O que não está na linha fina de uma campanha

Por Carolina Piai

(Ilustração: Júlia Dolce)

(Ilustração: Júlia Dolce)

Mais um jogador de futebol foi hostilizado em campo por ações racistas. Daniel Alves, lateral-direto do Barcelona, foi a vítima da vez: jogaram uma banana nos seus pés, durante a partida com o Villarreal, no domingo, 27 de abril. No basquete, esporte com participação massiva de negros, o racismo também mostrou suas caras, de acordo com o site TMZ Sports. Segundo áudio disponibilizado no veículo, Donald Sterling, dono da equipe Los Angeles Clippers, disse para sua namorada que não queria convidados negros nos jogos do time. Foi implacável em sua afirmação, por telefone: “Se você não quer estar… andar… num jogo de basquete com uma certa… pessoa, isso é racismo?”. A opressão presente na postura do empresário se torna ainda mais contundente e ignorante quando declara: “Eu os apoio, lhes dou comida, roupas, carros e casas. Quem dá isso a eles?”. Assim, o último domingo chegava ao fim empestado de reproduções daquilo que a sociedade, apesar de estruturalmente preconceituosa, condena.

Neymar Jr. se manifestou com prontidão, ainda naquela noite, e lançou a campanha #somostodosmacacos. Referia-se, nessa iniciativa, à atitude do colega Daniel Alves, que comeu a banana atirada a seus pés. O posicionamento do lateral pode ser considerado corajoso, já o de Neymar se constituiu de forma perigosa. O primeiro passo foi a seguinte declaração, acompanhada de vídeo e foto, no seu Instagram: “tire uma foto comendo uma banana e vamos usar o que eles têm contra a gente a nosso favor”. De um dia para o outro, a campanha viralizou. Agora, celebridades como Luciano Hulk e Ana Maria Braga também têm seu nome vinculado a ela, seja por fotos em suas redes sociais, seja por mencioná-la em seu programa matinal. Além disso, estão à venda camisetas com o slogan da campanha, que foi idealizada pela agência de publicidade responsável pela imagem do ídolo santista, a Loducca.

No entanto, o que para alguns se tornou um movimento glorioso, independentemente de seu caráter publicitário, trata-se da realidade cruel vivida por tantos outros. Quando o racismo é escancarado em declarações ou atitudes evidentemente preconceituosas, como a dos dois casos do último final de semana, a população reage com espanto e repugnância. Porém, o racismo institucionalizado nunca é posto em xeque. Nesse sentido, a humanidade de – muitos – negros que relutam há anos contra termos que sempre lhes atingiram como duras ofensas pode ser vista como banalizada. Isso acontece na medida em que personagens conservadores, como Reinaldo Azevedo, que se mostra constantemente alheio a quaisquer interesses relacionados aos Direitos Humanos, apresenta-se à frente dessa causa e afirma: “Também sou macaco”. Afirmo: você não faz parte da luta antirracista.

Essa luta leva em conta os homicídios aos quais esses cidadãos estão sujeitos, no país. É lamentável que os veículos de comunicação não divulguem, diariamente, a rotina brutal dessa população. Em 2010, quase 50 mil pessoas foram vítimas de homicídio e, delas, 70,6% eram negras. O dado é do Sistema de Informações de Mortalidade do Ministério da Saúde. Segundo o documento, entre 2002 e 2010 ocorreu uma média de 30.269 assassinatos de cidadãos negros a cada ano, no Brasil. Já o número absoluto de vítimas brancas de homicídio, no decorrer desses oito anos, caiu de 18.867 para 14.047. As vítimas negras, por sua vez, cresceram de 26.952 para 34.983.

O artigo “O estigma dos três ps: preto, pobre, da periferia. A visão de adolescentes da Comunidade Heliópolis”, de Isis S. Longo, da Faculdade Zumbi dos Palmares, traz a voz de pessoas afetadas por esses números. A autora o escreveu a partir de reflexões de jovens alunos da escola EMEF Gonzaguinha a respeito de suas vivências dentro e fora da comunidade, situada na zona sul de São Paulo. Todos pretos, pobres e periféricos. Um deles, que não se identificou, relata: “Quando você é negro, como eu, e entra numa loja e todos ficam te olhando, e os seguranças já ficam pensando que você foi lá para roubar”. O estudo constata, por meio de diversos relatos, como esse racismo está presente a cada vez que se atravessa a rua, com medo, porque um garoto negro está na mesma calçada do que você. Ou uma garota, talvez não tão arrumada quanto se espera que uma moça seja, com um Black Power.

O racismo, decerto, não é apenas opressor da população de baixa renda. Garotas ricas, por exemplo, também são vítimas dele ao passarem chapinha em seus cabelos afro, pois seu cabelo é considerado “ruim”. Independentemente, o racismo constitui uma estrutura complexa, real e profunda na sociedade. Chamar alguém de macaco, atravessar a rua ao ver um menino negro e compactuar com o genocídio da população preta, pobre e periférica são atitudes que caminham juntas e que constroem um caminho tortuoso, para muitos. Sendo assim, nos posicionemos contra quem humilha o outro, ao chamá-lo de macaco. Não vamos naturalizar ainda mais o o preconceito racial, um dos pilares sociais que assola o Brasil.

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