A crise na USP Leste e a delinquência acadêmica

Por Thiago Gabriel

Impasse que levou à interdição da USP Leste faz estudantes e professores sofrerem no retorno às aulas. Mas a questão vai além: para onde caminha a educação no Brasil?

eachContaminação na USP é também atestado da lógica de ensino no país (Foto: Reprodução)

A manhã da última segunda-feira (31), marcou o retorno das aulas para os estudantes EACH (Escola de Artes, Ciências e Humanidades), que ocupava o campus USP Leste. Após terem o calendário para início do ano letivo adiado três vezes desde a interdição do campus por conta de problemas ambientais, os cursos foram realocados para espaços diferentes: a Unicid (Universidade Cidade de São Paulo), no Tatuapé, uma Fatec (Faculdade de Tecnologia) da zona leste, uma escola técnica do centro e outros prédios do campus Butantã da USP, na zona oeste.

Em frente à Unicid, onde irão estudar alunos dos cursos matutinos, professores e estudantes realizaram uma aula pública para expor a situação, criticar a solução adotada e debater novas formas de resolução do problema. A possibilidade de greve vem sendo cogitada para expor a indignação com relação à falta de estrutura dos espaços emprestados.

As críticas contemplam a dificuldade de acesso das novas sedes (visto que os alunos programaram-se para estudar na Zona Leste), a falta de infraestrutura (como a ausência de bandejão e laboratórios) e a falta de consulta da comunidade acadêmica para a adoção da medida.

O campus da EACH foi interditado após ser constatado que o terreno era impróprio para a convivência coletiva, por estar com o solo contaminado de gás metano desde sua fundação, o que expõe os frequentadores do local ao risco de explosão. O descaso apresenta-se em forma de negligência a um problema, reconhecido anteriormente e não solucionado.

O impasse se desenrolou por todo o início do ano, fazendo com que recorrer de decisões judiciais e a tentativa de convencer a Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) de que seria seguro permanecer no campus, se tornasse prioridade para a reitoria, diante das obras para descontaminação do solo e a preocupação em encontrar um local para realizar as aulas. A indefinição e a falta de posicionamento oficial aos alunos demonstram que a preocupação da Universidade reside mais em fazer politicagem para liberar a área do que em criar condições para que seus cursos possam ser ministrados de maneira satisfatória.

Enquanto isso, estudantes têm convivido com incertezas em relação ao futuro de sua graduação. Muitos já haviam adequado suas vidas para ter aulas na região da USP Leste. Tantos outros têm optado por abandonar seus cursos para buscar uma opção de universidade que lhe garanta a certeza de onde passarão os próximos 4 anos.

Uma página na internet, batizada de “EACH Seus Problemas”, foi criada para que os estudantes pudessem relatar as dificuldades impostas pela solução adotada. Entre as declarações, uma professora reclama da falta de equipamentos na sala de aula: “A sala da Unicid em que trabalhei hoje pela manhã estava sem datashow, sem microcomputador e sem tela para projeção”, afirmou Ana Amelia, docente em SI (Sistemas de Informação). Em outra postagem, um estudante de Gestão de Políticas Públicas, Philippe Gama, comenta o aumento de custos causado pela mudança: “Passei quatro meses pagando aluguel de um apartamento próximo à faculdade sem usá-lo. Agora entra na conta o transporte até a Unicid. Um dia a conta não vai fechar se tudo continuar assim!”.

O que assusta no projeto educacional brasileiro é que o caso da USP Leste não apresenta uma exceção, e sim a tendência que vem tomando as universidades do país, cada vez menos preocupadas em garantir um ambiente universitário devidamente estruturado e voltado para a produção de conhecimento livre.

A greve das Fatecs e Etecs do estado por melhores condições trabalhistas aos funcionários, a desocupação realizada pela Tropa de Choque e a consequente prisão de dois estudantes na USP em novembro do ano passado, além da ação das Polícias Militar e Federal na UFSC, que transformou o espaço em um campo de batalha, são preocupantes exemplos das políticas que o Estado exerce no campo educacional.

Em práticas como essas, as autoridades, supostamente competentes, posicionam-se contra a valorização de um ensino de qualidade, que depende também da mobilização política de estudantes e professores. Esse modelo institui práticas que autoritariamente tentam imprimir uma disciplina, e desarticular e silenciar um movimento que sempre se colocou presente nas mais importantes manifestações sociais da história do país.

O descaso histórico de sucessivos governos brasileiros relativos à investimentos em educação pública e de qualidade, leva à uma elitização do conhecimento, possibilitando seu acesso apenas às camadas economicamente mais privilegiadas. A criação de diretrizes que privilegiam um ensino tecnocrático e preocupado em formar profissionais à serviço do capital, consolida o projeto social que mantém a estrutura de poder vigente.

tratembergO professor Maurício Tragtemberg foi ao cerne da questão na crítica à academia (Foto: Reprodução)

Com o público selecionado e os estudos alinhados à ausência de formação do pensamento crítico, junto à transposição de uma lógica de poder aos ambientes de ensino, as escolas e universidades no país tornam-se o braço mais forte da manutenção das intocáveis estruturas políticas e econômicas.

Um processo que o sociólogo e professor Maurício Tragtenberg (1929-1998) identifica como “delinquência acadêmica”, onde as instituições de ensino operam através da não preocupação com as finalidades sociais do conhecimento produzido, minando a participação efetiva de seus membros nas transformações vividas dentro e fora das escolas e universidades.

Para investir no ambiente acadêmico, melhores condições de trabalho para professores e funcionários, ou na compra de equipamentos necessários à realização das aulas existe um total descompromisso do poder público. Permitir que alunos da maior universidade da América Latina, ou de qualquer instituição de ensino, não tenham aulas por falta de um espaço para que elas aconteçam é o reflexo latente de que a criação do conhecimento não é a prioridade do projeto educacional que temos hoje.

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