A segregação do espaço urbano e o medo como estratégia política

Não à toa as comunidades mais vulneráveis socialmente se localizam nas periferias da cidade de São Paulo: trata-se de um projeto que esconde os antagonismos sociais no território, dificultando o entendimento da desigualdade social na metrópole

Por Henrique Santana

A aglomeração urbana existente nas grandes cidades se mostra, junto às políticas de abandono do coletivo em prol do individual, cada vez mais segregadora. O caos urbano acelera na medida em que as metrópoles se submetem ao processo de separação entre centro e periferias, entre pobres e ricos. Evidentemente, o processo de periferização é fruto de uma história que vem oprimindo a maior parte da população há séculos. Friedrich Engels, em “A situação da classe trabalhadora na Inglaterra”, publicado pela primeira vez em 1845, mostrou tal segregação em seus estudos acerca da condição de vida dos operários.

“Todas as grandes cidades possuem um ou vários “bairros de má reputação” – onde se concentra a classe operária. É certo que é frequente a pobreza morar em vielas escondidas, muito perto dos palácios dos ricos, mas, em geral, designaram-lhes um lugar à parte onde, ao abrigo dos olhares das classes mais felizes, tem de se safar sozinha, melhor ou pior. Estes “bairros de má reputação” são organizados, em toda a Inglaterra, mais ou menos da mesma maneira, as piores casas na parte mais feia da cidade; a maior parte das vezes são construções de dois andares ou de um só, de tijolos, alinhadas em longas filas, se possível com porões habitados e quase sempre irregularmente construídos”.

Foto: Victor Santos

Ocupação Vila Nova Palestina, na zona sul de São Paulo (Foto: Victor Santos)

Atualmente, fica claro como tal divisão se acentuou. A pobreza na cidade se afasta cada vez mais das vistas da elite, e as instituições governamentais e midiáticas, por sua vez, não se mostram interessadas em escancarar as contradições entre as diferentes classes. Hoje, em São Paulo, existem ainda alguns exemplos que destoam da tendência da periferização, nos quais a população pobre da cidade se instala de forma precária e contrastante em meio às moradias da elite e da classe média paulista. Tais casos se dão por uma série de motivos que vão desde a precariedade da locomoção entre periferia e centro, até o déficit habitacional existente na capital. Segundo levantamento feito pelo Estado de S. Paulo, o tempo gasto no percurso até o trabalho é até 163% maior para moradores das periferias.

Um caso emblemático da cidade, por exemplo, são as ocupações localizadas no centro. A ocupação Mauá, situada no bairro da Luz, se iniciou em 25 de março de 2007 e, segundo os coordenadores, soma atualmente 237 famílias, totalizando cerca de 1000 pessoas. O prédio estava há 20 anos abandonado antes da ocupação. Mesmo assim, o proprietário do edifício não titubeou e, uma semana antes do processo de usucapião se efetivar, entrou com um mandado de reintegração de posse na justiça. No caso específico da Mauá, o pedido de reintegração foi barrado, e em março desse ano a Prefeitura de São Paulo anunciou a desapropriação do imóvel. No entanto, tal medida só se concretizou devido aos anos de luta dos moradores e das frentes de organização que atuam na região.

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Ocupação Esperança: resultado da política de habitação (Foto: Victor Santos)

Além das questões relativas à especulação imobiliária, a falta de transporte público na madrugada, a Lei do Psiu e a chamada Lei do Pancadão, regulamentada em janeiro desse ano, contribuem para uma exclusão cada vez maior daqueles que não vivem no centro expandido de São Paulo. Junto a isso, a grande mídia, sensacionalista, com seus Datenas e Marcelos Rezendes, instaura na sociedade uma sensação de medo que adentra nossas mentes, formando uma população cada vez mais fechada em suas casas.

O Psiu fecha os bares cedo, regrando a cultura de boteco: vá a um bar perto de sua casa, volte cedo e pegue um táxi. Comportamento padrão a ser seguido pelo bom frequentador. A falta de transporte na madrugada e a Lei Seca castram a locomoção pela cidade e a Lei do Pancadão reprime os momentos de entretenimento dos jovens das periferias que, visto a falta de opções, instalam suas festas nas ruas.

Em um processo de gradativa restrição ao direito de lazer, a proibição às festas de caráter popular mostra-se parte de um cerceamento da liberdade das populações destas comunidades. As periferias, que já não usufruem de muitos espaços públicos como praças, centros culturais e casas noturnas e é cada vez mais impossibilitada de se locomover para o centro, vê na ocupação da rua uma alternativa à consolidação de festas e locais de socialização. Os pancadões nas ruas são momentos de festa, troca de idéias e descontração, isso é um direito da população que não pode ser negado pelo Estado, legitimando a proibição por uma suposta manutenção da ordem pública.

O viés político de tais medidas, junto ao suporte da mídia, tem como objetivo a instauração de uma São Paulo regrada e disciplinada, onde a população é gradativamente despolitizada, segregada e amansada. A segregação do espaço urbano dificulta o entendimento do mundo desigual em que vivemos. Aqueles que estão no centro não se dão conta dos abismos sociais existentes na relação com a periferia. É função dos movimentos de resistência lutar contra isso, nadando contra as correntes que levam à construção de muros nas cidades, resistindo às imposições sociais repressoras e lutando contra a mídia monopolista.

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2 responses to “A segregação do espaço urbano e o medo como estratégia política

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