Max B.O., o rap e a quebrada: ‘Aqui eu faço na rua. No Itaim, eu cobro’

Por Guilherme Almeida

Fotos por Matheus Bagaiolo Raphaelli

Quando o papo já havia passado pelos mais diversos assuntos (clique aqui para ler a primeira parte da entrevista) Max B.O. pausou a música que tocava, virou a cadeira de modo a ficar de frente com os dois jornalistas: “Rapaziada, deixa só eu perguntar, tem dois jeitos de continuar essa conversa: a gente conversar aqui ou dar um rolê lá na minha quebrada e fazer umas fotos melhores. Qual vai ser?”.

Max bo - por Matheus Bagaiolo Raphaelli3

“Vamos lá então e eu faço uma visita na quebrada”, disse. Max B.O, percebendo a animação da equipe de reportagem. Ele está há um ano morando em uma casa na zona oeste de São Paulo por motivos logísticos – montar o estúdio e receber pessoas para ocasiões profissionais. “Mas, minha quebrada é essa aqui, Jardim Pery, Pedra Branca”, diz, enquanto dirige seu carro barulhento.

Os carros param numa rua íngrime, onde de um lado ficava o boteco de seu Dácio e do outro a casa em que seguiríamos a segunda parte da entrevista. Logo após fazer o dia de seu Dácio com um novo chapéu, Max pediu duas cervejas e começou a levá-las para a laje da casa de um amigo que estava fora. Subindo a escadinha lateral da garagem aberta, Max olhou para trás e pediu como quem se lembrasse da coisa mais importante do mundo: “Não esquece os Fofura de cebola!”.

Max bo - por Matheus Bagaiolo Raphaelli6

No topo da escadinha de degraus curtos, a foto que tanto queríamos. Por cima da laje dava para ver favelas e prédios elitizados dividindo uma paisagem que serviu de explicação do porquê Max B.O. fazia tanta questão de andar esses 20 minutos em seu carro, Simonal, aquele que canta bem, mas também bebe bem. Tudo pronto, banquinhos colocados, câmera na mão, gravador apoiado no tijolo e segue o papo.

Revista Vaidapé: Qual é sua relação com São Paulo?

Max B.O.: Minha relação sempre foi com a zona norte. Nasci e morei até os oito anos ali no Chora Menino, perto o Imirim, aí meu pai, que era do movimento de moradia, conseguiu a casa lá na Cohab e mudamos para o Jardim Antártica. Fiquei lá até uns 25 anos, depois vim para o Jardim Pery, depois Pedra Branca, depois morei no centro, fiquei um tempo em Florianópolis, depois voltei pra cá e morei no bairro do Limão. Aqui, no Limão, estamos no meio das minhas antigas casas.

VDP: Quando começou a viver de rap?

MBO: Eu comecei a trabalhar com rap com 13 anos de idade, e me tornei profissional com 19, agora tenho 34. O primeiro rap eu fiz para tocar no festival na escola que minha sala ganhou. Em 1999, no primeiro festival de Hip Hop internacional no Brasil eu já tava lá tocando. Foi quando ganhei meu primeiro cachê, assinei o primeiro contrato. Sobreviver de rap mesmo, só a partir de 2008, 2009. Hoje eu sobrevivo do rap, mas como forma de fazer televisão principalmente, não tenho aquele estabilidade do cara que tem show o mês inteiro. No campeonato de escola que eu participei, eu fiz um freestyle sem saber. Eu esqueci a letra e fiz um improviso.

VDP: Como você vê o processo de ganho de espaço na mídia e consequentemente de dinheiro que começou uns três anos atrás, com rappers como Criolo, Emicida, Rael, Projota?

MBO: Bom, esses são exemplos que conseguiram viver de rap sem necessariamente depender de outras vertentes. Mas deram seus passos em outras coisas também. O Emicida foi repórter do Manos e Minas. Mas eles conseguiram movimentar o mercado fonográfico mesmo, acho que isso foi o mais importante para o rap. Precisa existir pessoas que fazem o que eu faço: que mostrem que a linguagem da quebrada pode ser usada para fazer comunicação mais ampla. Mas é preciso ter gente que nem consiga fazer uso dessa ferramenta porque tá lotado de show.

Desses nomes, com exceção do Criolo, os caras são relativamente novos. Já pegaram o bonde com asfalto na rua. Eles não demoraram muito tempo para alavancar suas carreiras.

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Além de a cerveja ter acabado o tempo estava virando, o dia já tinha ficado feio e começou a chover. Cada um pegou o que pôde, entre garrafas, banquinhos e embalagens de Fofura de cebola, e desceram de volta ao bar de seu Dácio. No pequeno estabelecimento, que é um meio termo entre mercearia e bar, todos se sentaram, menos o fotografo, ele tinha um cenário novo. Pediram mais cervejas e se acomodaram. Foi raro ver Max falar por mais de dez minutos sem parar para cumprimentar algum morador do bairro. Foi assim, entre um Opa!, um gole de cerveja e um Fofura de cebola que a maior parte da entrevista aconteceu. A impressão que ficou e que aquele era o lugar desejado por todos desde o começo. Mas o papo seguiu.

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VDP: Quem são seus ídolos no rap?

MBO: Muitas vezes você admira a pessoa, e nem gosta tanto da música. Às vezes gosta muito da música mas não tanto da pessoa. Mas, eu sou muito fã dos Racionais, claro, do Thaíde, eu sou muito fã do Consciência Humana, do Sistema Negro, do Ndee Naldinho, do Rashid, do Haikaiss, do Flow MC. Pessoas que eu vou ouvindo e têm a história muito parecido com a minha.

VDP: Você não tem problema em falar que é fã de alguém que ainda está na ativa e supostamente disputando espaço com você? Sabe que isso é raro, né?

MBO: Claro! É importante isso. Acho que as pessoas tinham que fazer mais isso. É raro, mas é ai que se emprega o uso de uma coisa da qual as pessoas falam muito: humildade. Eu acho importante falar que eu sou fã desses caras. Sabe o que é uma felicidade? Eu estar num show dos Racionais e o Brown ver que eu estou cantando a música, igual eu fazia em 1997, e ele me fazer um jóia. Isso me dá vontade até de chorar, porque esse é o sentido da parada. Por outro lado, você vê cara que fica dedicando prêmio ao Sabotagem. Ele morreu né, velho. Ele merece o prêmio? Merece, eu dedico um prêmio para ele também. Mas eu também dedicaria com ele em vida. Não é porque, falando friamente, é mais um cara com quem eu poderia estar dividindo palco e cachê.

Quando terminou o Manos e Minas do Rashid, eu fui lá falar com ele. Disse: “Sou feliz demais em ter te visto lá na galeria Olido, com o Emicida, com o Projota e os caras. Mas, ter te visto a pessoa em que você se transformou, eu me sinto representado”. Porque eu não sou só um apresentador de TV, minha vida não começou quatro anos atrás. Eu sou o mesmo cara que tem um emprego, mas quando a situação aperta, corre na favela e pega um dinheiro emprestado com um amigo ou na casa do pai e da mãe, tá ligado?

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O repórter, meio sem jeito, perguntou como era mesmo o nome do dono do boteco e depois pediu que ele abaixasse som da TV. A chuva já era ruído de mais para o gravador que o repórter usava.

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VDP: O que você pensa dessa retomada protagonizada por esse caras, Emicida, Rashid, Projota na mídia? Acha que tem algum conflito com legado que os Racionais deixaram, por exemplo?

MBO: Acho que foi bom. Não tá em mãos ruins. Acho que recusar a mídia foi importante também. Se não hoje a gente teria um cara do rap dançando na boquinha da garrafa. Quem falou não no começo, por não saber onde poderia ir, mostrou para os demais até onde você pode ir. O que os Racionais conseguiram dentro dessa recusa dos holofotes é incrível: vender um milhão de discos oficiais de um trabalho, fora o que o camelô vendeu. É imensurável o alcance deles, é apenas imaginável. Isso fora da indústria fonográfica, sem ir no domingo no Faustão. Se eles vendem um milhão e eu vendo mil, mas para pessoas que são mais próximas do meu mundo e que me deixam feliz com o reconhecimento, então eu também não preciso do Faustão. Agora tem outros espaços, ir no Altas Horas é legal, o Sabotagem abriu essa porta.

VDP: Essa abertura influencia na qualidade da música?

MBO: Eu acho que se cada um for sincero com a sua realidade, o rap só tem a agradecer. Acho que tudo tem que ser feito com calma e sendo verdadeiro em cada espaço. Não vou para um lugar para ser um personagem que querem que eu seja simplesmente. O Racionais me ensinou onde eu devo ir. Eles mostraram que existe um limite entre usar o espaço e ser usado por ele. Eu sou um cara com 30 mil seguidores no Twitter, mas gente com quem eu interajo, gente que vê além do Max, vê o Marcelo. Quando você vai muito longe da sua casa você fica longe dela, em vários sentidos.

VDP: Que assunto você prefere retratar nas músicas?

MBO: São basicamente situações cotidianos. Na mixtape mais recente, ‘Fumasom’, elas estão amarradas pela questão do fumo, mas são relações cotidianas como nos outros trabalhos. São sempre assuntos que eu conheço com profundidade. Eu prefiro contar a história de uma blitz que eu tomei, porque eu tenho profundidade para contar essa situação.

Tem uma música minha sobre mulheres da quebrada: “De Rosa Parks a Maria de Lurdes, todas têm seus defeitos e suas virtudes, todas têm suas falhas, as vezes poucas ou tantas, mas você é guerreira então não precisa ser santa. Aquela que se veste coma veste da cor da lua, chega de manhã em casa na mesma hora que a outra, ela já deixou a mesa pronta para que o filhote dela, quando levantar, tenha tudo certinho, pode até faltar pão só não pode faltar carinho”. São coisa que eu conheço daqui. A hora que a puta chega em casa é a mesma que a doméstica tá saindo para trabalhar. Eu tenho profundidade para falar disso. Agora, não posso falar do que não conheço.

VDP: Qual é o espaço das mulheres no rap hoje?

MBO: Hoje, tem muita mina fazendo rap, mais do que em qualquer época. E não só como MC, tem muita grafiteira, dj’s, mina fazendo fotografia, vídeo. Seria hipocrisia falar que o rap é amplo e livre de machismo e diferente de qualquer outra esfera da sociedade. Mas, elas têm conseguido e conquistado um espaço cada vez maior. O espaço depende também da sua parcela de envolvimento. Vou dar um exemplo: eu nunca fiz show fora do Brasil. Mas é porque eu mesmo nunca me empenhei pra isso. Eu vejo um cara como o Rashid em festivais lá fora e me sinto representado. Então continuo lendo os roteiros do Manos e Minas.

VDP: Você acha que falta engajamento político na classe artística?

MBO: Falta. Principalmente porque quando um cara vai pra uma treta dessa (debate), ele vai na condição de artista. No debate sobre desmilitarização eu falei que fui na condição de Marcelo Silva, pai de dois filhos, filho de um pai e de uma mãe que tem um boteco na zona norte e um cara que não está contente com a situação e acha que muita coisa pode mudar. Eu acho que falta o artista ir lá na condição de ser humano, de gente que vive aquela realidade ainda. Tem gente que começa a andar só nuns lugares muito chiques, aí os problemas da quebrada vão ficando pra trás. É automático. Você começa a conhecer mais do mundo, você começa a falar mais do mundo e menos do seu bairro. Vai mais longe, fica mais longe.

VDP: O que você acha que os rolezinhos e a maneira com que lidam com eles mostra para nós?

MBO: Tem uma frase do Milton Santos que diz algo como nossa sociedade tem duas classes sociais, os que não comem e os que não dormem com medo da revolução dos que não comem. Enquanto os caras estão injetando qualquer porcaria em nós, os bacanas estão dominando o negócio. Se sair eu e mais cinco camaradas pra fazer um rolê no shopping em Santana, somos um grupo pequeno, uma coisa que eles podem combater, então eles ficam tranquilos. Agora, se junta seis mil dentro de um estacionamento de shopping… Na quebrada só tem a pipa em parte do ano, tem a bola no campinho que nós mesmos cuidamos, não tem pista de skate, o que sobra pro cara fazer? As vezes o rolê da quebrada é ir no shopping pra não fazer nada, só ver um tênis na vitrine. Agora a molecada mostrou que tem condição de se organizar, vai o Bairro do Limão inteiro ver o lançamento do tênis, ou por outro motivo. Como todo movimento de massa, surge três ou quatro que detonam a parada. É assim em tudo, na manifestação, no jogo de futebol.

É por isso que o futebol é classista, o estádio é setorizado. O setor destinado para o pessoal que ganha menos é o mais sujeito a briga, onde é mais caro o corintiano e o são paulino sentam juntos, bebem juntos. A gente sabe que vive num mundo onde impera o classismo. Se você faz um grafite aqui no muro e a polícia passa podem te chamar de pichador e não tem discussão, agora se for na Vila Madalena, na Pompéia ou nas Perdizes você pode ser chamado de artista plástico e ainda é convidado para decorar os muros do bairro.

Tanto que já sacamos isso. Se for pra fazer um show aqui eu monto um microfone na rua. Mas, se for lá no Itam Bibi nós vamos cobrar. Tem que transitar. O dono desse boteco não vai vender cerveja na porta do estádio para gringo ao mesmo preço que vende aqui. O pessoal tem que entender que a gente vai nos espaços porque querem a gente lá. E pagando bem que mal tem? Quem faz rap também precisa de dinheiro. Ninguém vai me contratar para um show onde vão jogar tomate em mim. O rap tem que ocupar espaços, mas entender o que eles são.

VDP: Como você distribui suas músicas e como é o melhor modelo?

MBO: Eu sigo um molde meio básico, vou colocando as músicas na internet para a galera baixar grátis e quando faço algo físico, coloco em algumas lojas e levo pra vender em show.. O disco é uma coisa que dá muito trabalho para você só distribuir e às vezes falta reconhecimento. Quando as pessoas estão vendendo CD eu faço questão de comprar se eu puder. Mas, cada um sabe o corre que teve. Se o cara tá vendendo pra todo mundo e vem me dar de graça eu dou uma embaçada, não sou melhor do que ninguém. Mas, eu faço questão também que tenha o autógrafo, é uma forma de reconhecer o esforço.

Eu acho que o formato correto é o mais satisfatório, muda de acordo com cada artista. Tem gente que fecha com uma gravadora, prensa 30 mil CDs a mais do que eu consigo de forma independente, ganha menos por unidade mas pega isso de volta em show, porque o som dele rodou pelas cidades que a gravadora levou. Tem outro artista que vende muito no próprio show e fica com praticamente 100% do lucro.

Max bo - por Matheus Bagaiolo Raphaelli5

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Já num clima de fim de papo, todos decidem encerrar por ali. Já não estava mais chovendo e todo aquele material seria muita coisa para editar. Max levantou, foi se despedindo de quem estava no boteco comentando o jogo entre São Paulo e Corinthians de dias atrás: “Fizemos cinco a zero em vocês”.

No carro, a caminho da casa do Max na Vila Romana onde a entrevista começou, ele recebeu uma ligação. O apresentador olhou para trás e perguntou: “Você deixou um estojo da sua câmera lá?” O fotografo se deu conta e respondeu que sim. “Então a gente mata um tempo lá em casa enquanto esse mano que me ligou não leva pra vocês. Ele disse que vai fazer um trampo aí e já aparece por lá.”

De volta à casa dele, tudo já era diferente. Já não estavam mais fazendo uma entrevista com Max B.O, rapper e apresentador de TV. Ali, estava reunido um pessoal no fim do expediente. Conversaram por mais uma hora, ou algo próximo a isso. Max contou que na interpretação dele, um carro só o havia fechado numa rua próxima à sua casa quando chegavam da zona norte porque ele não tinha respeitado a quaresma: “Não é coisa de Deus ou do capeta, é do universo”.

O camarada que levaria o case da câmera não estava nem perto de chegar e o fotografo tinha compromisso em 20 minutos. “Passa aí depois, é só colar.” Todos se despediram com intenção de voltar a se ver. Até agora não buscamos o case. O que significa apenas a certeza de mais uma boa conversa num futuro próximo.

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