Ônibus popular e acorrentados: extremo sul renova estratégias na luta por transporte

Moradora de Mambu, no extremo sul de São Paulo, explica: “Fizemos todos os caminhos burocráticos possíveis e ainda assim temos de andar três horas a pé para chegar em qualquer serviço público”

Por Paulo Motoryn e Thiago Gabriel

10246415_676320572424197_4778916817437934975_nMoradores de Mambu, Ponte Seca e região intensificam luta por transporte (Foto: Facebook/MPL)

A mobilização de junho de 2013 em função do aumento da tarifa do transporte coletivo na cidade de São Paulo não causou apenas um abalo no sistema político institucional, mas também contribuiu para o surgimento de novas estratégias de manifestação popular. Maior exemplo disso é a atual luta por transporte no extremo sul de São Paulo, mais especificamente na região do Mambu, no distrito de Marsilac.

Os moradores de Mambu, Ponte Seca e região – que reivindicam linhas de ônibus nos bairros, totalmente desguarnecidos pelo sistema de transporte público – dizem ter buscado novas ferramentas de protesto pelo esgotamento das vias institucionais. “Fizemos todos os caminhos burocráticos possíveis e ainda assim não conseguimos uma data para resolver o nosso problema: temos de andar três horas a pé para chegar em qualquer serviço público. Por isso que estamos fazendo os protestos”, afirma Fernanda, moradora da região.

No dia 11 de abril, a comunidade implantou de forma autônoma de uma linha de ônibus gratuita no bairro organizada pela própria população local. Os moradores afirmam que foi um protesto simbólico para provar aos políticos a viabilidade do transporte na região. A ação foi amplamente noticiada na imprensa, mas a falta de iniciativas e resultados concretos por parte do poder público motivou mais uma mobilização da comunidade.

10002983_669395273116727_3214560660420853486_nLinha de ônibus popular autônoma foi organizada por moradores (Foto: Reprodução/Facebook)

Dizendo não aceitar o silêncio da Prefeitura sobre o assunto, a população decidiu convocar o prefeito Fernando Haddad (PT) para uma reunião pública, para dar explicações e tomar medidas definitivas sobre o problema do transporte na região. Marcada para esta segunda-feira, a mobilização novamente chamou a atenção da mídia pelo mecanismo da ação direta: três moradores se acorrentaram no prédio da Prefeitura para exigir a reunião.

O ato dos moradores surtiu efeito. Apesar de Haddad não ter aparecido, o secretario adjunto de Relações Governamentais, José Pivatto; o secretario adjunto dos Transportes, José Evaldo; e a diretora de Planejamento da SPTrans, Ana Odila receberam uma comissão de manifestantes para uma reunião. Na conversa, ficou acertado que os moradores receberão em 20 dias, após a autorização da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, duas linhas com perfil rural – o que pressupõe a gratuidade da passagem (fato ainda não confirmado pela Prefeitura).

A iminência da conquista das linhas de ônibus na região não ilude os manifestantes: “É uma conquista, porém temos que esperar. Há muito tempo que estamos lutando. Agora nos prometeram 20 dias, temos que fiscalizar e, se não cumprirem a promessa, voltaremos”, afirmou Kleber Luis, integrante de um movimento que cada vez mais grita e adere às ações diretas para conquistar um transporte público que atenda às necessidades da população do extremo sul de São Paulo. Para os moradores do Marsilac, a simples existência de linhas de ônibus é o primeiro passo.

A intenção do movimento também é clara em tentar dissociar suas reivindicações das inúmeras cooptações e abordagens de políticos dos mais diversos partidos e cargos públicos. Acostumados a receberem promessas e discursos de apoio em troca de votos, os moradores agora dizem perceber o potencial de sua luta a partir de outra perspectiva: uma pressão popular para que as mudanças não ocorram atreladas aos interesses eleitorais.

Eles relembram, por exemplo, a visita do presidente da Fiesp e membro do PMDB, Paulo Skaf, que levantou a bandeira da luta pela tão desejada linha, buscando, em troca, apoio para a construção do polêmico projeto de um aeroporto na região de Parelheiros, também na zona sul da cidade. Agora, seguem negociando junto ao poder público, porém estruturam sua luta de maneira autônoma e independente.

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