Dexter fala sobre cárcere e racismo: ‘Fui salvo pelo rap. Poderia ter sido assassinado’

Por Guilherme Almeida

Marcos Fernandes de Omena se apresenta como mais um dos milhares jovens negros salvos pelo hip-hop no Brasil. No fim de sua adolescência pobre no Jardim Calux, na região do ABC, a música “Pânico na zona sul”, dos Racionais Mc’s, foi o chamado que despertou sua consciência e uma nova personalidade. Marcos se transformou em Dexter. No cárcere, onde ficou 13 anos e três meses, fundou o grupo 509-E, que mesmo do lado de lá dos muros do Carandiru atingiu um público enorme. O Oitavo Anjo coordenou o projeto educativo Como Vai Seu Mundo, que ajudou cerca de 380 pessoas a se reinserirem na sociedade.

Há pouco mais de três anos como homem liberto, Dexter está focado na carreira. O DVD “Dexter e convidados – A liberdade não tem preço” será lançado logo depois da Copa do Mundo.

IMG_3931Dexter recebeu a reportagem da Revista Vaidapé (Foto: Matheus Bagaiolo Raphaelli)

Confira a entrevista exclusiva:

Revista Vaidapé: Como você começou no rap?

Dexter: Olha, veja bem, quando eu ouvi ‘Pânico na zona sul’, dos Racionais MCs, com 17 anos. Naquele exato momento a música mapeou tudo pra mim. Porque falava de uma realidade que eu também vivia lá em Diadema, e o Brown cantava sobre o Capão Redondo, na zona sul de São Paulo. Além de me identificar com a batida teve a ideia também. Foi um chamado pra mim, uma convocação mesmo. Assim como aconteceu comigo, aconteceu com milhares de jovens na década de 1990. Quando eu ouvi “Pânico na zona sul” eu entendi que existe responsabilidade e que eu tinha a minha pra tentar mudar aquela realidade. Foi como se alguém entrasse e acendesse a luz, eu comecei a ver as coisas. Aquela cartilha do hip-hop a qual me referi me disse o seguinte: se você quer ser bem sucedido no rap, vá estudar. Foi o que eu fiz e hoje estou vivo e dando essa entrevista.

VDP: Grandes nomes do rap, como o Racionais Mc’s, se mantiveram longe do foco da mídia por muito tempo. Vivemos um momento que o rap tem mais exposição. Qual é sua opinião sobre isso? A exposição é boa ou ruim?

DXT: Sempre existiu essa ideia de não ir até a mídia por parte de alguns grupos, e isso até funcionou bem… pra eles, morô? Eu nunca disse que não tinha que ir em determinado lugar. Eu sempre disse que a gente tem que tomar cuidado onde vai. Acho que são duas coisas diferentes. É obvio que, com o tempo, tudo se molda e as pessoas vão se adaptando e as novas pessoas tomam novos rumos. Eu nunca disse que isso não deveria ser feito. Eu digo que deve ser feito em determinados lugares, ou seja, aqueles que respeitem nossa música e nossa cultura, certo? Eu já recebi diversos convites pra ir em diversos programas e não fui, porque não achei que esses programas iriam tratar minhas músicas com seriedade. Tem uns outros que vão, talvez eles queiram aparecer não importar onde ou eles querem mesmo divulgar a nossa cultura.

VDP: Quem canta rap tem uma responsabilidade intrínseca de representar a cultura?

DXT: Mano, o rap é uma música diferenciada. Quem está no hip-hop conhece uma cartilha, ou pelo menos deveria conhecer. Existem alguns regimentos, não é nada obrigatório. A primeira coisa é ter respeito por essa cultura que salva vidas. O rap é a única coisa que reúne as pessoas pra falar de consciência, de autoestima, política social e racial. Enfim, é uma música feita do povo para o povo. Nós queremos a tão sonhada revolução das pessoas. Eu, a princípio, acredito na revolução mental das pessoas. Por isso que faço rap, porque acredito nele como válvula de escape para a juventude que se envolve com o crime e com a ostentação doutrinada pela televisão. Eu sou um jovem que foi salvo pelo rap, morô? Se não fosse a cultua hip hop na minha vida eu talvez não estivesse aqui dando essa entrevista. Provavelmente já seria mais um a ser assassinado pela polícia ou pelo próprio crime, pelas drogas, não sei. Eu tenho uma responsabilidade muito grande.

VDP: Alguns nomes se projetaram de alguns anos pra cá, como Emicida, Projota e Rashid. O rap é bem representado por essa nova escola?

DXT: A gente faz rap. Cada um faz do seu jeito. Eu acho que o rap é bem representado por quem sempre representou. Eu jamais vou cortinar meus irmãos. Os Racionais estão ai, o MV Bill tá lançando EP agora. Eles representam muito bem, e são nomes já consagrados. Acho que tem gente que tem que comer muito mais que um quilo de sal, tem que entender a real proposta do rap. Tem muita coisa que eu não concordo, sinceramente. Cada um é cada um e responde por aquilo que faz.

VDP: A discordância está no teor das letras?

DXT: É. Tem letrinha muito besta por ai. O rap perde sua essência. Por eles, não por nós. Sai fora, jão! O rap é outra fita; é informação, comunicação, é diversão também, mas tem limite. Por isso eu digo que o rap é bem representado por quem sempre representou. Tem gente que ganha dinheiro fazendo um rap bestinha aí. Nós é outra fita, somos a raiz do bagulho.

VDP: O que você acha do funk ostentação?

DXT: Irmão, eu estive na liga do funk esses dias a convite do Marcelo Galático. No meio das trocas de ideias com os jovens lá eu falei que o rap também incentiva as pessoas a terem as coisas, mas de uma forma leal, morô? O rap ensina que você pode ter as coisas estudando, correndo atrás de uma forma legítima e que não te prejudique. Inclusive eu me surpreendi que os jovens de lá me disseram que esses grandes nomes que estão na TV dizendo quantos carros, motos, peças de ouro e mulheres têm, não os representa. E me disseram que eu represento, que o Brown representa, que o Bill representa, que o GOG representa e esses artistas famosos não. Eu achei curioso e procurei entender. Percebi que está muito mais enraizado a ideologia do hip-hop do que a da ostentação, é engraçado. Ao mesmo tempo fiquei feliz por me deparar com essa realidade. Voltando na questão da responsabilidade, quem canta uma música de ostentação também tem a sua. Eu tenho certeza que a música influencia, porque pra mim foi uma influência.

IMG_3937Dexter cobra jogadores de futebol: ‘Os fãs deles estão nas periferias’ (Foto: Matheus Bagaiolo Raphaelli)

VDP: Você tem algum ídolo?

DXT: Irmão, vou te falar uma fita, conheci um cara que chama Malcom X. No dia que eu assisti o filme sobre esse cara minha vida mudou. A história dele é parecida com a minha. A história não transformou só o Marcos Fernades de Omena em Dexter, mas transformou vários outros jovens, em especial os negros, em homens e mulheres diferenciados. É um cara que lutou muito pelo povo preto e nos ensinou muito. Eu tenho o Malcom como referência, assim como tenho o Zumbi [dos Palmares], Martin Luther King, MV Bill, Mano Brown, Edi Rock…

VDP: Você acompanhou o caso de racismo com o jogador Daniel Alves e a repercussão, o que acha da polêmica do somos todos macacos?

DXT: Acho que a gente não deve se manisfestar só quando acontecem esses casos. Todo homem e mulher negra deve ter em sua consciência a todo instante de quem é. Não é só quando o Daniel Alves e o Tinga sofrem racismo que tem que se manifestar. Eu sou a favor do manifesto diário, morô? Isso serve também para a gente parar de acreditar nessa palhaçada de que no Brasil não existe racismo. No nosso país isso é um ponto crucial, é um problema que existe, morô? Vivemos uma falsa democracia racial. A maioria dos nossos ainda mora nas favelas, não aparecem nas capas de revista, em papeis qualificados na TV. Nosso povo se destaca no futebol e na música. Então eu gostaria que os jogadores falassem mais disso. Porque os fãs deles estão lá na periferia e gostam de imitar os dribles e comprar as camisetas com o número deles. Então eu gostaria que eles também estudassem sua cultura e falassem sobre ela, certo? O nosso povo precisa saber do seu real valor. Sobre o Neymar ter usado a palavra macaco: ele usou uma metáfora, quem não entendeu também…

VDP: O que está acontecendo agora na sua carreira?

DXT: Finalizamos o DVD que foi gravado em comemoração aos dois anos de liberdade. O título é “Dexter e convidados – A liberdade não tem preço”. O subtítulo é nome de uma música minha com o Edi Rock. Algumas são inéditas e outras já são do meu repertório. Não tem como eu fazer um show e não cantar “Saudades mil” e “Oitavo anjo”. Também tem coisa que vou gravar no meio do ano para sair no fim de 2014. A Copa atrapalhou o planejamento porque nesse período só vai se falar disso e vai ofuscar qualquer outra coisa. A gente decidiu lançar entre o dia 25 e 30 de julho e o show de lançamento no dia 31 de agosto. Aí já comemora meu aniversário (17) junto. O show de lançamento é uma réplica do DVD, com os mesmos convidados.

VDP: Você acha que o sistema carcerário do Brasil está em crise?

DXT: Não está em crise. Ele não recupera ninguém, isso é uma coisa. Mas não dá pra dizer que ele está em crise porque ele foi criado para funcionar exatamente como ele funciona. Se ele foi criado para excluir então também não vai funcionar para reintegrar. O indivíduo que se encontra preso tem que se autoressocializar nas nossas prisões. Porque o sistema não investe nesse tipo de coisa. Até se falou em um ou dois projetos, mas o Governo do Estado não quer levar isso pra frente. Abaixo Geraldo Alckmin, fi! Ele só investe na repressão. O ser humano custa dinheiro. Me parece que os gastos com os adolescentes da Fundação Casa são em torno de 9 mil reais por mês. Então espera aí. Porque não se investe assim na educação dessas pessoas? Eu acredito que o investimento na educação pode ser a salvação para essas pessoas. No sentido de que o sistema foi feito para encarcerar as pessoas, ele vai muito bem, mas no sentido de ressocializar depois de cumprida a pena já é outra história. É até ruim usar esse termo. Como falar em ressocialização pra quem nunca foi socializado?

VDP: O que pode ser uma saída?

DXT: Na maioria dos casos estão presas pessoas que poderiam cumprir penas alternativas. Isso seria uma forma de desafogar o sistema e reeducar as pessoas de outra forma. Nem todo mundo que rouba um botijão de gás merece ir pra cadeia, mas quando o Datena fala ele bota todo mundo no mesmo balaio. Quase todos estão lá a espera de uma oportunidade. A grande maioria não quer a comida ruim e nem os ratos da caixa d’água. A prova disso é nosso projeto “Como vai seu mundo”, que teve uma duração de dois anos e meio. Começamos com umas 20 pessoas, quando o projeto foi obrigado a terminar – o judiciário encerrou esse e outros projetos por causa de conflitos entre crime organizado e segurança pública – nos tínhamos mais de 380 reeducandos. Se numa cadeira de 550 pessoas, quase 400 participam de um projeto, quer dizer que o que falta é oportunidade pra eles.

VDP: Como você escolhe as pautas políticas com que se envolve, como a campanha contra as revistas vexatórias?

DXT: São pautas humanistas, morô? Eu passei pela prisão, eu sei quanto dói ser revistado pela polícia e pelos funcionários dos presídios. No presídio tem a cultura do 8 ou 80. Tem o funcionário 8, aquele que te respeita porque te vê como uma pessoa também. Mas tem o 80, que já vem com um cano de ferro e se você peitar ele, toma canada e vai pro castigo. Eu sei como ser recebido por pessoas mal informadas, mal treinadas, que ganham pouco, que não são indicadas pra esse tipo de trabalho. Além de tudo, tem a experiência da minha mulher que me acompanhou 12 anos dentro da prisão. Muitas vezes ela já entrou chorando porque foi humilhada logo na entrada por mero capricho. O preso já está lá pagando sua pena. Por que o familiar tem que sofrer ainda mais? Eu acho que todo mundo deveria se envolver. São coisas que me estarrecem como ser humano.

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4 responses to “Dexter fala sobre cárcere e racismo: ‘Fui salvo pelo rap. Poderia ter sido assassinado’

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