“Não estamos pedindo o Mato Grosso do Sul inteiro, só a terra que é nossa”

Ladio na USP

A liderança Guarani Kaiowá, Ládio Verón, em debate realizado na USP (Foto: Laysa Elias Diniz)

Por Isabel Harari

A quem pertence a posse da terra no Brasil?

Em debate realizado na USP na última segunda feira (7), Ládio Verón, liderança Guarani Kaiowá, tentou elucidar a questão acima. Segundo ele, a situação dos povos indígenas no Mato Grosso do Sul é o reflexo do projeto desenvolvimentista vigente hoje, sendo levado à toque de caixa por políticas públicas nacionais e aplaudido pelas elites econômicas brasileiras.

O famigerado “integrar para não entregar” não ficou restrito à região amazônica, o processo de ocupação territorial se estendeu por todo o país. As estradas, hidrelétricas, fazendas e usinas passaram por cima de quem estivesse no caminho do “desenvolvimento”. Estima-se que no século XVI haviam mil povos indígenas, número que caiu para 242 em 2014.

Hoje existem 677 Terras Indígenas (TI) no Brasil, estejam elas em processo de identificação, declaradas ou homologadas. Ao todo ocupam 111.523.636 hectares, 13% do território nacional. Ládio explica que a luta é pela retomada dos territórios originários e não por pedaços de terra espremidos entre rodovias e latifúndios: “a gente não quer terra só pra ficar por cima dela, a gente quer terra pra plantar. E a terra que a gente tá pedindo é sagrada, aonde viveram e estão enterrados os nossos ancestrais. A gente não tá pedindo o MS inteiro, a gente tá pedindo aquela terra que é nossa, isso eu falei pro governador [André Puccinelli (PMDB), reeleito em 2012]”.

A reivindicação pela demarcação e homologação das terras indígenas gera uma reação violenta por parte de quem as detém. Hoje a TI Dourados é a que contabiliza o maior número de ocorrências de violência contra a pessoa fora da Amazônia Legal entre 2010 e 2014, segundo dados contabilizados pelo ISA (Instituto Socioambiental). Nesse período foram registrados 65 casos, entre eles: 14 de agressão, 22 homicídios, 15 tentativas de homicídios e seis episódios de violência sexual. As quatro TIs que seguem Dourados, TI Amambai, TI Caarapó, TI Yvy Katu e TI Aldeia Limão Verde também estão localizadas no Mato Grosso do Sul. Entre 2003 e 2012, 285 lideranças foram assassinadas no MS.

O preconceito direcionado aos indígenas é realidade no município de Dourados. Segundo Ládio não se pode andar de cocar, de cara pintada nem de colar, “não pode entrar em restaurante, tá lá a plaquinha redonda ‘proibida a entrada de indígenas’”. No que diz respeito às lideranças, essa ofensiva é ainda maior: “não dá pra liderança indígena ir para o hospital quando adoece. Aconteceu com o Adélio, uma liderança da aldeia Pyelito Kue, aplicaram injeção porque ele tava com febre, mas não era injeção, era veneno”.

A espiral de violência acompanha a explosão do número de usinas no estado. Em 2007, o então presidente americano George Bush travou um acordo com Lula para estimular o crescimento do setor de biocombustíveis, dentre eles o etanol. Hoje existem 34 usinas de cana no MS, 15 localizadas em cima de TIs. “Já pedimos mais de dez vezes pra presidenta Dilma nos receber. Ela não recebeu nenhuma liderança indígena, mas o agronegócio… Ela abre com a mão cheia. Pra vender as nossas terras e do Brasil, é rápido. Pra colocar empreendimento em cima da nossa terra é rápido. Acho que tem que mudar. Chega de nos oprimir”, colocou Ládio.

A exploração da mão de obra indígena utilizada na cana é uma realidade no estado. Ládio contou que, antes do advento das máquinas de cortar cana, saíam todos os dias quarenta ônibus lotados em direção ao canavial: “começa às seis da manhã e vai até cinco da tarde. Hoje tem vários índios que não conseguem trabalhar nem pra carpir em volta da casa, porque tá com desgaste físico”.

Em estudo realizado durante a sua estadia na universidade, Ládio contabilizou o número de machetadas realizadas pelos trabalhadores durante o dia. Junto com a equipe, colocou um sensor no instrumento de trabalho e contabilizou 25 mil machetadas realizadas por um indígena no seu primeiro dia de serviço. Outro trabalhador, há mais tempo no ofício, fez 12 mil machetadas/dia. Verón diz que de 25 mil, o número cai para sete mil em uma semana. “Aí a usina aplica esse soro e volta toda a energia. Mas quando passa de 25 anos, vai pra 30 anos de idade, não presta mais. O braço, os nervos ficam que nem osso, duros, o soro faz isso. Tem índio lá que não consegue mover o braço. Pra ficar assim demora mais ou menos quatro ou cinco anos. A usina não dá o suporte depois. É uma mão explorada, até a última”, denunciou Ládio.

Os agrotóxicos utilizados no combate às pragas e na otimização do crescimento da cana são frequentemente depositados nos rios próximos às aldeias, seja por meio do solo ou das nuvens de veneno advindas dos aviões que pulverizam as plantações. A contaminação das águas gera doenças na população e mata os peixes e vegetação das proximidades.

A violência direcionada aos indígenas no contexto da ditadura militar permanece encaixotada até hoje. Estima-se que existam 600 mil páginas de documentos que dizem respeito às violações aos direitos indígenas, destas, apenas 7 mil vieram à tona (através do Relatório Figueiredo, disponível neste link). Não se sabe ao certo o número de indígenas afetados pelo regime militar, a Comissão Nacional fala em oito mil mortos, estimativa que pode variar de forma expressiva de acordo com a fonte em questão. A ofensiva contra os indígenas correu o país com o aval do projeto desenvolvimentista e interesse geopolítico das regiões ricas em minérios ou estrategicamente interessantes para a cúpula militar. Diversas populações foram afetadas; Waimiri Atroari no Amazonas, Krekak em Minas Gerais, Kaingang no Paraná, Yanomami em Roraima e os Guarani na região sul. Ou praticamente exterminadas, como no caso dos Kanoê e Akuntsu, ambos localizados em Rondônia.

Os documentos que poderiam comprovar a brutalidade dirigida a essas populações permanecem em caixas. Será que essa invisibilidade vem acompanhada de uma intenção política? Que violência é essa que ninguém quer falar? “O governo tá repetindo esse passado. Temos uma repetição cotidiana das violências cometidas aos povos indígenas na ditadura”, explicou Marcelo Zelic, do Grupo Tortura Nunca Mais, na ocasião do lançamento da campanha “Índio é Nós” no sábado (5).

“O MS é o campeão de matar liderança indígena. Eu não sei até onde isso vai parar, mas tem que parar, com a pressão do povo isso tem que parar. Isso eu falei pro ministro: se você não achar uma solução e demarcar as nossas terras, então cava um buraco enorme, chama todo mundo, toda imprensa, e mata todos nós e joga lá, enterra e acabou o problema pra você’”, desabafou Ládio.

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