No ‘mês da mulher’, Carnaval legaliza assédio e comprova machismo estrutural

Por Paulo Motoryn, com colaboração de Carolina Piai

O mês de março de 2014 reuniu, em seus 31 dias de duração, dois eventos que, apesar de não terem ligação direta, se misturam em um cenário preocupante: o Dia Internacional da Mulher e o Carnaval. Separados por apenas alguns dias, o feriado deste ano e a homenagem às mulheres acumulam uma série de contradições e comprovam a opressão e a violência diária às quais o gênero feminino é submetido na sociedade.

Apesar de remeter ao massacre de cerca de 130 operárias em uma fábrica de tecidos nos Estados Unidos, no ano de 1857 e, de certa forma, denunciar o genocídio histórico, o dia 8 de março resume em apenas 24 horas uma luta que dura 365 dias por ano. Além disso, é transformado em um dia de bajulações às mulheres, com direito à distribuição em massa de flores e sem a evocação do devido espírito de luta.

Do transporte público aos grandes eventos, ainda hoje o assédio às mulheres é naturalizado e cultural. Eles começam com um simples assobio, que alguns dizem ser um elogio, mas que na realidade tem muito de dominação: os estupros, como conseqüência de uma cultura machista, acontecem em massa. São aproximadamente 55 mil por ano no Brasil.

A questão de gênero, mesmo que amplamente debatida entre movimentos sociais e grupos feministas, não tem um lugar cativo no noticiário dos grandes veículos de comunicação. As seções dedicadas à mulher falam de serviços domésticos, fofocas de celebridade ou dicas de beleza, aprofundando paradigmas e preconceitos históricos. Em nenhum momento, trazem à tona o machismo estrutural.

Quando o tema é colocado em pauta para um debate político nos veículos de comunicação hegemônicos, algumas conquistas, como o direito a voto, são celebradas e ofuscam as desigualdades dos tempos atuais: disparidade nos salários, objetificação do corpo feminino e jornadas de trabalho infladas por afazeres domésticos, recusados por boa parte dos homens.

O machismo, mesmo quando não escancarado ou violento, é ainda mais eficiente ao tornar-se sutil. O cavalheirismo e a devoção à mulher, por mais que valorizados pelo senso comum, comprovam o enraizamento da desigualdade de gênero e ficam longe de compensar a exploração secular.

O Carnaval é quando esses elementos surgem diante de nossos olhos. Talvez pela catarse do entorpecimento coletivo nos cinco dias de feriado, pouco se perceba o que ocorre, mas um traço é evidente: a condescendência ainda maior da sociedade e dos meios de comunicação com os abusos sexuais cometidos contra as mulheres. Afinal, vale tudo, “pois é carnaval”.

 

carana

Governo da Paraíba lançou campanha contra assédio no Carnaval deste ano

Para fechar o mês de março e questionar a permissividade quanto aos abusos sexuais, estupros e violências contra a mulher durante o Carnaval, a Revista Vaidapé convidou mulheres a contarem casos que comprovem a irrazoabilidade da opinião pública em permitir que a maior festa do país acumule assédios que se convertem em duros dramas pessoais.

“O cara me deu um chute na perna com toda força que tinha”

Um depoimento de Carolina Ellmann:

“No carnaval do ano passado, eu fui para o bloco de carnaval na Vila Madalena, chamado Maracaduros. Saindo de lá, como os bares estavam lotados, decidimos (eu e mais duas amigas), irmos para a Praça Benedito Calixto. Ao chegar à praça, encontramos com muita gente bêbada e pelo caminho ouvimos algumas cantadas, até algumas puxadas pelo braço. Com muito esforço, chegamos à área dos banheiros químicos. Quando eu estava tentando passar, um homem que eu não conheço e nunca tinha visto na vida, decidiu que podia puxar o meu cabelo e das minhas amigas para chamar a nossa atenção, já que ignoramos a sua cantada. Fiquei extremamente revoltada e virei pra trás gritando “Você é louco?”, quando estava voltando a caminhar, o mesmo cara que havia puxado o meu cabelo, me deu um chute muito forte na perna, com toda a força que ele tinha (provavelmente pesava uns 90 kg e tinha 1,80) e eu fiquei completamente desnorteado, os amigos que estavam com o rapaz tiveram que segurá-lo, porque senão ele teria me batido mais. Depois dessa situação de nervosismo, as amigas que estavam comigo tentaram procurar algum policial ou alguém que pudesse resolver a situação e quando encontrávamos algum, a resposta era sempre a mesma, “não podemos nos deslocar até lá”, então decidimos ligar para o 190 e o atendente nos disse que somente policiais que estavam na região poderiam nos ajudar. Fui embora pra casa sem ajuda e o cara que me agrediu continuou no mesmo lugar, bebendo ainda mais e provavelmente fez isso com alguma outra mulher.”

“Um homem agarrou minha amiga, tirou-a do chão e se afastou do grupo”

Um depoimento de Júlia Balista:

“Era segunda-feira de carnaval, eu e mais cinco amigas (mais o namorado de uma delas) fomos à um bloquinho em Peruíbe, no Litoral Sul de São Paulo. Depois de curtir o DJ e a Bateria, resolvemos seguir o trio elétrico pela rua. Andar pela rua livres, para escutar musica e nos divertir. Que perigo pode ter isso? Pelo caminho inteiro, ouvimos assobios, “parabéns”, palmas, cantadas. Até que em um certo momento, um homem teve uma abordagem mais agressiva com uma de minhas amigas – chegou bem perto pra falar com ela, impedindo a nossa passagem. Uma segunda amiga, já com os nervos à flor da pele e incrédula com o comportamento do homem de nos impedir de transitar livremente por uma rua pública, o empurrou. Foi só isso que eu consegui ver. Depois, foi tudo muito rápido. Me virei de costas e um segundo cara agarrou minha amiga – que no caso, mede um pouco mais de 1,50 – tirou-a do chão e estava se afastando do grupo, com ela agarrada em seus braços. Eu fui até o homem e disse apenas: “Por favor, moço, solta a minha amiga”. Violência nenhuma contra esse tipo de animais iria adiantar. Não sei como nenhuma de nós apanhou naquele momento. Lembrando que o tempo todo estávamos sendo acompanhadas pelo namorado de uma das garotas – nem isso inibiu aquele grupo de escrotos. Foi a primeira vez na minha vida que eu senti um medo real de ser estuprada e espancada. Tudo ficou muito nebuloso depois disso. Parecia que todo e qualquer homem que se aproximasse tentaria o mesmo assédio. Fomos embora.”

“Um homem dizia: ‘Olha essas minas, elas estão querendo'”

Um depoimento de Marcella Paula:

“Eu estava com as minhas amigas e primas em Ilhabela. Durante o carnaval de rua, passamos por um grupo de meninos que nos comeu com os olhos, nos medindo de baixo à cima. Um deles, com uma garrafa de vodka na mão, se achou no direito de nos acompanhar e falar bosta. Perguntava coisas sobre a nossa vida, enquanto continuávamos andando, ignorando-o. Começou a chamar os amigos dizendo: “É carnaval. Olha essas minas. Elas estão querendo. Vem, é carnaval”. Mandei o cuzão ir embora e ele não achou suficiente, nos acompanhou por mais uns metros e desistiu depois de ver que não íamos dar bola para ele.”

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