Ocupação Copa do Povo faz o mundo virar os olhos para déficit habitacional em São Paulo

Repercussão na mídia internacional, visita da presidenta Dilma Rousseff e do prefeito Fernando Haddad e proximidade ao Itaquerão fazem ocupação de moradia virar foco da resistência contra a Copa do Mundo

copa do povo

Por Thiago Gabriel

Não é a convocação da seleção, não é o movimento #NãoVaiTerCopa, não são as exigências padrão FIFA e muito menos a grandiosidade das novas arenas higienistas que têm cativado a discussão política  sobre a Copa do Mundo no Brasil. O grande foco de resistência e efetividade do poder popular neste momento é a Ocupação Copa do Povo, localizada a 4 km da Arena Corinthians em Itaquera, e que surge como alegoria do processo de construção do evento e das mobilizações contrárias à competição.

Quem desce na estação final da Linha 3-Vermelha do metrô dá de cara com o belo e moderno estádio corintiano, construído para sediar a abertura da Copa do Mundo. Mas ao passar a área onde os torcedores se concentrarão durante as partidas, temos um verdadeiro retrato da Zona Leste da cidade. Trânsito caótico causado por magras e disputadas faixas que são constantemente desrespeitadas pelo motorista, estressado com as horas gastas no tráfego. Um enorme hospital que não atende as necessidades da região. Comunidades pobres e agora com aluguéis inflacionados devido à valorização da região.

Segundo José Adriano, morador da região e atuante na comunidade por meio da Igreja Matriz do Carmo, ligada à Teologia da Libertação, a Ocupação Copa do Povo é uma conquista para um território que, apesar das vulnerabilidades, não possuía movimentos sociais articulados e com ações diretas na correlação de forças políticas: “Tudo o que a gente queria na Zona Leste era essa ocupação ou algo do tipo porque aqui não existem movimentos de resistência”.

José Adriano diz que os problemas no local são antigos e só agora começam a ser deflagrados e escancarados na busca por melhorias. “O hospital Sta. Marcelina não está atendendo, tá sem pediatria, aí tem uma placa mandando pro AMA (Assistência Médica Ambulatorial), e a pessoa vai sem falar nada, tem que aprender a gritar”. Não são raras as reclamações com relação aos convênios de saúde e ao serviço do hospital. Os moradores, no entanto, dizem desconfiar que durante a Copa do Mundo nenhum torcedor estrangeiro encontrará obstáculo para o atendimento no Sta. Marcelina.

Os relatos de moradores da Zona Leste que se uniram à ocupação evidenciam muitos dos problemas enfrentados na região. Meyriane afirma que o terreno onde está localizada a Copa do Povo passou 20 anos como um depósito de entulhos e resíduos, tornando-se inclusive um ponto onde ocorriam assaltos e estupros. Ela afirma que pagava de R$ 250 a R$300 pelo aluguel de um apartamento na região, e hoje o preço subiu para R$500: “Ficou um sufoco depois dessa Copa”. Jorge Luis passou a pagar R$480 onde antes pagava R$350. Com salários modestos e distâncias extensas até os locais de trabalho, fica difícil arcar com as despesas cobradas.

Situada próxima ao SESC Itaquera e ao Parque do Carmo, a Ocupação Copa do Povo, que começou na madrugada do sábado (3), conta hoje com aproximadamente 2,8 mil famílias, em terreno privado. Uma caminhada pelos barracos acende os olhares interessados dos moradores, que se encontram mobilizados com afinco e seriedade pela causa. Diferente de outras ocupações, a Copa do Povo parece possuir uma importância política diferente, mais clara. E seus participantes parecem perceber isso: dos jornalistas alemães que visitavam o local à presidenta Dilma Rousseff (PT), que se reuniu com integrantes do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), movimento que ajuda a estruturar a luta dos moradores.

Bandeira do MTST hasteada na ocupação (Foto: Reprodução)

Bandeira do MTST hasteada na ocupação (Foto: Guerrilha GRR)

O encontro, ocorrido durante visita de Dilma ao Itaquerão na última quinta-feira (8), foi decisivo para a suspensão do pedido de reintegração de posse expedido pelo juiz no dia anterior. No final da tarde, o senador Eduardo Suplicy visitou a ocupação e se reuniu com os manifestantes em reunião de coordenadores dos grupos (forma como são organizadas as ocupações do MTST). Nesse momento, foram repassados os saldos da conversa com Dilma e o prefeito Fernando Haddad (PT), anunciados a um lotado pátio que comemorou em festa a possibilidade de permanecer na luta.

A coordenadora Maria das Dores foi a responsável por reunir todos no momento do anúncio e o fez provocando uma interação incrível com seus interlocutores, arrancando risos dos presentes como quando afirmou que o encontro com Dilma levou 15 minutos: “Ué, mas não precisa meia hora, uma hora pra resolvê as coisas não, muié!”.

Em sua fala, entoou gritos de luta e comunicou-se de maneira a prender a atenção e os olhares de quem a escutava no pátio da ocupação. Afirmou que chegaram na reunião para “botá os BO em cima da mesa da muié”, referindo-se ao encontro com Dilma, e concluiu: “Se o dono quisé vende por bem, vende, senão nóis toma dele!”, arrancando aplausos e gritos de: “O povo unido jamais será vencido”.

A proposta apresentada à presidente pede para que a área onde está a Copa do Povo deixe de ser identificada como Zona Rural, o que permite ao dono do local pagar ínfimos R$57 ao ano pela posse do terreno. A intenção é que a área se torne uma ZEIS (Zona Especial de Interesse Social) e assim passe das mãos do dono para o governo, que necessariamente deverá desenvolver um projeto social, como a construção de moradias.

Às vésperas da Copa do Mundo no país, a última coisa que os governantes poderiam querer é uma ocupação próxima a um dos palcos do evento, evidenciando problemas graves da sociedade brasileira, como o déficit habitacional da metrópole. Fica difícil a eles, porém, realizar qualquer tipo de ação pela recuperação do terreno, visto que, na iminência do confronto, a reação seria negativa por parte da sociedade brasileira. E seria negativa também aos atentos olhares estrangeiros, que se voltam para o país do futebol, sem saber que este é também o país do racismo, da desigualdade, da carência de serviços públicos, de uma das polícias mais violentas do mundo…

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