A casa que é de todos e não é de ninguém

Por Carolina Piai e Isabella Amaral

O Ateliê Compartilhado, fruto de ocupação realizada no final de fevereiro em casarão no centro de São Paulo, já se tornou referência como espaço de discussão e criação artística

(Foto: Isabella Amaral)

(Foto: Isabella Amaral)

Ao descer a Rua da Consolação, já passado o cemitério, avista-se um casarão amarelo na esquina com a Rua Visconde Ouro Preto. Em algumas janelas, estão bonecos gigantes, como os do carnaval de  Olinda. Na frente do portão, que fica na Visconde e nunca está trancado, estão caçambas de lixo. Num fim de tarde, um casal sai da casa, pega algumas caixas de madeira da grande comporta e traz para dentro. Elas serão destinadas ao novo laboratório de serigrafia.

Entrar na casa, na companhia dos dois jovens, é como descobrir um poço de arte. A iluminação é providenciada por lâmpadas bambas, que ora ou outra falham. Ainda assim, no caminhar entre estreitos e inúmeros corredores, conhece-se pouco a pouco o interior da grande casa. No desenrolar de suas escadas caracóis, alcança-se os mais diversos andares – são tantos que se perde a conta. E, assim, os 27 cômodos se tornam familiares.

Na primeira sala, três pintores percorrem suas telas ao som de um bom jazz. Mais alguns passos e há um grupo de teatro, em ensaio. A diante, outro grupo teatral. E então um de dança. Enquanto isso, uma mulher descontraída passa por ali e faz o convite: “Amanhã darei aula de Ioga, hein. É ali no segundo andar, de graça, claro”. Não faltam planos para as salas que ainda estão desocupadas: “Queremos fazer um laboratório de foto e um de serigrafia”, afirma Monge, artista plástico que está na chamada Casa Amarela desde sua ocupação em, 20 de fevereiro deste ano. “Isso aqui é massa porque são processos compartilhados. A gente ta passando, vê alguém pintando um quadro que te dá uma referência e você já pode incorporar isso no seu trabalho”.

(Foto: Isabella Amaral)

(Foto: Isabella Amaral)

O Ateliê Compartilhado, que fica na Casa Amarela, surgiu há pouco mais de um mês. A ocupação foi pacífica: cerca de 200 pessoas saíram em cortejo do Teatro do Incêndio em direção à casa, entraram pelo portão – que estava aberto- e deram vida ao espaço, abandonado há 11 anos . “A gente mostra que esta casa é muito mais útil aberta, ocupada por pessoas, do que fechada” conta Monge. “Como é um patrimônio tombado, nos preocupamos em manter da melhor forma e recuperar o que puder”. Logo no primeiro dia os artistas realizaram mutirões de limpeza e manutenção do espaço: tiraram lodo das paredes, consertaram telhados, desentupiram calhas e ralos, chamaram o controle de zoonose. Agora, eles trabalham em uma horta orgânica e em uma programação cada vez mais elaborada.

“Sentíamos a necessidade de um lugar onde os grupos pudessem ensaiar, deixar seus figurinos e equipamentos e dialogar com a população”, conta Dorberto Carvalho, integrante do Movimento de Ocupação dos Espaços Ociosos. O coletivo, que existe há três anos, pretende criar novos ateliês e já tem alguns outros casarões mapeados. Dorberto, que é ator, explica a situação da classe hoje em São Paulo: “Os equipamentos culturais do Estado, por exemplo, são passados para as Organizações Sociais. Em alguns desses lugares, os grupos precisam pagar para ensaiar. Ou seja, é uma privatização branca do espaço público”.

A Casa Amarela vem para suprir essa necessidade. Lucas Beda, ator da Cia. Mungunzá de Teatro, que usufrui do casarão como local de ensaio, comenta que uma das propostas da ocupação é que os artistas sempre preparem algo para o público local. “De uma forma ou de outra, assim, todo mundo vai abrir suas portas. Para o artista é importante desenvolver o trabalho junto com o público porque, às vezes, os espaços de produção fechados impedem o diálogo com a plateia”, explica. A ocupação, que pretende se tornar um pólo cultural na capital paulista, é completamente aberta tanto ao público quanto a artistas que queiram usar o espaço para trabalhar.

(Foto: Isabella Amaral)

(Foto: Isabella Amaral)

Atualmente, o imóvel pertence ao INSS, mas há uma negociação para que a Prefeitura de São Paulo tome posse do espaço. “A gente está no limbo. Eles não podem entrar com pedido de reintegração porque estão negociando com a Prefeitura. E a prefeitura não está pedindo reintegração porque não é dela”, comenta Dorberto. Há, inclusive, planos para que o espaço se torne oficialmente um centro cultural.

Enquanto isso, o ateliê se mantém de pé através de doações e projetos de financiamento direto das cooperativas de teatro que prevêem verbas para espaços de ensaio. Mas o que faz o espaço funcionar de fato são as contribuições de quem passa pela Casa Amarela. “Acho que é muito importante o olhar e a atenção que a casa recebe. É tudo colaborativo, quem vem visitar às vezes vê que ta faltando um liquidificador, por exemplo, e traz um”, relata Ruana, também artista plástica. Em pouco mais de um mês de ocupação, mais de 2500 pessoas e 800 horas de atividades passaram pelo Ateliê Compartilhado. O portão continua aberto a novos olhares, novas criações e novas artes.

Ocupa, ocupa você
Ocupa, ocupa você também
Ocupa você também, a casa é de todos, não é de ninguém

(trecho da marcha de carnaval do bloco de carnaval “BLOCOCUPA VC TAMÉM”)

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s