Traços urbanos: pixo e grafite entre a Indústria Cultural e o preconceito

Por Theo Chacon

O movimento por seus integrantes: uma troca de ideias sobre grafite, pixo, Indústria Cultural e preconceito com relação à arte urbana

Nas andanças pela cidade de São Paulo é comum se deparar com desenhos e grafias que estampam desde grandes painéis até fachadas de prédios. A capital paulista é um ícone no que se refere à arte urbana. A cena da pixação, sobretudo, é muito forte. Seguindo essa pegada mais underground da arte de rua muitos estrangeiros, ao entrarem em contato com o pixo, ficam extasiados frente a essa grafia estilizada.

É notável que o grafite está ganhando cada vez mais repercussão na mídia e, como consequência, a diferenciação entre as ações de um grafiteiro e um pixador só tendem a aumentar. Enquanto o pixo permanece como um símbolo de vandalismo, e seus praticantes considerados marginais, o grafite adquire conotação de arte, começando a penetrar no âmbito da “alta cultura”.

Nada melhor do que saber das diferenças e semelhanças, preconceitos e especulações acerca da arte urbana pela voz daqueles que estão no ‘corre’ fazendo da rua o seu local de trabalho, submetendo-se a diversos riscos para estampar o seu traço em algum lugar da cidade.

Daniel e Jozé se conheceram há pouco mais de dois anos na rua e, ao revelarem o gosto pela arte, principalmente por grafite, formaram uma união que está expressa em muitos muros da zona sul da cidade, e até mesmo em outros lugares, da zona oeste à zona norte.

Daniel (à esquerda) e Jozé (à direita) realizando os preparativos para começarem a pintar (Foto: Theo Chacon)

Daniel (à esquerda) e Jozé (à direita) realizando os preparativos para começarem a pintar (Foto: Theo Chacon)

Mês passado, numa tarde de domingo, tive a oportunidade de acompanhar um trampo dos caras na Chácara Santo Antônio, bairro próximo a Marginal Pinheiros. A dupla aceitou receber a reportagem da Revista Vaidapé para um bate-papo.

A rua era estreita e com um fluxo de carros intermitente. Mas foi nessas circunstâncias que a dupla descolou um lugar para pintar. Uma moradora do bairro autorizou a pintura de seu muro, dizendo gostar de arte e achar que “o diferente é mais bonito”. “Assim acho que fica melhor”, disse Dona Neide, apontando para Jozé – que iniciava os traços de seu desenho -, “mas se meu filho souber que eu deixei fazerem isso no muro, acho que ele não vai gostar nem um pouco”.

A senhora de baixa estatura, com a coluna já encurvada em razão da idade (64 anos) e a tinta (loira) dos cabelos já perdendo a tonalidade, calçava um chinelo de dedo e andava arrastando os pés, de forma que era possível saber de sua chegada muito antes de vê-la despontar no corredor que levava ao interior da residência.

Numa de suas idas e vindas, a senhorinha trouxe duas revistas de técnicas de desenho para o deleite dos grafiteiros, além de café com leite e bolo de fubá. “Olhem, isso aqui era do meu neto, mas ele nunca mais usou. Vejam se serve de alguma coisa para vocês”. Os rapazes se portaram como crianças, virando as páginas com a mesma satisfação de quem mata a sede com goles d’água.

A entrevista aconteceu aos poucos, à medida que o trabalho da dupla ia evoluindo. Aproveitava os intervalos entre os preenchimentos e contornos, para trocas de spray e misturas de tinta, para conseguir fazer as perguntas já planejadas, fruto de um pouco de estudo e de minha própria curiosidade, e aquelas que surgem espontaneamente, fruto da própria situação.

Ideia, suor e tinta: os dois desenhos no muro ficaram prontos em duas horas e meia (Foto: Theo Chacon)

Ideia, suor e tinta: os dois desenhos no muro ficaram prontos em duas horas e meia (Foto: Theo Chacon)

Revista Vaidapé: É comum vocês grafitarem muros com autorização, como nesse caso?

Daniel: Nem sempre tem essa de autorização. Não são todos que dão e nem sempre a gente pede. Se acharmos um muro bom, que podemos fazer uma arte expressiva para explorarmos bastante o tamanho dos desenhos e palavras conversamos com o proprietário da casa. Perguntar não ofende né? Mas é real, quase nunca somos tão bem recebidos como no dia de hoje. A mulher deu de presente uma revista de arte pra nóis mano, dá pra acreditar?!

Jozé: Quando é muro de casa e pá, propriedade de alguém, nóis pede autorização. Mas o resto mano… Tem cada painel na rua aí disponível que se eu for pedir autorização, na hora que eu voltar, neguinho já rabiscou no meu lugar (risos).

VDP: Na visão de vocês existe uma divisão entre o grafite e a pixação?

J: Essa barreira quem impõe são aqueles que não entendem o movimento, tá ligado? Eu falo assim por que eu jogo dos dois lados. Tem momentos pra grafitar e pra pixar. São duas coisas interligadas mano, uma bebe da fonte da outra. A maioria da rapa que faz grafite começou pela pixação. Tem um respeito envolvendo a cena do grafite e da pixação, até mesmo por que tem uma galera que se conhece, por frequentar os mesmos picos na noite e ficar nessa correria aí.

D: Todo mundo quer ter uma opinião formada sobre o assunto. A divisão acho que é produto também da divulgação que a mídia dá as diferentes manifestações de arte tá ligado? Quando aparece lá o Kobra, Os Gêmeos na TV, o público curte, acha bonito e pega como referência. Mas se o cara acorda de manhã e tem um ‘graff’ na porta da casa dele, ele vai ficar puto e condenar essa ação.

VDP: A postura de um pixador e de um grafiteiro é diferente?

J: Acho que não, mano… A prática gráfica é completamente diferente, os instrumentos, as técnicas e tudo mais. Mas acho que a conduta não. Um cara que sabe o que faz, independente de ser pixador ou grafiteiro, vai analisar os picos que ele pode explorar e as condições que ele tem pra fazer o trabalho.

D: Tem que ser analítico. Tem muita coisa em jogo. Precisa ver se compensa fazer, quanto tempo aquela pintura pode ficar naquele lugar, se não vai apagar cedo. Se vai ficar visível… Mas pixador mesmo faz coisa que cê nem acredita. Os cara tem uma conduta até mais arriscada. Subir num prédio de 15 andares pra colocar seu nome lá no alto não é pra qualquer um não…

VDP: A maioria das pessoas só se dá conta do pixo ou do grafite quando já tá estampado na parede e nem imagina o processo pra fazer tudo isso. Como são as experiências que antecedem a prática?

J: Toda a logística é de mil grau né, ninguém tem noção. No caso da pixação, tem cena que o que resolve é pé nas costas, às vezes três caras empilhados. Também tem vezes que tem que emendar escada pra alcançar um pico mais alto e quebrar outro maluco no pixo, deixando sua marca acima da dele.

VDP: Os pixadores tem critério para rabiscar ou essa prática acaba se tornando um vício e qualquer lugar se torna propício?

J: Pixador que tem caminhada e sabe o que faz não pixa em qualquer lugar não. Escolhe o lugar. Ele vai pixar em um pico onde a marca tem chances de permanecer intacta, tipo ladrilho, lugares altos, não muro de escola, tá ligado? Mas a pixação se torna um vício, independente do pixador. Quando você começa a espalhar sua marca pela cidade, não quer mais parar… Pelo contrário, só quer progredir, pixar em lugares mais difíceis de serem alcançados.
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O sol começava a se pôr por trás dos prédios e a falta de luz dificultava o trabalho da dupla, que já estava nas etapas finais do trabalho: fase do preenchimento com cores. Jozé trocava o bico de um spray – para conseguir um traço mais grosso -, Daniel misturava doses de látex no azul para alcançar uma tonalidade clara, eu aproveitava a caída da noite e a diminuição do trânsito de carros para bater algumas fotos com o restante de luz que o ambiente me oferecia.

Chic, chac, chic, chac, chic, chac… O ruído do arrastar dos chinelos anunciou a presença de Dona Neide. A senhorinha aproveitou a distração geral para matar sua curiosidade, estampada em suas ações desde o começo. Empunhando um spray de cor preta, Dona Neide começou a arriscar traços em um poste pequeno, próximo ao portão da casa.

“Vou desenhar uma tulipa”, anunciou a senhora. Tive a atenção sequestrada para presenciar um momento sublime. Após um momento de concentração, a senhora saiu da frente do poste no qual tinha desenhado a flor. Guardadas as devidas proporções, em se tratando de uma primeira experiência com o spray, os traços foram firmes e acima de tudo, Dona Neide ficou muito satisfeita com sua arte. “Que sensação gostosa desenhar com o spray”

Dona Neide, 74 anos, em sua primeira experiência com um spray de tinta (Foto: Theo Chacon)

Dona Neide, 74 anos, em sua primeira experiência com um spray de tinta (Foto: Theo Chacon)

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VDP: Existe uma competição entre os praticantes da arte urbana em termos de lugar para estampar sua marca?

J: Eu acho que rola, sim. No grafite mais do que na pixação… O ato de pixar, pro pixador, acaba mais sendo um vício, é difícil dele sair se ele está entrosado nesse meio. O grafite não… Pelo fato de já estar mais comercializado, há uma maior competição por lugares de destaque para se grafitar. Daí os cara que só grafitam na Vila Madalena, por que lá ele tem chance de ser visto. Mas esse tipo de grafiteiro não tem conceito na rua não. É do tipo que faz por dinheiro e não por amor, tá ligado?

VDP: O interesse da indústria e a comercialização do grafite são fatores que contribuem para a diferenciação entre o pixo e o grafite?

J: Cada vez mais vai ficar explícito pro público que o pixo é zuado e que o grafite é daora. Apesar que, atualmente, a bandeira da pixação vem sendo reerguida como um traço cultural da metrópole, o que me dá esperanças que o pixo pare de ser marginalizado. Essa divisão criada pela mídia que estimula uns caras a apagar uma agenda de 1991, cheia de assinaturas, passando uma tinta por cima e fazendo uma arte colorida, achando que está praticando uma boa ação…

VDP: Tanto a pixação quanto o grafite são manifestações efêmeras, pois podem desaparecer a qualquer momento, basta uma pintura de fachada, ou até mesmo um cara atropelar a sua marca. Mesmo assim, pelo próprio espírito de contestação dessa prática, vocês acham que vai se perpetuar no espaço urbano?

D: Eu acho que não tem fim, não. Porque ao mesmo tempo em que tão revitalizando e tampando tudo aí, tem outros mil nego pintando por cima.

J: É tudo um ciclo, entendeu? Os caras da Prefeitura vão lá, pintam o muro de branco e acham que tá tudo resolvido. Ele estando branco, já vai chamar a atenção de outros pixadores ou grafiteiros que já vão aproveitar os espaços até assiná-lo por completo novamente.
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Já eram quase sete horas da noite, a Lua já começava a despontar no céu. Faltavam os últimos detalhes para finalizar a arte, como contornos mais finos e um retoque de cores em alguns trechos do desenho. O tempo nos forçou a interromper o encontro.

Ficou acordado, entre a dupla, que eles voltariam na manhã do dia seguinte para finalizar o trabalho e, se fosse preciso, conversar com o filho de D.Neide – que segundo ela não gosta muito ‘dessas coisas’ – para contemporizar a situação.

Voltei ao local uma semana depois, para ver como tinha ficado a arte final e, pelo menos naquela ocasião, o trabalho ainda estava lá, intacto. Veremos até quando…

Jozé iniciando o seu desenho – fazendo a ‘máscara’ da assinatura e perfil de um personagem (Foto: Theo Chacon)

Jozé iniciando o seu desenho – fazendo a ‘máscara’ da assinatura e perfil de um personagem (Foto: Theo Chacon)

Uma semana depois, desenho de Jozé finalizado. No poste, a tulipa de Dona Neide (Foto: Theo Chacon)

Uma semana depois, desenho de Jozé finalizado. No poste, a tulipa de Dona Neide (Foto: Theo Chacon)

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