Sobre os meninos e meninas em situação de rua

Por Beatriz Mansano

Ilustração de Matheus Bagaiolo Raphaelli

Ilustração de Matheus Bagaiolo Raphaelli

Vieram todos como nós,
Pelados e sem saber de nada.
Um monte de argila jogado no tempo
Pronto para ser moldado

Num ninho. Carentes de proteção e cuidado.
E, importante: são buchas secas prontas para sugar toda a água que aparecer.
E o ninho é o primeiro olhar sobre o mundo.
A consciência logo vem e, então, o voo.

Esse criar asas é belo e perigoso.
Nem toda a rota se faz instintivamente e
É preciso que sejam apresentados alguns caminhos.

Muitos desses pequeninos, talvez todos eles
Foram desorientados em seus primeiros voos.
Não tiveram vinculo afetivo declarado.
Há como imaginar uma vida sem amor?

Pais e mães, famílias inteiras entregues
Ao que existe para nos tirar do mundo
Por um minuto gira diferente
Tão bom que vicia
Mais ainda que o amor
E esse, esse é só um dos inúmeros contextos segregativos.

Há como imaginar uma primeira vida completa de abandono?

Sem rota é muito mais difícil de voar.
E a buchinha é projetiva!
Ela também é um toma lá , dá cá.

Esses filhotinhos se enchem de medo
De trauma, frustração.
E ainda sem saber de nada só podem se encher de coragem.
E fugir dali
Se jogar. Ver no que dá.

Cai direto na selva.
E precisa aprender muito sozinho
Mas encontra um novo sitio
Vive em uma nova comunidade
Essa sem laço genético
Mas há algo que une muito mais:
As vivências.

É preciso sobreviver

E esperar do comportamento de um deles o mesmo que você espera de um filho teu é uma bobagem sem tamanho.

Quem quer, faz.
Quem quer, pega.
Quem quer, toma.
Quem quer se vira, parceiro!

A rua é atemporal
A rua des-identifica
A catarse é projetiva
A bucha transborda água suja agora

Há medo, pavor. Desorientação.
Malandragem, instinto.
Carência mascarada de diversas formas.
Poder, agressividade, silêncio, ódio, libertinagem, excesso de coragem.

Argila que não merecia isso.
Uma nova vida deveria ser acolhida. Há como ser diferente disso, porra?!
Há quem diga que são marginais,
Ladrõezinhos…
Eles crescem.. e os adjetivos aumentam de tom e gravidade junto.

“- Quando é que não vai ter mais criança abandonada, pai?
– Quando não houver mais nenhum adulto abandonado, meu filho”

O ciclo só se repete, se intensifica.
Como já dito, a catarse é projetiva.

É preciso mirar um novo olhar
Repeito, compreensão, atenção. Contemplação, eu arrisco.
Se manter a argila úmida é possível continuar moldando
Dá pra espremer a bucha.

Se existe amor, que seja distribuído e multiplicado.

Há quem precise de resgate.
E quanto mais pássaros voando juntos, mais bela é a alvorada.

Viemos pra cá todos da mesma forma.
Pelados, e sem saber de nada.

E agora que já sabemos um pouco,
FAÇAMOS.

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