Evelyn pinta a liberdade

Por Carolina Piai

negahga

Há 25 anos, a pequena Evelyn Queiróz ganhou sua primeira boneca, ela era linda e gorda. A garota chamava sua companheira de Negahamburguer. Hoje, inaugura sua primeira exposição: é ilustradora de uma personagem nomeada em homenagem à velha parceira. Seus traços trazem para superfícies a profundidade que há em toda e qualquer mulher.

A personagem, característica por se assemelhar à sua primeira boneca, tem estampada em sua testa um coração vermelho. A explicação para o que parece um toque charmoso à Negahamburguer é muito significativa: “É um chakra frontal, mais conhecido como terceiro olho. É o chakra da intuição, criatividade e que quando desenvolvido nos faz enxergar além dos olhos materiais”. Para a artista paulistana, é justamente nesse exercício de enxergar além que nasce o amor próprio: “A partir do momento em que você enxerga a beleza além do que é simplesmente visível, é onde o que é realmente belo reside. A beleza em seu estado puro é plenamente agradável. Você é perfeita quando entende que está feliz consigo”.

Evelyn trabalha tanto com ilustrações digitais e pinturas quanto com o graffiti. Sua produção é focada no universo da mulher – seus amores e suas dores estão sempre expressos na ilustre personagem, que se tornou inclusive uma “espécie de pseudônimo”. A artista comenta não se importar, mesmo porque se baseou em experiências próprias em alguns desenhos: “A Evelyn está aqui, e a Negahamburguer também. Partilhamos do mesmo espírito”. Além de suas vivências, trabalha a partir de relatos de outras mulheres.

A nova exposição, chamada “A culpa não foi sua”, é baseada em histórias reais e tem como tema o estupro. Os retratos expressam a força e a resistência contra essa violência que é concreta no Brasil: de acordo com a Secretaria de Políticas para Mulheres, a cada 12 segundos uma mulher é estuprada no país. O projeto antecedente a esse, que reflete a maior parte de seu trabalho, é o “Beleza Real”. A partir de relatos que mulheres mandaram à Evelyn por e-mail “por livre e espontânea vontade”, a artista lançou um livro repleto das mais belas ilustrações por meio de financiamento coletivo. “As fortes histórias nele publicadas servem como uma visão das coisas que acontecem na vida de mulheres. Funciona como acionador para quem já sofreu a mesma coisa não se sentir sozinha para superar coisas que já aconteceram e se sentir linda, como sempre foi”.

Em um cenário caótico, Evelyn aparece como uma inspiração para milhares de pessoas, a fanpage da “Negahamburguer” no Facebook já alcançou 74 mil seguidores. Basta conhecer os dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) para se constatar que indústria da beleza, aliada à mídia, tem papel estarrecedor na realidade das brasileiras. O país é o segundo maior realizador de cirurgias plásticas no mundo, de acordo com a SBCP.

Ana Lúcia de Castro, em “Culto ao corpo e sociedade: mídia, estilos de vida e cultura de consumo”, resgata um ponto essencial para que a obsessão por um ideal de beleza seja entendida: a indústria da beleza é brutalmente lucrativa no Brasil. Enquanto a indústria, como um todo, teve queda no nível de emprego desde 1985, “o setor em foco apresentou tendência oposta”, aponta a autora. Em 1999, o setor de beleza empregava 52,41% acima da média de 1985, já a indústria total empregava praticamente 50% a menos do que o fazia nesse mesmo ano.

“É inegável a influência da mídia hoje, particularmente da TV, na formação da subjetividade da população. Os modelos – de valor, beleza, felicidade – são introjetados desde a mais tenra infância e passam a ser modelos aspiracionais”, explica Rachel Moreno, em “A Beleza Impossível – Mulher, Mídia e Consumo”. Por meio de um bombardeio de imagens de mulheres esbeltas e brancas, em esmagadora maioria, a mídia exerce seu poder. Rachel retoma o filósofo Michel Foucault e afirma: “essa é uma forma de controle social sutil e eficiente, que se dá não por intermédio de regras, imposições e repressão, mas pela produção de imagens socialmente valorizadas”.

Assim, a mídia e esse setor da indústria constroem, juntos, um sistema que enclausura mulheres a modelos de beleza praticamente impossíveis de serem atingidos. Em uma fresta desse sistema quase impenetrável, afloram artistas como Evelyn Queiróz, que mostram a força da mulher como ela é. “Eu acredito que a arte tem o poder de funcionar de dentro para fora. (…) ela te faz pensar e refletir, rever seus conceitos e visão sobre as coisas. Te ajuda a criar sua própria linha de pensamento, e isso pode ser transformador”, comenta Evelyn. A Negahamburguer funciona exatamente dessa forma: revoluciona a vida de mulheres ao resgatar seu amor próprio, que deve ser independente de quaisquer padrões, ou prisões. Negahamburguer é liberdade.

“A culpa não foi sua”, de Negahamburguer
Espaço Húmus – Rua Russia, 53, Jardim Europa, São Paulo
De 27 de maio a 10 de junho
De 2ª a 6ª feira das 14h às 18h
Entrada gratuita

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s