A homofobia e o jaleco: hospital recusa ‘sangue homossexual’

Por Bira Iglecio

Lembro que aos 14 anos me questionei sobre o porquê se pergunta qual é a sua orientação sexual quando se doa sangue. O que diferencia o meu sangue do de um homossexual? Será que existem glóbulos homossexuais em alguns sangues e em outros glóbulos hétero? Se eu for uma mulher e ter relações sexuais com um homem, meu sangue é “bom” e eu posso doar, e vice-versa. Agora, se eu for homem e transar com um homem com quem essa mesma mulher transou, eu não posso. Por quê?

Não importa, se é gay não doa sangue. O hospital 9 de Julho confirmou a lógica. Parece que homossexuais são promíscuos e, por fazerem muito sexo com várias pessoas, são considerados sujos. Agora, se sou hétero e transo um milhão de vezes, com milhares de pessoas diferentes, sem proteção, eu doo sangue, tranquilo.

Será que a pergunta não deveria ser mudada? Sugiro duas: “Quantos parceiros sexuais você teve no ano?” ou “Com quantas pessoas você teve relação sexual nessa semana?”. Alguns hospitais adotaram perguntas parecidas, mas não é todo mundo que pensa assim. Leonardo Uller, no dia 26 de março, foi ao hospital 9 de Julho doar sangue. Mas, a médica o dispensou, com a justificativa de que Leonardo é homossexual e insinuando que homossexuais, em geral, são promíscuos. Seu caso não foi o primeiro e também não será o último.

euvoudoar-03Doar é um direito. Campanhas na internet se mobilizam pela causa (Reprodução)

O sistema patriarcal dita algumas normas morais, que, inconscientemente, aceitamos e deixamos passar. Infelizmente, soa normal pra médica dizer que não aceita sangue de gays, partindo de um milhão de pressupostos que não se comprovam cientificamente e “humanamente”. No ano passado, um casal homossexual de Rio Preto (SP) foi impedido de doar sangue no Hemocentro da cidade. O hospital afirmou que mesmo estando em uma relação estável com uma pessoa do mesmo sexo, é necessário ficar um ano sem ter relações sexuais com seu parceiro para se doar sangue.

Os dois casos são homofóbicos. A lei já mudou. A portaria Nº 1353 de 13/06/2011 do Ministério da Saúde, nos artigo 1º § 5º, define: “A orientação sexual (heterossexualidade, bissexualidade, homossexualidade) não deve ser usada como critério para seleção de doadores de sangue, por não constituir risco em si própria”. Resta agora que a consciência de cada um de nós mude também. O preconceito impregnado nos jalecos brancos não é benéfico, recusa-se um “sangue gay” e morre um que precisava de sangue. A doação de sangue é importante e a luta contra o preconceito indissociável.

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