Em 15 anos, haxixe ganha espaço e clientes fiéis no mercado ilegal de São Paulo

Há menos de duas décadas, a droga era retratada na mídia como exclusiva de imigrantes. Hoje, é cada vez mais forte no mercado ilegal e circula das biqueiras aos bairros nobres. Alguns jovens da elite já abdicam da maconha: são os haxixeiros

Por Nonatio Ralama

Jovem paulistano enrolando um baseado de haxixe (Foto: João Miranda)

Jovem paulistano enrolando um baseado de haxixe (Foto: João Miranda)

Forte e caro, mas cada vez mais presente no território paulistano, o haxixe se popularizou de forma gritante entre a juventude da cidade de São Paulo nos últimos anos. Considerada droga de “playboy”, o hash, segundo usuários, agora é comercializado em grande parte das biqueiras da cidade e seu uso também é cada vez maior entre as diferentes classes sociais. Cenário oposto ao de 15 anos atrás, quando era retratada na mídia como droga de imigrantes.

Em matéria publicada no ano de 1999, pelo portal “Terra”, Ivaney Cayres de Souza, titular da 5ª Seccional da Polícia Civil e ex-chefe da Divisão de Investigação sobre Entorpecentes do Departamento de Narcóticos (Denarc), disse que os “haxixeiros” da época eram em maioria imigrantes japoneses e árabes que já vinham viciados, além de brasileiros que viajavam para o exterior e voltavam dependentes da droga.

O haxixe é uma substância extraída da Cannabis Sativa, nome científico da maconha. Sua extração ocorre através do kief (tricomas da planta) por diversas maneiras: álcool, peneiramento e gelo estão, segundo os haxixeiros, entre os mais utilizados. O haxixe extraído pelo gelo é bem conhecido entre usuários da classe média, um verdadeiro xodó de um pequeno grupo de jovens: intitulado de Ice-O-Lator ou Bubble Hash, a variedade chega a ter mais de 50% de THC dependendo da planta do qual foi extraído. Os usuários chegam a pagar 80 reais por grama do produto.

Por outro lado, enquanto a juventude da elite paulista se delicia com as diferentes variedades, o haxixe encontrado nas camadas mais desvalidas da capital provém de desconhecido modo de extração. A droga é misturada com outras substâncias para que as porções ganhem quantidade e, consequentemente, percam qualidade. O preço de oferta é reduzido e a demanda aumenta.

Sendo assim, o haxixe se configura como mais uma questão relevante à saúde pública na cidade, em função da variação da qualidade ofertada aos usuários. O que antigamente era exclusivo de uma pequena parcela da sociedade, agora já se espalha entre as diferentes classes econômicas, porém com qualidades distintas. As remessas de haxixe vêm das mais diversas regiões: Paraguai e Espanha são alguns dos exemplos dados pelos usuários.

Haxixeiro de classe média, Ronbson* é símbolo de um fenômeno social: jovens que estão abdicando do consumo da “maconha prensada” para degustar apenas a pureza e a diversidade dos haxixes. “A qualidade da maconha vendida em São Paulo é vergonhosa, uma mistura de mofo com amônia é o que a maioria dos maconheiros está tragando por falta de opção”, contou entre um trago e outro do seu haxixe marroquino, apelidado de “crema” pelo usuário.

Segundo Ronbson, as “cremas” variam de preço entre 35 e 80 reais por grama, “o que não é acessível para a maioria dos maconheiros”, constata. O haxixeiro contou que a qualidade e o preço do hash variam de acordo com a sua procedência. “O hash que vem do Paraguai costuma chegar a 15 reais por grama, mais a qualidade não é das melhores”. Quando perguntado sobre a qualidade da droga vendida nas biqueiras, o usuário ironizou: “O ‘crackinho’? Aquilo é tudo, menos haxixe”. Ronbson ainda relatou gastar em média 350 reais por mês com haxixe.

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Autointitulado “maconheiro de biqueira”, Zé Menino* não dispensa o “bom e velho verdinho”, mas também enxerga um volume cada vez maior de haxixe circulando pelas bocas de fumo. Segundo ele, as bolinhas de aproximadamente um grama saem por R$ 10. Muitos de seus amigos já aderiram à filosofia de Ronbson: só fumam haxixe, mas ele nega o ritual. “Mano, eu vou ali comprar um chá [maconha] no quintal da minha casa, barato e chapa”, contou orgulhoso. O estudante revelou gastar entre três e cinco reais por grama.

Quanto ao haxixe, segundo Zé Menino, o custo-benefício não vale a pena. “O haxixe é uma delicia, é uma pureza que muitos brasileiros não conhecem, o problema é que não é possível gastar tanto pra chapar menos. Não rende. O haxixe de biqueira nem vale a pena fumar, não sei nem do que é feito aquilo”, contou.

Ainda separando Zé Menino e Ronbson pelas suas diferentes condições econômicas, a popularização do haxixe é não apenas uma questão de saúde pública em função da qualidade do que é comercializado, mas o resultado da política de guerra às drogas, que trata o usuário como criminoso e o obriga a recorrer da ilegalidade para conseguir o seu fumo.

*Os nomes dos entrevistados para a reportagem são fictícios.

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