Frotteurismo: cotidiano da mulher no transporte público

(Foto: Reprodução)

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Por Júlia Dolce

O assédio e abuso sexual de mulheres no transporte público se tornou pauta da grande mídia neste mês de março, a partir do que foi considerada uma “onda de ataques”. A “onda” teve início com a denúncia do grupo “Encoxadores e encoxatrizes de plantão” no Facebook, que tinha como objetivo o compartilhamento de experiências, vídeos e fotos do assédio praticado pelos seus membros.

No dia 17 de março, logo após a remoção do grupo, considerado uma ameaça de violência até para os padrões conservadores da rede social, Adilton Aquino dos Santos, estudante de administração e membro do ‘Encoxadores’, foi preso em flagrante por tentativa de estupro ao agarrar uma passageira de um trem da linha Rubi da CPTM, tentar arrancar sua calça e ejacular nela. Na mesma semana, outros dois homens foram detidos e indiciados por importunação ofensiva ao pudor, após tirarem fotos e filmarem o assédio que cometeram.

Como mulher e feminista, minha indignação se deu não apenas com os fatos aqui apresentados, mas principalmente com a forma como foram tratados na mídia: casos particulares e desvinculados de qualquer contexto social e cultural; a tal “onda” inédita. Para qualquer mulher que faz uso do transporte público − ou simplesmente sai de casa − a ideia de uma reportagem sobre assédio sexual ser encarada como um furo jornalístico, um paradoxo no cotidiano urbano, chega a ser absurda. Isso porque qualquer uma dessas mulheres (as que existem) poderia ceder facilmente uma entrevista completa sobre ser vítima de assédio, com incontáveis exemplos dessa situação.

A reportagem publicada no site G1  sobre o caso de Adilton Aquino dos Santos traz a opinião do psiquiatra especializado na área jurídica Guido Palomba de que os “encoxadores são psicopatas sexuais praticando a mania sexual do frotteurismo (ato de se esfregar em pessoas em lugares públicos, sem o consentimento das mesmas)”.  Essa abordagem, assim como a realizada por boa parte da mídia, demoniza os agressores ao caracterizá-los como um grupo específico com desordens psicológicas e alheio ao resto da sociedade. Com o conhecimento do quão naturalizado é o assédio sexual de mulheres no transporte público, é preocupante ignorar a dimensão e permissividade social que o abuso sexual tem, assim como desvinculá-lo do machismo estrutural.

No último dia 21, o Portal IG promoveu uma enquete sobre a “solução para abusos cometidos contra mulheres no transporte publico”, disponibilizando três opções de escolha: roupas menos ousadas, mais segurança e áreas ou vagões exclusivos. A culpabilização da vítima e a inexistente opção  “respeitar as mulheres”, é um claro exemplo de como a mídia funciona como cúmplice da cultura do estupro. Mais alarmante ainda foi a propaganda veiculada pela rádio Transamérica no dia 18, em nome do Metrô de São Paulo, que normatiza e incentiva o assédio sexual no meio de transporte: “Nos horários de pico, é normal trem e Metrô ficar lotado. É assim também nas grandes metrópoles espalhadas pelo mundo. Pra falar a verdade, até gosto do trem lotado, é bom pra xavecar a mulherada, né, mano? Foi assim que eu conheci a Giscreuza. Muito já foi feito e o governo sabe que ainda tem muito pra fazer”. A Rádio se pronunciou, destacando o objetivo humorístico do programa e do personagem utilizado na propaganda, ignorando deliberadamente a relação entre o humor opressivo e os casos reais e rotineiros de assédio sexual.

Um estudo do IPEA sobre a tolerância social à violência contra as mulheres, publicado no dia 27, revelou que 67% dos brasileiros entrevistados acreditam que “se as mulheres soubessem se comportar”, o número de estupros no país diminuiria. Adilton foi detido por outros passageiros, preso em flagrante, e seu crime foi pautado por inúmeros veículos de comunicação. Porém, a criminalização de seu ato foi apenas uma exceção em uma cultura do estupro que acoberta milhares de ‘encoxadores’ diariamente, seja em trens lotados ou em baladas, normatizando a violência sexual e objetificando o corpo da mulher.

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