Pelo ‘direito ao corpo’, artista faz performance sobre violência contra a mulher

Por Larissa Machado

registro larisIntervenção artística remete à violência de gênero (Foto: Larissa Machado)

Toda vestida de preto, para no meio da multidão. As bocas continuam abrindo e fechando ao redor, em alto volume. Quase esbarrando uns nos outros, ninguém se percebe. Melhor: se vê, mas se ignora. A mulher começa a gritar. Alguns olham de relance e mantém a constância sonora, aumentando o descaso e a voz. “Maria! 23 anos. Júlia! 30 anos. Clarisse! 25 anos. Laura! 9 anos. Nove. Nove anos.” Cinco ou seis pessoas se aproximam. “Joana! 45 anos. Paula! 17 anos”. Pés quase chutam aquele corpo que se contorce de dor. De dor externa, de dor do outro, de uma opressão desde sempre naturalizada.

É nesse ambiente caótico, no saguão da Faculdade de Comunicação da PUC-RS, que a artista Florido apresenta sua performance sobre a violência contra a mulher. Com uma linha negra, vai amarrando as mãos e desenrolando palavras. Gritando através do movimento corporal, lembra-se dos nomes de vítimas de estupro no Brasil no último ano. O ato de chamar a identidade das abusadas, com batom borrado e descabelada, vai dando ares de realidade à situação. E que poderiam , de fato, estar acontecendo simultaneamente àquela imitação artística do cotidiano.

registro laris IIArtista Florido afirma que intervenção é um pedido de mudança (Foto: Larissa Machado)

No Brasil, 50 mil mulheres são abusadas por ano. Segundo a artista, a performance nasceu do incômodo e da crença no respeito e na justiça. Por um fim à indiferença que se materializa num silêncio disfarçado de barulho. Indiferença à cultura do estupro, que ri de piadas machistas, que fala que mulher de roupa curta tá “pedindo para ser estuprada”, que não faz nada com a violência da porta ao lado porque em briga de casal “não se mete”.

Somos estupradas pelo nosso silêncio. 50 mil sentiram fisicamente a lança de indiferença que nos é cravada diariamente. Florido reafirma: “Devemos nos conscientizar, cada dia mais, sobre o direito e o poder que temos, cada um, sobre nossos próprios corpos. Um movimento violento, de resistência, de pedido de mudança. Na busca da transformação de uma cultura.”

Florido estará novamente com o “Ato – 50000 Mulheres”, no Projeto Ateliê Compartilhado, na ocupação cultural Casa Amarela, em São Paulo, no dia 16, às 19 horas. A casa ocupada fica localizada na Rua da Consolação, 1075 – Centro – SP. Dessa vez, a artista promoverá uma roda de conversa após a performance. Quem desejar conhecer mais do seu trabalho, pode acessar a sua página no Facebook.

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