dos principais portais esportivos do país.

Entre uma fala dramática associada ao mensalão e outra sobre a greve dos garis no Rio de Janeiro, o jogador se destacou, no mau sentido, com declarações impactantes e muitas vezes contraditórias em relação ao rumo tomado pelo movimento ao qual representava. A atitude acuou os demais participantes e mostrou que Rogério não se limita a buscar liderança e domínio na equipe do São Paulo.

“A minha expectativa é poder contar com a ajuda de vocês (imprensa). Nós sozinhos não podemos mudar nada. O único jeito de mudar é através de vocês”, afirmando para um repórter que questionou se haveria paralisação. Em outro momento, o atleta foi mais enfático ao jogar a responsabilidade para os meios de comunicação: “Nós temos de movimentar a opinião pública e colocar todos os meios a nosso serviço para conseguir mudar esse modelo que é ruim para o futebol brasileiro”. Em suma, Ceni proferiu frases que minimizavam o poder dos atletas organizados e, dessa forma, invalidou a própria presença dele e dos demais atletas convidados no evento, bajulando jornalistas e dirigentes.

Jogadores não têm o poder da canetada, mas unidos eles podem pressionar aqueles que o possuem. E foi exatamente com essa ideia que o Bom Senso FC surgiu no ano passado.  Apesar de a discussão sobre o calendário ser antiga na maioria dos veículos de imprensa esportiva, os atletas nunca haviam sugerido mudanças. Com os ataques diretos às entidades responsáveis pela organização do futebol brasileiro – feitas por Paulo André e Alex – e os protestos no início de algumas partidas do Campeonato Brasileiro de 2013, o movimento ganhou repercussão e força política.

A CBF não cedeu e é por isso que os jogadores continuaram agindo. A cada recusa da entidade, greves são cogitadas e parecem cada vez mais próximas de acontecerem.  Segundo a coluna “De Prima” do portal de notícias Lance!Net, são boas as chances de os jogadores não entrarem em campo na primeira rodada do Campeonato Brasileiro nos dias 19 e 20 de Abril.

Se retomarmos os discursos de Rogério Ceni desde a criação do BSFC até o presente momento, veremos várias incoerências não só consigo mesmo como também com o coletivo, algo questionável para um porta-voz de qualquer movimento.

Em 28 de setembro de 2013, ciente dos problemas decorrentes de atraso salarial no Náutico, o Bom Senso prestou solidariedade e ameaçou:

Os jogadores estão cobrando o justo e o que é devido pelo clube. Sabendo da repercussão interna e das ameaças públicas sofridas pelos profissionais, o Bom Senso FC declara que caso exista alguma tentativa de retaliação aos atletas e o não pagamento da dívida, o Campeonato Brasileiro da Série A será paralisado imediatamente. Aguardamos soluções urgentes”.

Dois dias depois, Rogério respondeu. “Ninguém aqui quer greve, é um movimento pacífico”, afirmou o goleiro em entrevista à Rádio ESPN.

Já no último seminário, Rogério trocou totalmente de tom: ”Se tiver que parar que pare (o Campeonato Brasileiro)”. Seria louvável a mudança de posicionamento se logo na sequência ele não tivesse desdenhado da luta dos garis do Rio de Janeiro que entraram em greve na busca de melhorias trabalhistas.

Se formos analisar o discurso dito sobre os trabalhadores cariocas, poderemos observar as incontáveis contradições presentes na fala de Rogério, que segue abaixo:

“Não somos os garis do Rio de Janeiro, que, aliás, estão no seu direito (de fazer greve). Não estamos aqui pedindo Bolsa Família ou Bolsa Atleta, estamos pedindo emprego. Não é dinheiro da CBF, é organização”.

Ao se comparar com os garis, Rogério utiliza uma retórica negativa que pode ser interpretada como: “Não sou petulante igual ao outro (garis) de pedir aumento de salário, quero apenas o básico”. Depois ele percebe o erro e tenta se corrigir dizendo que os trabalhadores também têm razão. Em seguida, ele emprega uma visão elitista a respeito dos programas sociais do governo ao dizer que não está pedindo Bolsa Família, se expressando com algo similar a: “Não quero esmola, quero emprego”. Uma frase carregada de conteúdo político – posicionamento que Rogério já disse uma vez querer ficar longe, como foi visto, durante entrevista após jogo contra o Flamengo em 13 de novembro do ano passado: “Se tiver algo político nesse movimento um dia, eu sou o primeiro a ir embora”, declarou o goleiro após jogo contra o Flamengo em 13 de Novembro do ano passado.

Foto - 1 Rogério - luvasInfluência positiva no São Paulo, mas nem tão boa para o movimento (Foto: Rubens Chiri/saopaulofc.net)

O político Ceni

Outra frase de Rogério chamou a atenção dos jornalistas presentes pela delicadeza do tema. O são-paulino cobrou investimento do governo em esportes olímpicos, alegando que atletas como Arthur Zanetti (medalha de ouro em Londres 2012) não tinham patrocinadores, enquanto os condenados pelo mensalão conseguiram “arrecadar mais”. Até poderia ser uma comparação válida, partindo do pressuposto que os políticos foram julgados culpados, mas o histórico do goleiro revela seu partidarismo político.

Em 2012, nos meses que antecederam as eleições para prefeito na cidade de São Paulo, Rogério apoiou publicamente a candidatura de José Serra (PSDB) durante encontro com o tucano no Museu do Futebol. Fazendo analogia entre futebol e política, o goleiro questionou as pesquisas que colocavam seu candidato em segundo plano na disputa. “É igual a futebol, tem o favorito, a probabilidade. Mas o que vale é o resultado final depois do jogo”, disse. O jogador ainda ressaltou sua admiração pelo ministro do STF, Joaquim Barbosa, que teria feito um ótimo trabalho, segundo o atleta. “O próximo gol que eu fizer vai ser em homenagem ao Joaquim Barbosa. Ele está sendo uma figura exemplar”.

rogerio_e_serra_pebolim_d1.jpg.633x316_q85_cropRogério Ceni, José Serra e Marco Aurélio Cunha jogam pebolim no Museu do Futebol (Foto: Reprodução)

Coincidência ou não, o deputado federal Otávio Leite (PSDB-RJ) estava presente no seminário do BSFC como convidado, e aproveitou o intervalo entre falas de atletas para divulgar projeto de lei que cria o Programa de Fortalecimento dos Esportes Olímpicos (Proforte), além de questionar a regulação do futebol brasileiro pela CBF. Após o encerramento do evento, Rogério Ceni foi cumprimentar o deputado, elogiando suas explanações: “Gostei muito do que o senhor disse sobre a CBF. Pode contar comigo”.

Na última sexta-feira, dia 21, o portal Lance!Net, no blog “Bastidores”, publicou artigo de João Carlos Assumpção no qual revelou a opinião dos cartolas da CBF em relação à “substituição” de Paulo André por Rogério Ceni como porta-voz do movimento. Segundo o jornalista, a presença do goleiro tricolor é vista com “bons olhos” pelo presidente José Maria Marin, que classifica Ceni como um melhor interlocutor entre as duas partes, além de ser fã do atleta.

Apesar de Rogério negar o conteúdo político inserido no movimento, é impossível desassociar uma coisa da outra, como o próprio Paulo André já declarou em entrevista ao Brasil Post. “O Bom Senso é apartidário, só não pode ser apolítico por motivos óbvios”, disse o zagueiro.

O Bom Senso FC tem reivindicações legítimas e propostas bastante organizadas, graças aos seus parceiros da Universidade do Futebol e Futebol do Futuro, responsáveis pela elaboração das pautas do movimento. No entanto, sofre com a falta de um porta-voz que bata de frente com o poder da cartolagem e que não tenha medo dos instrumentos da luta, como a greve. A saída de Paulo André parece ter desarticulado o movimento. E não é possível compreender, através de tantas incompatibilidades retóricas, se Rogério Ceni é um representante das reivindicações dos jogadores ou é apenas um político de declarações fortes.

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