Da questão da USP Leste

Por Marcelo Lopes

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Meu nome é Marcelo Alcebiades Lopes, sou estudante do segundo ano de Gestão de Políticas Públicas da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP Leste (EACH-USP). Por mais que eu estude na maior universidade brasileira e referência na América Latina, me sinto distante da educação que imaginei que teria acesso e assustado com o que se passa dentro da minha – ou melhor, da nossa – Universidade.

A USP Leste foi inaugurada em 27 de fevereiro de 2005 pelo governador Geraldo Alckmin e encontra-se no bairro de Ermelino Matarazzo, zona leste da cidade de São Paulo, à beira da Rodovia Ayrton Senna. A ideia do campus é tentar equilibrar o déficit social sofrido pela população da esquecida zona leste de SP, Guarulhos e região, que há anos reivindicavam por uma universidade pública.

Pois bem, os problemas começam por aqui. A EACH foi construída num terreno onde já fora um aterro sanitário, o que originou concentração de gás metano no solo em proporções altamente explosivas, uma vez que não havia (até poucos dias atrás) bombas de extração do gás e medidores ao longo do campus. Essas medidas só foram tomadas esse ano após a interdição pelo Ministério Púbico e as exigências ambientais. A greve geral do ano passado e a ocupação da reitoria foram essenciais para que as autoridades enxergassem esses problemas e tomassem a atitude de interditar o campus. Um aluno da EACH, entretanto, foi convocado recentemente a se apresentar à Polícia para depor a respeito da ocupação.

Não satisfeitos com o problema do metano, a USP Leste recebeu o equivalente a quase 500 caminhões de terra contaminada em 2011, provenientes do processo de drenagem do leito do Rio Tietê. Essa misteriosa terra despejada ao longo do campus possui contaminantes extremamente tóxicos e até cancerígenos. Professores e alunos se recusam a voltar à EACH dessa maneira, pois não há o mínimo de condição de saúde para estudar ou trabalhar num ambiente onde se pode contrair câncer devido à longa exposição (como já diagnosticou um dos professores da unidade). Por que a EACH recebeu essas terras? Essa é uma pergunta que cobramos a resposta na Justiça pelo ex-diretor da unidade Jorge Boueri, um dos grandes responsáveis por tudo isso, juntamente com o seu vice Edson Leite e o ex-reitor João Grandino Rodas.

Com o campus interditado pelo Ministério Público, não sobrou alternativa para a reitoria se não a transferência dos alunos para outro local de aula. Fomos enviados para diferentes lugares, dependendo do período e do curso. O pessoal do matutino foi deslocado para o prédio da UNICID, faculdade particular ao lado do metrô Carrão, com um contrato de locação até o final de julho. Outras turmas foram pra outras Escolas da Cidade Universitária, Fatec Tatuapé e a Faculdade de Saúde Pública.

O que a princípio pareceu uma resolução temporária só trouxe mais problemas e polêmica. Na UNICID nós não contamos com o “bandejão” de R$1,90, não temos biblioteca com o acervo que precisamos, laboratórios, secretaria – ou seja, não temos a infraestrutura que existe por trás da realização de uma aula. Colocar-nos lá foi limitar o ensino da USP a uma sala de aula apenas, como se fosse o necessário para o ensino de um curso de graduação como o de Obstetrícia, Gerontologia, Têxtil e Moda, Gestão Ambiental etc.

Colegas que se instalaram próximos à EACH para não terem despesas de locomoção agora somam os custos nos seus orçamentos (principalmente os que estudarão no campus do Butantã, extremamente longe para grande parte dos estudantes da USP Leste, que, na sua maioria, moram na própria zona leste e região). A unidade da Escola foi fragmentada, os alunos (antes integrados pelo Ciclo Básico que reunia graduandos dos diversos cursos na mesma matéria) foram separados. E dessa maneira, diversos estudantes contam com problemas financeiros e pedagógicos com a modificação para o novo local de estudo. Muitos trancaram o semestre ou boicotaram as aulas.

O semestre finalmente começou no dia 31 de março, com um calendário que vai até o final de julho para compensar o atraso. Uma aula pública foi dada na escadaria de entrada da UNICID pela Profa. Elizabete Franco Cruz, para contar aos calouros toda a história que desencadeou o fato de ingressarem na USP não terem aula, provocando-lhes aos primeiros sentimentos de luta. Afinal, direito é luta! Após uma semana de aula a situação está um pouco mais estável emocionalmente, as aulas estão caminhando em ritmo “normal” e a notícia de que a Fatec Tatuapé (relativamente próximo da UNICID) nos fornecerá o bom e velho bandejão a partir dos próximos dias melhora um pouco a situação.

Além dessas dificuldades citadas, há ainda, em minha opinião, o maior problema: enquanto estamos fora da USP Leste, a descontaminação do campus não vem acontecendo. Foram construídas 8 bombas de extração de metano até então (das 12 necessárias). Mas quanto aos contaminantes, nada vem sendo feito. O novo reitor da USP diz que todas as providências vêm sendo tomadas e que aguarda a liberação da Justiça para voltarmos. Resumindo, professores e alunos não voltarão ao campus contaminado e a USP não se interessa em descontaminá-lo corretamente. As ações são sempre superficiais e nunca atingem a origem do problema – e muito menos buscam responsabilizar na Justiça os culpados.

Penso em como uma Universidade pode querer ensinar coisas que nem ela mesma aplica. Na USP Leste, entre os 10 cursos, estão o de Gestão de Políticas Públicas (GPP) e Gestão Ambiental. A problemática toda é justamente um grave erro de Gestão Pública que ocasionou um terrível problema ambiental. Ainda que não estejamos falando da arcaica maneira como a USP é administrada, com seu estatuto da época da Ditadura Militar, extremamente antidemocrática e corrompida, uma vez que a Universidade não presta contas ao Tribunal de Contas do Estado. Isso mesmo: tudo o que se faz nos cofres da USP, meus caros, não passa pela prestação de contas (accountability), como aprendemos nas primeiras aulas de GPP. O orçamento de R$ 4 bilhões ao ano, de acordo com a reitoria, parece não ser suficiente para bancar a descontaminação do campus, que custaria em torno de R$ 20 milhões. Para aonde vai todo esse dinheiro, fruto do ICMS do contribuinte brasileiro?

Os sentimentos de insegurança, dúvida e descrença no Estado passam pela cabeça de todos os estudantes da USP Leste. Não confiamos em relatórios tendenciosos que “garantem” a nossa saúde no campus e não acreditamos que a reitoria e o Governo do Estado tomarão as medidas necessárias para a recuperação total da EACH. “E agora?”. Essa é a pergunta que ronda nossas mentes. Estudar na EACH atualmente é uma grande lição de cidadania e luta por direitos, ao passo que também é uma vitrine dos problemas que ocorrem por trás do nome da tão aclamada instituição pública chamada Universidade de São Paulo.

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