Seu celular foi roubado na Virada Cultural? Foda-se

Por Paulo Motoryn

medo

Pelo que se pôde perceber nas páginas virtuais e impressas dos principais veículos de comunicação da cidade, as 24 horas da Virada Cultural deste ano em São Paulo tiveram um saldo não muito diferente do que as das últimas dez edições. Na cobertura jornalística, foi novamente nítida, apesar de talvez inconsciente, a tentativa de captar absolutamente todas as movimentações criminosas e resumir o evento aos arrastões que acontecem no centro e assustam cidadãos desacostumados com a região mais antiga da cidade e aversivos às aglomerações humanas.

Não que os delitos devessem ser ignorados, tampouco tolerados, mas é clara a intencionalidade da imprensa ao ressaltar a violência. Faz parte de um projeto político complexo, que tem no medo uma das grandes armas para a normatização da vida humana de acordo com o desejo das elites. A professora Elaine Tavares, em coluna no “Brasil de Fato”, aponta que “além da sedução para o reino das coisas, o sistema capitalista precisa atuar em outra área na vida humana, para poder garantir a perpetuação do círculo. Há que incutir o medo do outro, para estimular a competição”.

A cultura do medo está longe de ser algo abstrato. Um olhar mais atento à política institucional traz uma curiosidade: nos últimos seis anos, há intensa participação da indústria nacional de armas no financiamento de campanhas de parlamentares. Os R$ 2,4 milhões doados por empresas do ramo nas eleições de 2010 – contando apenas as doações diretas, sem investigar os mecanismos de maquiagem – são apenas um dos elementos que se relacionam à insistente tentativa dos noticiários em introjetar uma constante sensação de insegurança na população, mesmo que isso não corresponda aos números e ao clima das ruas. Os projetos de lei que pipocam no Congresso sugerindo aumento nas concessões de portes de armas também não são por acaso.

Mas tudo bem: voltemos à Virada Cultural e ao #mimimi dos que perderam seus preciosos corações  – quero dizer, celulares. Os assaltos e arrastões na Virada Cultural, repercutidos não só nos grandes veículos, mas em revoltadas postagens nas redes sociais, não são encarados como resultado de um evento que agride uma região da cidade deteriorada e por vezes esquecida pelo poder público. Também não são tratados, obviamente, como produto de uma cidade marcadamente desigual e desumana, que criminaliza o jovem pobre antes mesmo que ele pense em tornar-se um criminoso – um ladrão de galinhas, diga-se de passagem, tendo em vista a incidência de crimes muito mais danosos à sociedade entre os ricos e engravatados.

Os crimes cometidos na Virada são utilizados como muletas para fomentar a repulsa à ocupação do espaço público, o preconceito, a intolerância. Nada mais irônico: o banditismo, que, se bem analisado, poderia escancarar as contradições de classe e o abismo social, é incorporado pela ideologia dominante para sua própria argumentação política. O cidadão, submetido ao bombardeio midiático, só consegue ver a impunidade – no quarto país com a maior população carcerária do planeta – e ter a pretensa certeza de que somos reféns de uma violência sem solução. É por aí, e não apenas com as Sherazades, que nasce o fenômeno dos “justiceiros”, que acreditam fazer o certo com as próprias mãos.

Como nos lembra a obra de Foucault, a violência é resultado das relações de poder, da lógica e da racionalidade que programa e orienta a conduta humana, perpassa e atravessa as instituições e relações políticas e estrutura o funcionamento do poder. É a existência do poder, seja lá como ele se concretize, que deve ser combatida. Se seu celular foi furtado na Virada Cultural e você deseja que isso não mais ocorra, reflita, antes de berrar, gritar e espernear. Afinal, esse é o grotesco e tolo papel da imprensa, parte de um fenômeno previsto pelo lendário Joseph Pullitzer, jornalista húngaro-americano falecido no início do século passado: “Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”.

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28 responses to “Seu celular foi roubado na Virada Cultural? Foda-se

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  3. Pingback: Seu celular foi roubado na Virada Cultural? Foda-se | Blog dos Desenvolvimentistas·

  4. Pingback: Os assaltos na Virada Cultural e a lógica do medo | Portal Fórum·

  5. Tenho visto muita merda sendo escrita, mas essa aqui superou de longe… Pq além de idiota, quer ser intelectual… Imbecil… Vai trabalhar a fazer algo útil da sua vida!

  6. que preguiça desses comentários estúpidos. um monte de gente ignorante que não sai de casa, típicos daqueles que têm medo de “mendigo” – vê um na rua e troca de calçada.
    ótimo o título, boas as reflexões. parabéns!

  7. Fico triste de ver uma pessoa cheia de informação e com espaço público para trocá-la, fazer uma manifestação confusa, citando metades das metades, e pra começar, com um título que já encaminha uma linha mórbida de raciocínio.
    É importante lembrar que a principal crítica que se faz no mundo da cultura à Virada, é a concentração de investimentos em artistas já consagrados em detrimento do apoio efetivo a um projeto cultural nos bairros e periferias da cidade. Essas são ações que nasceram ainda nas gestões do PSDB e que foram perpetuadas pelo sucesso aparente, sem medir o que deixa de ser feito no cotidiano da produção de arte popular na cidade. A Virada tem o mérito de ampliar o uso do espaço público da cidade, mas não é uma ação de democratização cultural, porque na verdade é oferecer o que a cúpula quer que o povo consuma, e não oferecer a oportunidade de fruição da cultura popular.

  8. Na verdade, porque não agradecer aos bandidos porque libertaram as pessoas das amarras do celular, esse símbolo capitalista opressor neoconservador burguês e quase fálico mascu? Agora elas não vão precisar trabalhar sem contatos e emails! O bandido é o agente da libertação!

  9. Que lindo. A revolta agora é contra quem tem celular. Quem foi roubado e não pôde trabalhar na segunda porque perdeu os contatos e emails agora é um pária da sociedade opressora.
    Será que trabalhei pra comprar meus aparelhos pra ter que ler isto? Em todo caso, eu te concedo a Condecoração do Estrume por um texto tão vazio e revoltadinho com o mundo.

  10. Texto muito bom! E bem interessante que podemos ver a manifestação desse medo burro em vários comentários por aqui…

    • Dei uma olhada em outros artigos desse blog nojento e digo sem dúvidas que você já deveria ter sido proibido de escrever faz muito tempo! A esquerda te alienou muito! Deixe de ser tão extremista!

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  12. se percebermos q ha sim ligaçao entre coisas/fatos q aparentemente nao se juntam, talvez nós q somos apenas gado, guiados pelos moderadores…fazendo a cegueira ficar mais e mais cronica… poderemos contar para nos mesmos, eu falo de nos mesmos, de mim pra mim, que nossa dominaçao vem do sutil, que as armas dos que comandam é frequencial, energética, é invisivel, é forte, é cultural, sendo a cultura outro moderador de opiniao, talvez juntaremos tudo num so pote, beber a mistura e vomitar o que tava ate entao em oblives………. talvez……..

  13. péssimo… misturou um monte de coisas, colocou diversos conceitos e deixou o texto sem pé nem cabeça.
    Não tem absolutamente nada a ver as coisas que vc falou nesse texto. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
    E fica a dica que a arrogancia não é a chave para esclarecer a mente de quem precisa.

  14. Pingback: Virada Cultural: Repercussão da violência fomenta repulsa à ocupação do espaço público | Educação Integral na Cidade – Portal Aprendiz·

  15. Quando a imprensa mostra aumento nas estatísticas de SP e o Alckmin fica feio na foto, também é por causa do “projeto das elites” com base na “cultura do medo”? Deixa de ser vigarista.

  16. Caramba, nunca li tanta baboseira sem sentido e desprovida de ponto de vista. Ou tá com o rabinho preso com alguém ou precisava escrever alguma coisa pra aparecer e passar em branco no evento. Quanta cretinisse!

  17. Que retardado. Nem consegue expressar seu pensamento delirante direito. O que seria “aumento nas concessões de portes de armas”? Não existe nenhum projeto de lei a respeito disso, nem de um Bolsonaro da vida, simplesmente porque isso nem faz sentido. Sério, eu tô curioso: me explica o que seria, na sua cabeça, “aumento nas concessões de portes de armas”.

  18. Artigo fraco. A ocupação cultural no centro é uma movimentação genial, reúne ricos, pobres, “medianos” todos em um mesmo lugar com (a principio) o mesmo propósito: se divertir. Acho muito infeliz uma compreensão das criticas ao evento dessa forma repulsiva “Seu celular foi roubado na Virada Cultural? Foda-se”, porra, é uma merda ir pra qualquer lugar e se foder, seja perdendo um nokiazinho de 100 reais ou um iPhone dourado de 4000 reais, a mídia repercute só a parte infeliz? Sim. Mas não é devido a isso que qualquer pessoa que tenha se prejudicada do evento deve se foder mais. Desde quando alguem deve ser ignorado por ter tido o celular roubado? Desde quando é tudo sobre o medo? Desde quando é possível dizer que não haviam mobilizações planejando arrastões e assaltos no evento? Cara, havia mais de um evento criado abertamente no facebook de pessoas planejando assaltar…
    Vai se foder você com esse artigo ai cara…

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