A resistência das comunidades quilombolas no Jalapão

No Tocantins, as comunidades do Mumbuca e do Prata lutam para preservar sua história e conquistar seus direitos

Por Julia Dolce e Nana Medeiros

DSC_0064Povoado do Mumbuca: raízes escravocratas ainda gritam nos rincões do Brasil (Foto: Julia Dolce)

A cerca de 360 km de Palmas, capital do Tocantins, fica a comunidade quilombola do Mumbuca, situada no município de Mateiros. Fundada por dois casais, que segundo uma versão da história, eram descendentes de escravos, a comunidade hoje reúne 46 famílias, por volta de 100 pessoas. As casas de tijolos de barro, hoje com televisões, geladeiras e computadores, até 2001 não possuíam energia elétrica. Os moradores ainda guardam as candeias, por muito tempo sua única fonte de luz. Apesar do advento da tecnologia, Mumbuca ainda sofre com a falta de saneamento básico e com a precariedade de estradas que dificultam o acesso à outros locais. São 200 km de estradas de terra – ou de chão, como são chamadas. Em 1985 os habitantes viram pela primeira vez um carro entrar na comunidade. “O povo ficou tudo admirado”, conta Doutora, com 57 anos, uma das moradores mais antigas. Doutora leva esse apelido devido ao seu conhecimento das ervas medicinais, que antigamente eram o único modo de tratamento dos quilombolas, “não tinha médico, remédio era Deus e o cerrado”. Sete anos depois, começaram a chegar os turistas.

A comunidade se desenvolveu econômica e culturalmente através da produção de artesanato com capim dourado, atividade que se tornou símbolo do Jalapão e de todo o estado do Tocantins. A confecção das peças, que variam entre objetos de decoração e bijuterias, foi passada por cinco gerações e preservada como uma das principais atrações turísticas. Além do capim dourado, a tradição ainda inclui o uso de outros recursos naturais, como o buriti. O talo da árvore é transformado em violas que tocam a história da comunidade, em contraste com as músicas evangélicas ouvidas da única igreja do Mumbuca. Hoje, todos são evangélicos, desconhecendo – e até criticando – religiões africanas, provavelmente seguidas por seus antepassados.

DSC_0159Reunião de planejamento geral da Associação Capim Dourado (Foto: Julia Dolce)

 O Mumbuca é uma das onze comunidades quilombolas do Jalapão que lutam por seu reconhecimento, ameaçado até mesmo pela criação do Parque Estadual, em 2001, que originalmente pretendia remover as famílias com a justificativa de preservação ambiental. O reconhecimento oficial das terras ocupadas por comunidades remanescentes de quilombos é previsto pela Constituição de 1988. Apesar disso, quase 25 anos após a promulgação da Constituição, apenas 207 comunidades foram tituladas, enquanto as estimativas apontam a existência de aproximadamente três mil delas no Brasil, segundo dados do ISA (Instituto Socioambiental – ‪://www.socioambiental.org/…/temporada-de-caca-aos…‬). A coletividade é um dos valores conservados nas comunidades, o que ajuda a mantê-las e no processo de apropriação cultural e histórica. Claudiana Ribeiro, uma das moradoras do Mumbuca, quando questionada sobre a vida na cidade, afirma: “Não quero ser só mais uma na multidão”.

‘Semeando agroecologia e dignidade no campo’

No dia 19 de abril aconteceu a primeira reunião de planejamento geral para discutir demandas e propostas da comunidade. O encontro foi realizado na sede da Associação Capim Dourado, criada pelos próprios artesãos e extrativistas do povoado do Mumbuca, e facilitada pela ONG APA-TO (Alternativas para a  Pequena Agricultura no Tocantins). Segundo Doutora, a Associação foi criada em 5 de março de 2000 e para ela “foi uma vitória tremenda”. A existência de uma associação nas comunidades quilombolas é um dos requisitos para seu reconhecimento formal. É mantida por 5% da renda do artesanato do capim dourado e por financiamento de editais. Apesar de fundada pelos próprios moradores associados, conta com o apoio fundamental da APA-TO, representada no Mumbuca pelo agrônomo Paulo Rogério Gonçalves, o Paulão. Além da questão do desenvolvimento da agroecologia no campo, a APA-TO tem como objetivo formar politicamente os quilombolas, auxiliando na organização e articulação de projetos e mobilizando lideranças locais.

Durante a reunião, os habitantes, divididos em grupos, debateram tópicos como infraestrutura, educação, saúde, cultura e a própria gestão da Associação. Uma das principais demandas do grupo dos jovens foi a necessidade de professores capacitados para falar da cultura quilombola dentro da escola da comunidade – que hoje vai até a oitava série. O fato dos estudantes terem que deixar a comunidade para dar continuidade aos seus estudos, justifica a proposta de uma educação atenta à cultura quilombola, promovendo o desenvolvimento local.

A questão das cotas quilombolas

“Na Universidade, de cara, a gente se sente intimidado” – Maria Aparecida Sousa, moradora da comunidade quilombola do Prata (cerca de 40 km do Mumbuca).

A história de Maria Aparecida, ou Cida, como é chamada, ilustra bem as dificuldades dos quilombolas no que se refere a educação. Na comunidade do Prata a escola vai apenas até a quarta série, sendo que antes de 2006 não havia ônibus escolar para o município mais próximo, São Félix, onde as crianças iam estudar. Por esse motivo, muitas delas se mudavam para a cidade e voltavam para casa no final de semana. “Eu falo para o meu filho: Ó, sua mãe, pra estudar, andava 20 km a pé”, conta Cida.

O acesso à Universidade é ainda mais difícil. Além das dificuldades no ensino, os quilombolas sofrem com o racismo e preconceito por conta de suas origens. Por esse motivo, em novembro de 2013, com apoio da APA-TO e da Coordenação Estadual dos Quilombolas, fundada no mesmo ano, conquistaram as cotas quilombolas. Segundo Cida, habitantes de diversas comunidades do Jalapão lotaram o auditório da Universidade Federal do Tocantins, ocupando o local até a aprovação das cotas pela reitoria. Além da UFT, a Universidade Federal de Belém do Pará é a única a possuir esse tipo de cotas e um vestibular específico para quilombolas. Na opinião de Paulo, a questão do vestibular deve ser a próxima luta do movimento. No Tocantins, as universidades adotarão a medida das cotas a partir do final do ano.

Os movimentos quilombolas já vinham discutindo a criação das cotas há muito tempo. Segundo Ana Claudia Ribeiro, uma das lideranças do povoado do Mumbuca e integrante da APA-TO, “a diferença é que os quilombolas são um núcleo de resistência, além de serem negros”. Essa é a justificativa para a exigência das cotas, além das raciais. A dívida histórica é dupla. Ana Claudia foi a primeira quilombola do Jalapão a entrar na faculdade, por meio do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) ela cursa Serviço Social. Além de Ana, mais quatro mulheres do Mumbuca cursam ensino superior, no caso delas, pelo EAD (Ensino a Distância). De acordo com Cida, com a conquista das cotas muitos quilombolas pretendem prestar o próximo vestibular, ela própria pensa em cursar Nutrição ou Turismo.

Sair da comunidade para estudar implica em outras questões, principalmente para as mulheres. A escravidão doméstica é uma situação vivenciada por muitas. “Nós aqui da comunidade temos o sonho de se formar, estudar, daí a gente se engana fácil”, afirma Claudiana, irmã de Ana Claudia. Famílias de classe média de cidades próximas levam meninas da comunidade para trabalhar como empregadas domésticas, prometendo estudo e salário. “Nada disso aconteceu, virei uma escrava”, conta Cida, que foi levada para a cidade de Porto Nacional aos 16 anos.

“As mulheres do Mumbuca trançam versos com capim”

DSC_0288Doutora (vestida com camisa rosa) conta as histórias do povoado (Foto: Julia Dolce)

Apesar da violência da escravidão doméstica, o povoado do Mumbuca é marcado pelo matriarcado. “As muié aqui não são fraca não”, afirma Doutora. Ela conta que desde o começo da produção de capim dourado, enquanto os homens iam em jornadas longas para trocar o artesanato por outras mercadorias, as mulheres cuidavam da roça e da casa. “Os maridão iam pra Formosa e quando voltavam as muié já tava com tudo feito”.

Dona Miúda, mãe de Doutora, foi responsável pelo fortalecimento e promoção do artesanato com capim dourado, e a partir de então, o desenvolvimento da comunidade passou a girar em torno de uma atividade feminina. “Ela era muito política, foi quem trouxe escola para a comunidade, telefone e criou a associação. Aí que começou a liderança feminina”, diz Ilana Cardoso, neta de Doutora. Na reunião da Associação Capim Dourado, as mulheres formavam uma maioria significativa, sendo uma das demandas a valorização de seu papel no povoado. Dona Miúda faleceu em 2010, com 83 anos, deixando um legado que perdura por cinco gerações. Para Doutora, “o capim dourado é uma benção fundamental”.

Outra mulher marcante, da Comunidade do Prata, é a parteira Braulina, conhecida como Mãe Tico. Com 86 anos, já realizou 201 partos, “nem filho nem mãe nenhuma morreram nas minhas mãos. Fui muito feliz porque recebi muita criança”. A prática do parto natural caseiro é uma das que se perdem dentro das comunidades quilombolas. No Prata, a última parteira foi Mãe Tico, que não exerce mais a atividade por conta da idade.

É essa e outras tradições que o movimento quilombola luta para manter. Para Doutora, “os mais novos sabem mais do capim dourado, mas tem outras coisas pra se aprender”. Parte do desafio de ser quilombola é resistir à aculturação que vem de fora e ao mesmo tempo exigir seus direitos no contexto político social atual. O Mumbuca e o Prata ilustram a força dos povoados que não desistiram de suas origens.

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